domingo, 10 de maio de 2020

FAMILIA - DIA DAS MÃES, UM DIA COMO TODOS OS OUTROS?


Há os ventos da alma...



Quem é este ser que permite o habitar de outro ser, o qual ao sair de suas entranhas, torna-se sua razão de ser?
Quem é este ser, que, como primeiro ato consumado, serve de alimento para o ser por si criado?
Mãe, palavra originada a partir de uma ação concreta, do fornecer o alimento para a criança...
Sua mama é a chave primeira para o ato mais nobre dos seres que, mais que viverem na natureza, a recriam e a transformam, ao seu interesse e semelhança.
Ser mãe é isso... O doar-se para a geração...
Dessa doação, nos seres humanos em geral, emana um sentimento que resume o que de melhor a humanidade já produziu: O Amor...
Celebrar a existência de todas as mães do mundo é um fenômeno cultural de profundo conjunto de sentimentos... Se o amor resume todos eles, é válido lembrar que neste meio se encontra o afeto, a saudade, a preocupação, a alegria, a dor... E quando as emoções não encontram mais palavras para se justificar, a ação que permanece é a do Choro, emoção sensivelmente não elaborada, que diz muito, mesmo quando não consegue dizer nada...
Fui criado numa cultura eurocêntrica, por isso, ou apesar disso, aprendi a valorizar a mãe para além de sua particularidade, ou seja, cada ser gerado deveria ter uma forma de mãe que contemplasse apenas o que de melhor as mães da história já registraram, mas em verdade, o mundo não funciona dessa forma...
E que bom que não funciona!
Seria tedioso se todas as mães fossem apenas Deusas e não seres humanos, contraditórios, únicos!
Aos Deuses da história, que destaquemos Reia, a mãe dos Deuses... Ou a Mãe Terra, como também a chamam... Pachamama, melhor dizendo...
Sim, existem referências históricas e muitas outras mitológicas...
Mas ninguém é igual a minha mãe!
Capitalistas podem vender a imagem da mãe branca, bonita, sempre sorridente, dona de casa, recatada e do lar... que merece uma mercadoria em forma de homenagem...
Outros ainda podem carregar a mágoa de momentos históricos impeditivos, os quais não permitiram que mulheres, pelas mais variadas razões, fossem mães, ou ainda, se o fossem, não tenham vivido o momento mãe com seus filhos e filhas...
Mas repito, ninguém é igual a minha mãe!
Por isso estou cansado de dar voltas sobre a necessidade de justificar um dia a mais, para celebrar a vida e todos os momentos que passamos juntos...
O dia das mães, apesar de todas as contradições, em especial sua perversa metabolização pelo capitalismo, não é um dia como todos os outros...
Se sinto a segurança em afirmar que minha mãe me ama, me amou e me amará durante todos os dias de sua vida, isso é mais do que suficiente para justificar que sim, ela merece ser amada todos os dias também!
Porém, ao somarmos nosso amor, em especial na minha família, considerando que minha mãe teve seis filhos, a celebração de um dia a mais, para resumir e recordar, o ato de ser mãe, mas não de qualquer mãe e sim da minha mãe, é sem dúvida, de extrema necessidade!


Mãezinha, estou distante, mas estou perto, estou triste, mas estou feliz, porque eu te amo e sempre te amarei.
Se a contradição desse menino, programado para nascer, que fugiu de perto de sua asa, para voar ainda mais longe do que o horizonte aponte, é sabido que seu ninho, onde você estiver, é e sempre será meu eterno refúgio! Por isso meu amor por você transborda e se multiplica... pelo menos por três!


E as palavras vêm a mente apenas para tentar elaborar a profundidade de emoções que não se explicam, mas que explodem em mim, principalmente no atual momento pandêmico que vivemos...
Por isso, não haverá álcool em gel, máscara ou isolamento que me impeça de te contagiar... Com meu amor, minha saudade, enfim, a manutenção de minha esperança na humanidade, tendo como referência maior o amor que você depositou em mim, desde o ato de minha criação até os cabelos brancos que já me atingem nesses trinta e poucos anos...
Te amo demais!!!

Mas fica em casa, tá?

Que os ventos de minha alma, pedindo ajuda para Mercedes Sosa... cheguem até você e a nossa linda, amada e única família!










 Com cambaleante carinho... 

Seguindo os ventos da liberdade...

Marcos com Orgulho CORDEIRO...

sexta-feira, 8 de maio de 2020

DONICIA - PROPOSTA DE TRABALHO COM TEMAS GERADORES


PROPOSTA DE TRABALHO COM TEMAS GERADORES
PARA OS ANOS FINAIS
EBM DONICIA MARIA DA COSTA



Florianópolis, 08 de Maio de 2020. 




Iniciando o diálogo, justificando e avançando...







A concepção metodológica de Paulo Freire, para a educação está sistematizada em várias obras, mas nos deteremos, neste primeiro momento, ao livro Pedagogia do Oprimido. São quatro capítulos. O primeiro com proposição de justificar a exposição de sua tese. O Segundo capítulo apresenta a crítica ao que o autor chama de Educação Bancária. Essa crítica serve de base para então propor saídas no processo pedagógico. Essa ação é a que nos interessa nesse primeiro momento.
No Capítulo 3, é exposto o entendimento da “essência da educação como prática da liberdade”, título que também está presente num livro anterior ao pedagogia do oprimido, interessante para uma leitura posterior. Por fim, no capítulo 4, nos é apresentado a teoria da ação antidialógica.
Mas voltemos ao capítulo 3. Para Freire (1987), essa essência da educação como prática da liberdade é a “dialogicidade”. Esse conceito precisa de uma outra elaboração, por isso tratarei aqui apenas como a necessidade de diálogo, na horizontalidade do estabelecimento de relações humanas, em específico nas relações Educador-Educador, Educador-Educando, Educador-Familia, Família-Educando a partir da atividade proposta pelo Educador e Educando-Educador, como resposta de síntese relacionada a determinada tarefa, mas também como ponto de partida para manutenção do diálogo (aprendizado), da dialogicidade em tempos de pandemia.
Dessas relações destacamos uma primeira problemática, ou melhor, uma primeira “situação-limite”[1]: Como dialogar com os estudantes durante a pandemia?
Para responder essa primeira pergunta vamos ao item do livro “o diálogo começa na busca do conteúdo programático” (1987, p.53). Ele começa afirmando que:

Daí que, para esta concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o educador-educando se encontra com os educandos-educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação (grifo meu).

Em nossa reunião do dia 07 de maio ficou evidente o quanto estamos, grosso modo, inquietos no sentido do que fazer diante da pandemia e a obrigatoriedade de planejar “aulas não presenciais”. Isso fica ainda mais escancarado ao identificarmos que as primeiras iniciativas de nosso coletivo obtiveram pouquíssimo retorno dos estudantes, por algumas razões conhecidas, tais como a vulnerabilidade social, acesso a internet etc. mas também outras razões desconhecidas, dentre elas o real interesse dos educandos acerca do que está sendo proposto, a dificuldade de articulação das disciplinas e as dúvidas frente a que caminho percorrer: Revisão de conteúdos? Conteúdos novos? Trato com os educandos com diagnóstico de deficiência ou TEA? Afinal QUÊ FAZER???
Seguindo a concepção metodológica de Paulo Freire, nada melhor que problematizar toda essa situação para que possamos vislumbrar, coletivamente, “inéditos-viáveis”[2]. É nessa perspectiva que esse texto agora se apresenta, pois, a partir da construção de “Temas-Geradores”, objetivamos dar sentido e de fato produzirmos coletivamente, em especial com os nossos educandos, esses inéditos-viáveis.
Nas palavras de Freire,

A educação autêntica, repitamos, não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de “A” com “B”, mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele. Visões impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças ou desesperanças que implicitam temas significativos, à base dos quais se constituirá o conteúdo programático da educação (1987, p.54).

Dessa citação já é possível lembrarmos o que nossos companheiros e companheiras das Ciências, História e Geografia estão caminhando enquanto planejamento. Ou seja, nosso tema gerador “Terra” já está bem embasado para ser ampliado com as demais disciplinas, pois inclusive já está sendo dialogado com os estudantes através do pioneirismo anterior a esse planejamento. Nos resta agora destacar a necessidade da relação Professor “com” Estudante, mediatizados pelo mundo. Em tempos de pandemia esse Planeta Terra e seus moradores, em especial os seres humanos, compartilham de visões, como afirmou Freire, ainda mais “impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças ou desesperanças que implicitam temas significativos” (p.54, 1987).

EEEM Santo Antônio: Tema Gerador de 2017


Tema Gerador: Conceito Chave.


É preciso primeiramente considerarmos, antes de qualquer proposição, a situação da Pandemia, da atual forma organizativa de nosso trabalho, da realidade de nossos educandos, enfim, da conjuntura, pois como nos afirma Paulo Freire,

Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da situação ou da ação política, acrescentemos. (1987, p.55).

Dito isso, o tema gerador consiste em propor, através dessa situação presente, questionamentos, desafios, que permitam ao educando se reconhecer como parte da problemática, ou seja, não doar aos educandos “conteúdos que pouco ou nada tenham a ver com seus anseios, com suas dúvidas, com suas esperanças, com seus temores. Conteúdos que, às vezes, aumentam estes temores” (FREIRE, 1987, p.55). Lembrando que a base metodológica por ele proposta visa “a libertação da opressão”, portanto parte da relação dialética entre opressor e oprimido. Não entraremos nessa temática agora em função da singularidade de nossa necessidade, mas é preciso destacar essa relação primeira para não cairmos na negação das limitações de nossos estudantes, o que implicaria negativamente na formulação coletiva do planejamento pedagógico a partir de temas geradores.
Na configuração do Ensino Fundamental de nossa escola, é preciso usar o Tema-Gerador, como um guarda-chuva, ou seja, abrigar as disciplinas abaixo da temática, de modo a permitir que todas sigam caminhando articuladamente, em diálogo e relação direta com nossos educandos, perspectivando seu crescimento individual, mas cientes das limitações decorrentes do ensino remoto, bem como da falta de nossa mediação em tempo real com cada educando em seu processo de aprendizado.
O Tema-gerador é um elemento, nas palavras de Freire (1987), da “realidade mediatizadora” o qual precisamos buscar com os próprios educandos. Esse buscar, em ação-reflexão, “é o momento em que se realiza a investigação do que chamamos de universo temático do povo ou o conjunto de seus temas geradores (FREIRE, 1987, p.56).

Em verdade, o conceito de “tema gerador” não é uma criação arbitrária, ou uma hipótese de trabalho que deva ser comprovada. Se o “tema gerador” fosse uma hipótese que devesse ser comprovada, a investigação, primeiramente, não seria em torno dele, mas de sua existência ou não. (FREIRE, 1987, p.56).

Ou seja, o tema gerador “Terra” é o primeiro de muitos que poderemos elencar, na medida em que formos ganhando confiança coletiva dessa articulação, buscando nessa realidade mediatizadora, pandêmica, mas sem nos frustrar com o ‘abrir mão’ de conteúdos curriculares, o que é melhor para nossos educandos. Os conteúdos também fazem parte dessa realidade, diria até mais, são elementos mediatizadores da realidade, por isso sua importância. Mas diante desse momento de isolamento social, da falta dessa mediação educador-educando orgânica, presencial, a aposta metodológica via tema gerador deve ser considerada.
A noção de “temas” juntamente com a ideia de “geração” carrega a possibilidade do novo, que surgirá a partir da ação de nossos educandos frente aos desafios-temas que problematizarmos com eles. Em outras palavras,

Estes temas se chamam geradores porque, qualquer que seja a natureza de sua
compreensão como a ação por eles provocada, contêm em si a possibilidade de desdobrar-se em outros tantos temas que, por sua vez, provocam novas tarefas que devem ser cumpridas. (FREIRE, 1987, p.122).

Nesse interim, a leitura de todo o Capítulo 3 do livro Pedagogia do Oprimido, deve estar em nosso horizonte, até para qualificarmos esse primeiro diálogo-texto ora compartilhado.

Investigação científica estudo vetor | Vetor Grátis




Da investigação temática







A realidade objetiva é um desafio ao qual os seres humanos, homens e mulheres, crianças, adolescentes e adultos, profissionais e estudantes, têm de responder. Talvez, o fatalismo presente no cotidiano de nossos educandos, mas também entre nós professores e professoras, nos imponha apenas “situações limite” que ainda não nos permita identificar respostas mais otimistas acerca do futuro. 
Antes mesmo da Pandemia já identificávamos entre os educandos um alto índice de baixa autoestima, desinteresse, automutilação entre outros problemas da realidade objetiva de nossa comunidade.
Segundo Paulo Freire é neste conjunto de contradições fatalistas que vislumbramos vários temas geradores, bem como possíveis caminhos de sua superação, percebam:
E nesta forma expressada de pensar o mundo fatalistamente, de pensá-lo dinâmica ou estaticamente, na maneira como realizam seu enfrentamento com o mundo, se encontram envolvidos seus “temas geradores”.
Ainda quando um grupo de indivíduos não chegue a expressar concretamente uma temática geradora, o que pode parecer inexistência de temas, sugere, pelo contrário, a existência de um tema dramático: o tema do silêncio. Sugere uma estrutura constituinte do mutismo ante a força esmagadora de “situações-limites”, em face das quais o óbvio é a adaptação.
É importante reenfatizar que o “tema gerador” não se encontra nos homens isolados da realidade, nem tampouco na realidade separada dos homens. Só pode ser compreendido nas relações homens-mundo.
Investigar o “tema gerador” é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis (FREIRE, 1987, p.62, grifos meus).

A ideia da investigação temática é, portanto, um dos princípios educativos da metodologia proposta. Em outras palavras, o exercício da pesquisa, o aguçar da curiosidade a partir de desafios implícitos e explícitos nos temas geradores, permite tanto aos educandos como aos educadores, a qualificação desse diálogo que tanto informa quanto forma a ambos, cada um no grau respectivo a sua experiência. Sendo assim,

A investigação temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se a um ato mecânico. Sendo processo de busca, de conhecimento, por isto tudo, de criação, exige de seus sujeitos que vão descobrindo, no encadeamento dos temas significativos, a interpenetração dos problemas (FREIRE, 1987, p.64, grifos meus).

Nessa perspectiva podemos propor temas-geradores, mas isto não nos classifica como sendo apenas nós os sujeitos exclusivos da investigação. O objetivo é sermos investigadores conjuntamente com os educandos, tarefa essa bastante limitada devido a forma não presencial do ensino neste momento.
Talvez, em função dessa situação problema, nosso primeiro objetivo seja, além de planejar a partir da metodologia dos temas geradores, também buscar a manutenção do vínculo dos educandos com a escola, com as nossas disciplinas curriculares, enfim, conosco enquanto agentes de sua formação.
A formulação de estratégias para avaliarmos, num período curto, se estamos ou não avançando satisfatoriamente em relação a esses objetivos, deve ser o pressuposto para o desvelar de inéditos viáveis e novas formas de seguir no processo de formação com os educandos ao longo do período de isolamento social, com as aulas não presenciais, a partir dos temas geradores.
É claro que ainda há muito mais a acrescentar em relação a obra de Paulo Freire, em especial do capítulo 3 até aqui exposto, mas por hora finalizo essa reflexão-proposição e, a depender de nosso avanço coletivo, me disponho a ir elaborando o aprofundamento da proposta Paulo Freiriana em futuros novos textos.
Sempre na luta,
Marcos Cordeiro Bueno (Canguru).




[1] Conforme entende Paulo Freire, ao citar PINTO (1960), afirma que “as “situações-limites” não são “o contorno infranqueável onde terminam as possibilidades, mas a margem real onde começam todas as possibilidades”; não são “a fronteira entre o ser e o nada, mas a fronteira entre o ser e o ser mais" (mais ser) (FREIRE, 1987, p.122).
[2] O inédito viável nada mais é do que “soluções praticáveis” até então despercebidas, em oposição as percebidas ou as efetivamente já realizadas. Ele surge na medida do avanço da busca investigativa de temas geradores em meio às situações problemas (FREIRE, 1987).