Boa noite, pessoal! Após vários adiamentos, amanhã iniciamos mais uma greve em nossa categoria. Contudo, diferente de tudo que já experienciamos até hoje, não será uma greve por reajuste salarial ou para manter nossos direitos trabalhistas... Pela primeira vez na história de nosso sindicato e na história de muitos outros sindicatos mundo a fora, aprovamos uma greve para continuarmos vivos! Isso mesmo, a greve pela vida é, de fato, para que cada estudante, cada familiar responsável, cada trabalhador e trabalhadora da educação não coloque sua vida em risco, uma vez que nosso trabalho no magistério é, em resumo, de aglomeração diária. Negar isso é negar o próprio processo pedagógico.
Não é uma greve para defender o trabalho remoto. Até porque o trabalho que vem sendo realizado, com todo o compromisso e exaustão de nossos educadores e educadoras não é o ideal de educação que defendemos. Defendemos o ENSINO PRESENCIAL. Mas o mesmo só pode voltar a acontecer com condições reais de segurança e controle da pandemia!
Repito, não é greve para trabalharmos remotamente. É greve para garantirmos nossas vidas e a dos demais envolvidos no processo pedagógico. O direito a vida é o essencial. Enquanto o Gean, Moisés e Bolsonaro seguem com palavras diferentes para concretizar na prática a mesma política genocida, nós trabalhadoras e trabalhadores do serviço público municipal de Florianópolis, com o início da greve a partir de amanhã, estamos reafirmando nosso papel na luta de classes!
O mapa de nosso sindicato indica que apenas 5 das 120 unidades educativas vão retornar amanhã. A prefeitura de forma sorrateira, após a aprovação de nossa greve na última assembleia da categoria, saiu ligando para algumas unidades educativas sugerindo que trocassem a data de início do ensino híbrido para o dia 05 de abril. Se o objetivo foi enfraquecer nosso movimento, o fato é que só aumentou nossa indignação, além de comprovar que a própria secretaria municipal de educação não quer forçar tanto o retorno porque sabe que muitas unidades educativas não têm sequer condição estrutural para abrirem as portas.
Estamos numa encruzilhada. De um lado o descaso plantado pela secretaria, com a narrativa de que não vale a pena entrar em greve porque a maior parte das escolas e neims só retornarão em abril; do outro lado a realidade do risco de vida para as/os profissionais, estudantes e familiares das 5 unidades educativas que abrirão as portas amanhã... Como profissional da educação é nosso dever antever o cenário que se aproxima.
Assim como no poema “Intertexto” (1) de Brecht , se não fizermos nada antes do retorno dessas cinco unidades, depois será tarde, pois não teremos legitimidade para defendermos uns aos outros. Agora é greve! Vamos parar os trabalhos para não morrermos trabalhando.
Enfim, queremos viver! Estamos vivendo o momento mais derradeiro de nossas vidas. A catástrofe já é real em nossas UPAs e Hospitais. Seremos mais um número na lista de espera para UTI que segue lotada, ou reafirmaremos nosso protagonismo dizendo não ao trabalho sem condição sanitária e segura?
Nossas companheiras e companheiros da Saúde estão exauridos diante do colapso do sistema. Com o retorno das aulas presenciais toda uma cadeia produtiva volta a rodar, com aglomeração não apenas na escola, mas no transporte público, na porta da escola, no trânsito, e, consequentemente, no próprio sistema de saúde que terá ainda mais pessoas com necessidade de tratamento.
É pela vacina para toda população, é pelo auxílio emergencial até o fim da pandemia, é pelo direito a vida de toda classe trabalhadora e dos filhos e filhas da classe trabalhadora!
Nossa categoria decidiu: É GREVE! Cabe agora a cada um e cada uma tomar posição e assumir seu protagonismo na história! É tempo de resistência e só o nosso cruzar de braços, unidos, pode abrir a chance de seguirmos o trabalho tal como está, com as escolas e neims fechados até o fim da pandemia. A máxima “o ensino se recupera, vidas não” nunca fez tanto sentido quanto o momento atual.
É momento de colocarmos nossa criatividade em prática, propor saídas para fortalecer a mobilização, para ocupar os espaços virtuais, para construir um caminho que priorize a vida e não o interesse dos agentes da morte, que preferem estar em Cancun de férias quando seu povo lota as UTIs... É tempo de resistência, pela vida! Retorno só com vacina!
Sempre na luta.
Marcos Canguru – Resistência Florianópolis e Coletivo Travessia.
Abaixo o Poema para ficar no registro do Blog:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht.
