quarta-feira, 29 de julho de 2020

Abre o Zóio Siri de Mangue!


Contribuição de análise de conjuntura para a 9º Semana da Capoeira.

Uma roda de capoeira com um vereador, várias mulheres, professoras e ainda alguns sindicalistas, promete ter bons jogos, em especial para derrubarmos nossos inimigos feitores, capitães do mato e senhores do engenho...
Esses eram os nomes dos inimigos de ontem, agora é preciso identificarmos quem são esses inimigos em nossos dias. É verdade também que desde os tempos da escravidão haviam contradições nas lutas por libertação, como o exemplo da guarda negra que protegeu a Princesa Isabel, ou ainda cooptação de negros para participação na guerra do Paraguai.
Nos dias de hoje há os que lutam, mas também há os que desfrutam. Neste momento 2.153 bilionários possuem mais riqueza que 60% da população mundial (cerca de 7,8 bilhões – Jul/2020).  Ou seja, a riqueza dessas 2.153 pessoas é equivalente a riqueza de 4,6 Bilhões de pessoas. Nosso país, por exemplo, tem 210 milhões de pessoas, apenas para termos uma noção da dimensão dessa desigualdade.
Nós, na condição de cidadãos brasileiros, capoeiras e trabalhadores, temos o dever de transformar essa injustiça, mas nos entendendo como agentes de transformação. Se não há condições iguais de oportunidade para todos não é possível defender a tese que “basta correr atrás que você consegue”. Vamos a dois exemplos:
1° Exemplo – Muitos professores e mestres de capoeira atuam na informalidade, de modo que ao longo da pandemia muitos estão em situação de vulnerabilidade econômica. Há ainda outros que não dependem da capoeira como sustento principal, mas que também trabalham informalmente em outras áreas. Bimba, o estivador, foi um desses exemplos ao longo da história.
Nesse momento de crise é que precisamos do Estado para nos amparar, ou seja, dos impostos que pagamos todos os dias, em cada quilo de arroz ou feijão, ou ainda descontado de nosso salário no final de cada mês, temos o direito de receber assistência até que a crise passe.

“Contudo, no final de junho, o governo federal distribuiu apenas 10% da ajuda financeira prometida a trabalhadores e empresas, via Programa de Apoio ao Emprego de Emergência (PESE), com grandes empresas obtendo mais benefícios do governo do que trabalhadores ou micro e pequenas empresas. Da mesma forma, apenas 47,9% dos fundos destinados à assistência de emergência a pessoas vulneráveis foram distribuídos no início de julho.”

Na prática isso significa que 10 milhões de pessoas em situação de fome ainda esperam ser aprovadas para receber o auxílio emergencial. Ou seja, quase 90 bilhões de reais que poderiam auxiliar as famílias, ainda não saiu dos cofres públicos, mesmo já estando aprovados para tal. Como dizia um dos capitães do mato da atualidade, o ministro da economia Paulo Guedes, “Já colocamos a granada no bolso do trabalhador”. Sim, esse mesmo capitão do mato teve a cara de pau de afirmar que só deveriam ser ajudadas as grandes empresas, pois as pequenas não dão lucro. De fato para ele as vidas não importam.
Entre desempregados e desalentados no Brasil temos hoje cerca de 17,7 milhões de pessoas. Isso representa 12% da população em idade para trabalhar que está na rua...
2º Exemplo – Além da desigualdade econômica vivemos uma desigualdade étnica e de gênero. O feitor de ontem é o “neofascista” de hoje. É preciso dar nome aos bois, ou melhor, ao gado. O racismo e o machismo são elementos estruturais de nossa sociedade, não vieram com o Bolsonaro. Mas é pelo governo atual que movimentos fascistas têm crescido, o que aumenta o risco de vida do povo pobre, mas em especial dos negros, indígenas e das mulheres. Por exemplo, a cada 100 homicídios no Brasil, 75 são de pessoas negras. Com a pandemia dispararam os casos de violência doméstica contra a mulher, em especial em nosso estado, o qual tem uma mulher no próprio nome. Sei que outras pessoas trarão mais elementos sobre a questão racial e de gênero, por isso vou me ater a apenas mais alguns elementos:
72,7% da população pobre é composta por negros. Já entre as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, que não possuem renda superior a 145 reais por pessoa da família, 27,2 milhões são de mulheres negras. Se isso já é muito, o fato é que a renda por pessoa da família, entre pessoas negras é a metade do valor médio da renda de famílias brancas.
Nós precisamos lutar contra essas desigualdades, a começar pela defesa do avanço das políticas de equiparação social, as quais vem sendo destruídas no governo atual. Do jeito que as coisas vão, levaremos 202 anos para que as mulheres desfrutem do mesmo direito dos homens, apenas como exemplo.
Vivemos um governo que incentiva o fascismo. E foi o fascismo que assassinou Mestre Moa de Catende, foi o fascismo que matou Marielle Franco, é o fascismo militarizado que vem matando a juventude negra nas comunidades de nossa cidade, a exemplo das ações militares no morro do mocotó, do mont serrat, morro do quilombo e tantos outros. O número de pessoas mortas pela polícia militar no Brasil aumentou durante a pandemia. Nosso país é o que tem a polícia que mais mata e também o que mais policiais morrem. O direito a vida é de fato o direito pelo qual temos que lutar.
Mas estão roubando nossos direitos. A reforma trabalhista, a lei das terceirizações, a reforma da previdência, o sucateamento do serviço público, estão aí como armas do capital para fortalecer banqueiros e seus cofres, enquanto socializa para 99% da população apenas a pobreza e a miséria.
Nesse jogo a capoeira é mais que um patrimônio, é um bem cultural maravilhoso, singular, único! Mas sua prática ganha muito mais sentido quando aliada à sua história. É preciso reconhecer os avanços e os percalços.
Enfim, é preciso conclamar os capoeiras para realmente abrirem os olhos, pois a pandemia, vai passar, mas a luta contra o feitor permanece em nossos dias. É preciso identificarmos nossos inimigos, lutarmos para manter viva nossa história, mas principalmente, construirmos uma sociedade justa e igualitária, na qual o jogo da capoeira, a roda da capoeira, sejam mais que um patrimônio da humanidade, sejam bem culturais públicos, a serviço de nossa nação, tendo seus mestres e professores a proteção do estado para manutenção de nossa cultura.
Hoje são vários os movimentos em luta contra o governo e a lógica perversa do capital. Vidas Negras Importam, Fora Bolsonaro! Solidariedade a população necessitada! Em defesa do serviço público! Todo apoio as lutas dos trabalhadores entregadores de aplicativos! Contra o Genocídio, precisamos salvar vidas, não o lucro!
Seguindo as palavras de Mestre Cícero,
“Eu sou capoeira, eu sou cantador, sou menino na hora da paz, sou guerreiro na hora da dor...” Iê Camará!

Minha gratidão ao Fórum pela oportunidade e aos grandes camaradas Danusa, Marquito, Vitinho, Jumeri e Elisa que contribuíram imensamente em minha formação no dia de hoje. Abraços.


Referências dos dados:


segunda-feira, 20 de julho de 2020

FELIZ DIA DO AMIGO!




Pessoal, dizem que hoje é O DIA DO AMIGO. Como professor, para comemorarmos esse dia, ainda que distantes de nossos amigos e de nossos educandos, me permito citar as palavras de Paulo Freire na expectativa de fazermos desse dia um dia do amigo coerente com as necessidades de construção da humanidade. No caso do Brasil, na expectativa que no dia do amigo tenhamos a aprovação do #FUNDEBpraValer, sem emendas e destaques, sem a pegadinha do governo federal que é INIMIGO da educação. Como afirmava Paulo Freire (1996, p.36-37):
Como professor, se minha opção é progressista e venho sendo coerente com ela, se não me posso permitir a ingenuidade de pensar-me igual ao educando, de desconhecer a especificidade da tarefa do professor, não posso, por outro lado, negar que o meu papel fundamental é contribuir positivamente para que o educando vá sendo o artífice de sua formação com a ajuda necessária do educador. Se trabalho com crianças, devo estar atento à difícil passagem ou caminhada da heteronomia para a autonomia, atento à responsabilidade de minha presença que tanto pode ser auxiliadora como pode virar perturbadora da busca inquieta dos educandos; se trabalho com jovens ou adultos, não menos atento devo estar com relação a que o meu trabalho possa significar como estímulo ou não à ruptura necessária com algo defeituosamente assentado e à espera de superação. Primordialmente, minha posição tem de ser a de respeito à pessoa que queira mudar ou que recuse mudar. Não posso negar-lhe ou esconder-lhe minha postura mas não posso desconhecer o seu direito de rejeitá-la. Em nome do respeito que devo aos alunos não tenho por que me omitir, por que ocultar a minha opção política, assumindo uma neutralidade que não existe. Esta, a omissão do professor em nome do respeito ao aluno, talvez seja a melhor maneira de desrespeitá-lo. O meu papel, ao contrário, é o de quem testemunha o direito de comparar, de escolher, de romper, de decidir e estimular a assunção deste direito por parte dos educandos.
Recentemente, num encontro público, um jovem recém-entrado na universidade me disse cortesmente:
“Não entendo como o senhor defende os sem-terra, no fundo, uns baderneiros, criadores de problemas.”
“Pode haver baderneiros entre os sem-terra”, disse, “mas sua luta é legítima e ética”. “Baderneira” é a resistência reacionária de quem se opõe a ferro e a fogo à reforma agrária. A imoralidade e a desordem estão na manutenção de uma “ordem” injusta.
A conversa aparentemente morreu aí. O moço apertou minha mão em silêncio. Não sei como terá “tratado” a questão depois, mas foi importante que tivesse dito o que pensava e que tivesse ouvido de mim o que me parece justo que devesse ter dito.
É assim que venho tentando ser professor, assumindo minhas convicções, disponível ao saber, sensível à boniteza da prática educativa, instigado por seus desafios que não lhe permitem burocratizar-se, assumindo minhas limitações, acompanhadas sempre do esforço por superá-las, limitações que não procuro esconder em nome mesmo do respeito que me tenho e aos educandos.

Se o ditado popular afirma que o cão é o melhor amigo do homem, talvez seja mais válido lembrar que sem o professor e a professora, as chances do homem respeitar o cão em sua singularidade talvez sejam infinitamente menores. Por isso, vale a máxima para o dia de hoje: Feliz aquele e aquela que aprenderam ou ainda aprendem com seus professores a professoras a construírem uma sociedade justa e igualitária, respaldada no direito à vida de todos os seres, na coletividade, na socialização dos meios de produção, enfim, fundada e multiplicada no amor. Boa semana à todes!
 
Referência:
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 25° Ed. 1996.