PROPOSTA DE TRABALHO COM TEMAS
GERADORES
PARA OS ANOS FINAIS
EBM DONICIA MARIA DA COSTA
Iniciando o diálogo, justificando e avançando...
A concepção metodológica de
Paulo Freire, para a educação está sistematizada em várias obras, mas nos
deteremos, neste primeiro momento, ao livro Pedagogia do Oprimido. São quatro
capítulos. O primeiro com proposição de justificar a exposição de sua tese. O
Segundo capítulo apresenta a crítica ao que o autor chama de Educação Bancária.
Essa crítica serve de base para então propor saídas no processo pedagógico.
Essa ação é a que nos interessa nesse primeiro momento.
No Capítulo 3, é exposto
o entendimento da “essência da educação como prática da liberdade”, título que
também está presente num livro anterior ao pedagogia do oprimido, interessante
para uma leitura posterior. Por fim, no capítulo 4, nos é apresentado a teoria
da ação antidialógica.
Mas voltemos ao capítulo
3. Para Freire (1987), essa essência da educação como prática da liberdade é a “dialogicidade”.
Esse conceito precisa de uma outra elaboração, por isso tratarei aqui apenas como
a necessidade de diálogo, na horizontalidade do estabelecimento de relações
humanas, em específico nas relações Educador-Educador, Educador-Educando, Educador-Familia,
Família-Educando a partir da atividade proposta pelo Educador e Educando-Educador,
como resposta de síntese relacionada a determinada tarefa, mas também como
ponto de partida para manutenção do diálogo (aprendizado), da dialogicidade em
tempos de pandemia.
Dessas relações destacamos
uma primeira problemática, ou melhor, uma primeira “situação-limite”[1]: Como dialogar com os
estudantes durante a pandemia?
Para responder essa
primeira pergunta vamos ao item do livro “o diálogo começa na busca do conteúdo
programático” (1987, p.53). Ele começa afirmando que:
Daí que, para esta
concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o
educador-educando se encontra com os educandos-educadores em uma situação pedagógica,
mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes.
Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do
conteúdo programático da educação (grifo meu).
Em nossa reunião do dia
07 de maio ficou evidente o quanto estamos, grosso modo, inquietos no sentido
do que fazer diante da pandemia e a obrigatoriedade de planejar “aulas não
presenciais”. Isso fica ainda mais escancarado ao identificarmos que as
primeiras iniciativas de nosso coletivo obtiveram pouquíssimo retorno dos
estudantes, por algumas razões conhecidas, tais como a vulnerabilidade social,
acesso a internet etc. mas também outras razões desconhecidas, dentre elas o
real interesse dos educandos acerca do que está sendo proposto, a dificuldade
de articulação das disciplinas e as dúvidas frente a que caminho percorrer:
Revisão de conteúdos? Conteúdos novos? Trato com os educandos com diagnóstico
de deficiência ou TEA? Afinal QUÊ FAZER???
Seguindo a concepção
metodológica de Paulo Freire, nada melhor que problematizar toda essa situação
para que possamos vislumbrar, coletivamente, “inéditos-viáveis”[2]. É nessa perspectiva que
esse texto agora se apresenta, pois, a partir da construção de “Temas-Geradores”,
objetivamos dar sentido e de fato produzirmos coletivamente, em especial com os
nossos educandos, esses inéditos-viáveis.
Nas palavras de Freire,
A educação
autêntica, repitamos, não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de
“A” com “B”, mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e a
outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele. Visões impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças ou
desesperanças que implicitam temas significativos, à base dos quais se
constituirá o conteúdo programático da educação (1987, p.54).
Dessa citação já é possível
lembrarmos o que nossos companheiros e companheiras das Ciências, História e
Geografia estão caminhando enquanto planejamento. Ou seja, nosso tema gerador “Terra”
já está bem embasado para ser ampliado com as demais disciplinas, pois
inclusive já está sendo dialogado com os estudantes através do pioneirismo
anterior a esse planejamento. Nos resta agora destacar a necessidade da relação
Professor “com” Estudante, mediatizados pelo mundo. Em tempos de pandemia esse
Planeta Terra e seus moradores, em especial os seres humanos, compartilham de
visões, como afirmou Freire, ainda mais “impregnadas de anseios, de dúvidas, de
esperanças ou desesperanças que implicitam temas significativos” (p.54, 1987).
Tema Gerador: Conceito Chave.
É preciso primeiramente
considerarmos, antes de qualquer proposição, a situação da Pandemia, da atual forma
organizativa de nosso trabalho, da realidade de nossos educandos, enfim, da
conjuntura, pois como nos afirma Paulo Freire,
Será a partir da
situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações
do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da situação ou da ação
política, acrescentemos. (1987, p.55).
Dito isso, o tema gerador
consiste em propor, através dessa situação presente, questionamentos, desafios,
que permitam ao educando se reconhecer como parte da problemática, ou seja, não
doar aos educandos “conteúdos que pouco ou nada tenham a ver com seus anseios,
com suas dúvidas, com suas esperanças, com seus temores. Conteúdos que, às
vezes, aumentam estes temores” (FREIRE, 1987, p.55). Lembrando que a base metodológica
por ele proposta visa “a libertação da opressão”, portanto parte da relação
dialética entre opressor e oprimido. Não entraremos nessa temática agora em
função da singularidade de nossa necessidade, mas é preciso destacar essa
relação primeira para não cairmos na negação das limitações de nossos
estudantes, o que implicaria negativamente na formulação coletiva do
planejamento pedagógico a partir de temas geradores.
Na configuração do Ensino
Fundamental de nossa escola, é preciso usar o Tema-Gerador, como um
guarda-chuva, ou seja, abrigar as disciplinas abaixo da temática, de modo a
permitir que todas sigam caminhando articuladamente, em diálogo e relação
direta com nossos educandos, perspectivando seu crescimento individual, mas
cientes das limitações decorrentes do ensino remoto, bem como da falta de nossa
mediação em tempo real com cada educando em seu processo de aprendizado.
O Tema-gerador é um
elemento, nas palavras de Freire (1987), da “realidade mediatizadora” o qual
precisamos buscar com os próprios educandos. Esse buscar, em
ação-reflexão, “é o momento em que se realiza a investigação do que chamamos de
universo temático do povo ou o conjunto de seus temas geradores (FREIRE,
1987, p.56).
Em verdade, o
conceito de “tema gerador” não é uma criação arbitrária, ou uma hipótese de trabalho
que deva ser comprovada. Se o “tema gerador” fosse uma hipótese que devesse ser
comprovada, a investigação, primeiramente, não seria em torno dele, mas de sua
existência ou não. (FREIRE, 1987, p.56).
Ou seja, o tema gerador “Terra”
é o primeiro de muitos que poderemos elencar, na medida em que formos ganhando
confiança coletiva dessa articulação, buscando nessa realidade mediatizadora, pandêmica,
mas sem nos frustrar com o ‘abrir mão’ de conteúdos curriculares, o que é
melhor para nossos educandos. Os conteúdos também fazem parte dessa realidade,
diria até mais, são elementos mediatizadores da realidade, por isso sua importância.
Mas diante desse momento de isolamento social, da falta dessa mediação
educador-educando orgânica, presencial, a aposta metodológica via tema gerador
deve ser considerada.
A noção de “temas”
juntamente com a ideia de “geração” carrega a possibilidade do novo, que
surgirá a partir da ação de nossos educandos frente aos desafios-temas que
problematizarmos com eles. Em outras palavras,
Estes temas se
chamam geradores porque, qualquer que seja a natureza de sua
compreensão como a
ação por eles provocada, contêm em si a possibilidade de desdobrar-se em outros
tantos temas que, por sua vez, provocam novas tarefas que devem ser cumpridas.
(FREIRE, 1987, p.122).
Nesse interim, a leitura
de todo o Capítulo 3 do livro Pedagogia do Oprimido, deve estar em nosso
horizonte, até para qualificarmos esse primeiro diálogo-texto ora compartilhado.
Da investigação temática
Da investigação temática
A realidade objetiva é um
desafio ao qual os seres humanos, homens e mulheres, crianças, adolescentes e
adultos, profissionais e estudantes, têm de responder. Talvez, o fatalismo
presente no cotidiano de nossos educandos, mas também entre nós professores e
professoras, nos imponha apenas “situações limite” que ainda não nos permita
identificar respostas mais otimistas acerca do futuro.
Antes mesmo da Pandemia
já identificávamos entre os educandos um alto índice de baixa autoestima,
desinteresse, automutilação entre outros problemas da realidade objetiva de
nossa comunidade.
Segundo Paulo Freire é
neste conjunto de contradições fatalistas que vislumbramos vários temas
geradores, bem como possíveis caminhos de sua superação, percebam:
E nesta forma
expressada de pensar o mundo fatalistamente, de pensá-lo dinâmica ou estaticamente,
na maneira como realizam seu enfrentamento com o mundo, se encontram envolvidos
seus “temas geradores”.
Ainda quando um
grupo de indivíduos não chegue a expressar concretamente uma temática geradora,
o que pode parecer inexistência de temas, sugere, pelo contrário, a existência
de um tema dramático: o tema do silêncio. Sugere uma estrutura
constituinte do mutismo ante a força esmagadora de “situações-limites”, em face
das quais o óbvio é a adaptação.
É importante
reenfatizar que o “tema gerador” não se encontra nos homens isolados da realidade,
nem tampouco na realidade separada dos homens. Só pode ser compreendido nas relações
homens-mundo.
Investigar o “tema
gerador” é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à
realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis (FREIRE,
1987, p.62, grifos meus).
A ideia da investigação
temática é, portanto, um dos princípios educativos da metodologia proposta. Em
outras palavras, o exercício da pesquisa, o aguçar da curiosidade a partir de
desafios implícitos e explícitos nos temas geradores, permite tanto aos educandos
como aos educadores, a qualificação desse diálogo que tanto informa quanto
forma a ambos, cada um no grau respectivo a sua experiência. Sendo assim,
A investigação
temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se
a um ato mecânico. Sendo processo de busca, de conhecimento, por isto
tudo, de criação, exige de seus sujeitos que vão descobrindo, no
encadeamento dos temas significativos, a interpenetração dos problemas (FREIRE,
1987, p.64, grifos meus).
Nessa perspectiva podemos
propor temas-geradores, mas isto não nos classifica como sendo apenas nós os
sujeitos exclusivos da investigação. O objetivo é sermos investigadores
conjuntamente com os educandos, tarefa essa bastante limitada devido a forma não
presencial do ensino neste momento.
Talvez, em função dessa
situação problema, nosso primeiro objetivo seja, além de planejar a partir da
metodologia dos temas geradores, também buscar a manutenção do vínculo dos
educandos com a escola, com as nossas disciplinas curriculares, enfim, conosco
enquanto agentes de sua formação.
A formulação de
estratégias para avaliarmos, num período curto, se estamos ou não avançando satisfatoriamente
em relação a esses objetivos, deve ser o pressuposto para o desvelar de inéditos
viáveis e novas formas de seguir no processo de formação com os educandos ao
longo do período de isolamento social, com as aulas não presenciais, a partir dos
temas geradores.
É claro que ainda há
muito mais a acrescentar em relação a obra de Paulo Freire, em especial do
capítulo 3 até aqui exposto, mas por hora finalizo essa reflexão-proposição e,
a depender de nosso avanço coletivo, me disponho a ir elaborando o
aprofundamento da proposta Paulo Freiriana em futuros novos textos.
Sempre na luta,
Marcos Cordeiro
Bueno (Canguru).
[1] Conforme
entende Paulo Freire, ao citar PINTO (1960), afirma que “as “situações-limites”
não são “o contorno infranqueável onde terminam as possibilidades, mas a margem
real onde começam todas as possibilidades”; não são “a fronteira entre o ser e
o nada, mas a fronteira entre o ser e o ser mais" (mais ser) (FREIRE, 1987,
p.122).
[2] O
inédito viável nada mais é do que “soluções praticáveis” até então despercebidas,
em oposição as percebidas ou as efetivamente já realizadas. Ele surge na medida
do avanço da busca investigativa de temas geradores em meio às situações problemas
(FREIRE, 1987).


Boa noite, Marcos! Realmente o texto nos remete a diversas reflexões! E os posicionamentos do autor são essenciais para qualificar e dignificar a educação, os saberes adquiridos e a proteção de direitos fundamentais!!! Estamos dando o máximo para criar uma consciência baseada na economia de recursos e não do capital! Senão, colega a situação tende a piorar! Boa noite...
ResponderExcluirIsso aí Marcelo, a ideia é caminharmos nessa linha. Abraço.
ExcluirMarcos, que reflexões importantes para o processo que estamos vivendo. Ao ler o que escreves me fizestes pensar sobre algumas das questões que nos angustiam em nossa prática: o quê e como fazer. Penso que a proposta freireana promove uma alternativa radicalmente distinta: não somos nós, individualmente e sozinhos, quem delimitamos os caminhos de nossas disciplinas, mas sim nesse saber-fazer coletivo estudantes-docentes-família.
ResponderExcluirIsso mesmo Michel, a ideia é construirmos caminhos desconhecidos, mas com a segurança de estarmos em coletivo. Avançaremos muito na medida em que nos permitirmos esse novo saber-fazer conjunto, fortalecendo as possibilidades e acolhendo as limitações.
ExcluirÊ na verdade todos temos uma ideologia e conhecimentos profundos ou não mas que precisamos colocar em ação.esta se faz sentido quando defrontando em relação a outra. Por isso que crescemos e buscando sempre o novo fortalecido pelas oportunidades que nos convém.
ResponderExcluirNós somos tripulantes dessa imensa nave espacial onde temos que que pousar no meio atmosférico, planeta terra e compreender de que forma ocupar sem causar destruição com o passar do tempo
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