domingo, 4 de outubro de 2020

Quando a música aciona o gatilho do passado... Reflexões de um capoeira adormecido.

 

 As vezes um conjunto de fatos ocorridos em nossas vidas se resumem a uma música, ou melhor, a um conjunto de músicas...

Passado um tempo, esses registros, quando aparecem, provocam profundas e emotivas reações... Remontam um passado e mexem com nosso presente...



Assim foi comigo nesta semana. Uma grande amiga, a Professora Cris, companheira de um amante de acervos culturais, o Roque, possuem um Sebo, o Sebo Eureka. Ela separou um material para mim afirmando que eu gostaria do mesmo. Tratava-se de alguns livros e este CD que coloquei no início da reflexão. Fiquei feliz com o material e ao entrar no carro rapidamente coloquei o CD no player...

É inexplicável como as coisas acontecem em nossa vida. Bastou o berimbau e o atabaque começarem a tocar na música e minha memória foi para 1997, quando comecei com a prática da capoeira. Na medida que a música tocava minha imaginação me levou para o Barracão da Vila Verde, local onde eu aprendi a ser uma pessoa muito mais feliz!

Na segunda metade da década de 1990 eu, com dinheiro do emprego de auxiliar de padeiro, comprei um “rádio toca fita” com o qual curtia metade das músicas deste CD, geralmente quando acordava antes de ir para o trabalho, mas principalmente quando ia dormir, na fria e bela Curitiba, minha cidade natal.

Lembrei de minha mãe chamando minha atenção dizendo “Abaixe essa goteira!”, jeito com o qual chamava o som que ouvia do quarto, mesmo com a porta fechada, quando eu estava escutando as músicas de capoeira.

Eu só ouvia metade das músicas porque quando gravei o cd do meu amigo “Cabeção” minha fita não coube todas as músicas e foi assim que iniciei minha apreciação pela musicalidade da capoeira... Este foi o segundo som que gravei para ouvir. O primeiro foi também do Mestre Suassuna, o primeiro volume desta coletânea e o terceiro foi o cd “Muzenza Vol.3”. Pelo menos nos seis primeiros meses de prática da capoeira era somente o som das fitas destes álbuns que tocavam em minha memória...

No caminho pra casa, enquanto ouvia o CD, lembrei de pessoas que por um tempo foram como uma verdadeira família, como a primeira galera que treinou no barracão, como o Janjão, o Raul, a Angela, de Menor e de Maior, o Chocolate, o Vandinho, a Soraia, Perereca e tantos outros. Depois veio a aproximação de pessoas que passaram a fazer parte pra sempre em meu caráter, como o Maisena, o Gajézinho, o Denis, a Mana, o Batata, a Lilica, a Gislaine, a Dayane, o Neyzinho, o Sonic, o Papagaio, a Bárbara, entre outros que certamente minha cabeça falha pode falhar devido ao tempo...

Mas deixei um momento especial para falar de meu mestre, o senhor Ronaldo da Silva, conhecido como Mineiro ou o “Abraão”...

A capoeira iniciou como uma brincadeira adolescente, mas que rapidamente ganhou uma dimensão ampla em minha vida. O sofrimento adolescente ficou em evidência no início, especialmente porque a roda de amigos do boqueirão reproduzia o preconceito e a discriminação, pelo fato dos que conseguiam realizar mais movimentos de capoeira em sobreposição aos que conseguiam menos, como eu, um adolescente com sobrepeso e pouca habilidade corporal.

Quando a capoeira começou a ser ensinada na escola, pelo então “Instrutor” Mineiro, encontrei alguém que não me excluiu pela dificuldade, mas que me acolheu e buscou potencializar o que eu poderia fazer de melhor... Junto com o “Barbacena”, o "Rambo", o "Cavalo Doido e o “Pirata”, Mineiro sempre dizia que pra ser bom capoeira precisamos ir além do local onde treinávamos, o que significava dizer que deveríamos acompanha-lo nos demais locais onde ele dava aulas.

A primeira vez que cheguei no Barracão da Vila Verde, encontrei um lugar de refúgio, um quilombo da vida moderna, um lugar onde não importava a origem, mas sim como poderíamos somar nossas forças para ritualizar a prática da capoeira e assim nos confraternizarmos...

Lembro de sairmos do barracão e irmos para casa do Gajé, onde seu Zé e dona Maria, pais do Gajé e da Mana nos acolhiam, faziam um panelaço de aipim com mortadela... Como a música sempre esteve conectada com momentos de comida... Isso quando não íamos para casa do Batata ou do Maisena e sempre éramos recebidos de braços abertos e mesa recheada de comida gostosa, feita com muito amor e carinho...

O Samba da Roda deste CD me fez lembrar das rodas de domingo pela manhã, quando os meninos, por vergonha em sambar, corriam para os instrumentos para cantar a música "Baiana me leva pro samba", quando na verdade não queriam “ir para o samba”... Lembrei da Sereia, uma grande mulher da vila que tinha um cabelo longo e ao sambar chamava a atenção de todos que passavam pela roda...

Me lembro de passar a semana ouvindo as músicas para decorar e cantar nas rodas de sábado, as que mais fizeram sucesso no barracão. Foram muitos encontros, muitos momentos intensos, as vezes intensos até demais... As vezes o peso dessa intensidade gerava conflitos, em especial de capoeiras que vinham de fora, de outros grupos e ao chegar na roda do barracão não encontravam eco para seu ímpeto competitivo. Isso porque nosso grupo era o Roda Livre, e o simbolismo da capoeira que jogávamos se explicava e se explica até hoje pelo próprio nome. Nunca tivemos por objetivo competir ou mesmo subjugar o outro.

Se assim o fosse certamente eu não teria seguido na capoeiragem, muito menos me tornado professor de educação física. Mineiro nos tratava com igualdade, mas considerava a singularidade de cada um de nós. Muitos passaram pelo barracão... as vezes eu queria que aquele tempo não tivesse acabado...

Ouvir este CD me fez lembrar da positividade da família da capoeira viva em meu coração até os dias de hoje, mas também me deixou um pouco triste, pois ao me reconhecer nos dias de hoje, sinto que esse tempo não volta mais... Mas talvez... talvez outros barracões seguem sendo criados em outros cantos, em outras cidades, a partir do coração de cada dos que de fato se construíram como família Roda Livre.

Sei que meu mestre mantém essa semente em sua prática pedagógica como professor até os dias de hoje. E muitos outros desta família seguem com essa semente no seu seio familiar, no seu ambiente de trabalho, enfim, lembrando de outra frase que a Professora Cris certa vez me ensinou, “Florindo onde a vida os plantou”...

Minha eterna gratidão a família Roda Livre, que hoje se mistura com a família Doniciana, com a saudade da família do Morro do Quilombo, da casa dos capoeiras no pantanal, do movimento estudantil, bem como da atual família sindical e consanguínea no aririú da formiga... Eu, um “bom cordeiro” além da saudade que sinto de toda minha família, mãe, pai, irmãos e irmãs, carrego a certeza de que não estou só, que não estamos sós, que somos instantes e desses instantes construímos nosso presente, como o Canguru que sabe se refugiar, mas também ser refúgio.

Repetindo a frase proferida quando de minha formatura na capoeiragem, em 30 de Agosto de 2002, se querem saber o tamanho da minha felicidade, contem quantos amigos eu tenho.

Obrigado Cris!   

Nada melhor que registrar algumas fotos que remontam esse passado ao som de Mestre Suassuna...










 

3 comentários:

  1. Que lindas memórias, Marcos. Viajei contigo no tempo. E compreendi ainda mais porque te tornaste quem és...Com estas boas sementes plantadas em teu coração, corpo e mente, só podia ter te tornado este ser maravilhoso e irradiante de boas energias, que és. Linda história.

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  2. Que li da e emocionante história, professor Canguru. Nossas histórias são nossas alegrias. Axé.

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