Passado um tempo, esses registros, quando aparecem, provocam profundas e emotivas reações... Remontam um passado e mexem com nosso presente...
Assim foi comigo nesta
semana. Uma grande amiga, a Professora Cris, companheira de um amante de
acervos culturais, o Roque, possuem um Sebo, o Sebo Eureka. Ela separou um
material para mim afirmando que eu gostaria do mesmo. Tratava-se de alguns
livros e este CD que coloquei no início da reflexão. Fiquei feliz com o
material e ao entrar no carro rapidamente coloquei o CD no player...
É inexplicável como as
coisas acontecem em nossa vida. Bastou o berimbau e o atabaque começarem a
tocar na música e minha memória foi para 1997, quando comecei com a prática da
capoeira. Na medida que a música tocava minha imaginação me levou para o
Barracão da Vila Verde, local onde eu aprendi a ser uma pessoa muito mais feliz!
Na segunda metade da
década de 1990 eu, com dinheiro do emprego de auxiliar de padeiro, comprei um
“rádio toca fita” com o qual curtia metade das músicas deste CD, geralmente
quando acordava antes de ir para o trabalho, mas principalmente quando ia
dormir, na fria e bela Curitiba, minha cidade natal.
Lembrei de minha mãe
chamando minha atenção dizendo “Abaixe essa goteira!”, jeito com o qual chamava
o som que ouvia do quarto, mesmo com a porta fechada, quando eu estava
escutando as músicas de capoeira.
Eu só ouvia metade das
músicas porque quando gravei o cd do meu amigo “Cabeção” minha fita não coube
todas as músicas e foi assim que iniciei minha apreciação pela musicalidade da
capoeira... Este foi o segundo som que gravei para ouvir. O primeiro foi também
do Mestre Suassuna, o primeiro volume desta coletânea e o terceiro foi o cd
“Muzenza Vol.3”. Pelo menos nos seis primeiros meses de prática da capoeira era
somente o som das fitas destes álbuns que tocavam em minha memória...
No caminho pra casa,
enquanto ouvia o CD, lembrei de pessoas que por um tempo foram como uma
verdadeira família, como a primeira galera que treinou no barracão, como o
Janjão, o Raul, a Angela, de Menor e de Maior, o Chocolate, o Vandinho, a Soraia, Perereca e tantos outros. Depois veio a
aproximação de pessoas que passaram a fazer parte pra sempre em meu caráter,
como o Maisena, o Gajézinho, o Denis, a Mana, o Batata, a Lilica, a Gislaine, a
Dayane, o Neyzinho, o Sonic, o Papagaio, a Bárbara, entre outros que certamente minha
cabeça falha pode falhar devido ao tempo...
Mas deixei um momento
especial para falar de meu mestre, o senhor Ronaldo da Silva, conhecido como
Mineiro ou o “Abraão”...
A capoeira iniciou como
uma brincadeira adolescente, mas que rapidamente ganhou uma dimensão ampla em
minha vida. O sofrimento adolescente ficou em evidência no início,
especialmente porque a roda de amigos do boqueirão reproduzia o preconceito e a
discriminação, pelo fato dos que conseguiam realizar mais movimentos de
capoeira em sobreposição aos que conseguiam menos, como eu, um adolescente com
sobrepeso e pouca habilidade corporal.
Quando a capoeira
começou a ser ensinada na escola, pelo então “Instrutor” Mineiro, encontrei
alguém que não me excluiu pela dificuldade, mas que me acolheu e buscou
potencializar o que eu poderia fazer de melhor... Junto com o “Barbacena”, o "Rambo", o "Cavalo Doido e o
“Pirata”, Mineiro sempre dizia que pra ser bom capoeira precisamos ir além do
local onde treinávamos, o que significava dizer que deveríamos acompanha-lo nos
demais locais onde ele dava aulas.
A primeira vez que
cheguei no Barracão da Vila Verde, encontrei um lugar de refúgio, um
quilombo da vida moderna, um lugar onde não importava a origem, mas sim
como poderíamos somar nossas forças para ritualizar a prática da capoeira e
assim nos confraternizarmos...
Lembro de sairmos do
barracão e irmos para casa do Gajé, onde seu Zé e dona Maria, pais do Gajé e da
Mana nos acolhiam, faziam um panelaço de aipim com mortadela... Como a música
sempre esteve conectada com momentos de comida... Isso quando não íamos para
casa do Batata ou do Maisena e sempre éramos recebidos de braços abertos e mesa
recheada de comida gostosa, feita com muito amor e carinho...
O Samba da Roda deste
CD me fez lembrar das rodas de domingo pela manhã, quando os meninos, por
vergonha em sambar, corriam para os instrumentos para cantar a música "Baiana me
leva pro samba", quando na verdade não queriam “ir para o samba”... Lembrei da
Sereia, uma grande mulher da vila que tinha um cabelo longo e ao sambar chamava
a atenção de todos que passavam pela roda...
Me lembro de passar a
semana ouvindo as músicas para decorar e cantar nas rodas de sábado, as que
mais fizeram sucesso no barracão. Foram muitos encontros, muitos momentos
intensos, as vezes intensos até demais... As vezes o peso dessa intensidade
gerava conflitos, em especial de capoeiras que vinham de fora, de outros grupos
e ao chegar na roda do barracão não encontravam eco para seu ímpeto
competitivo. Isso porque nosso grupo era o Roda Livre, e o simbolismo da
capoeira que jogávamos se explicava e se explica até hoje pelo próprio nome.
Nunca tivemos por objetivo competir ou mesmo subjugar o outro.
Se assim o fosse
certamente eu não teria seguido na capoeiragem, muito menos me tornado
professor de educação física. Mineiro nos tratava com igualdade, mas
considerava a singularidade de cada um de nós. Muitos passaram pelo barracão...
as vezes eu queria que aquele tempo não tivesse acabado...
Ouvir este CD me fez
lembrar da positividade da família da capoeira viva em meu coração até os dias
de hoje, mas também me deixou um pouco triste, pois ao me reconhecer nos dias
de hoje, sinto que esse tempo não volta mais... Mas talvez... talvez outros
barracões seguem sendo criados em outros cantos, em outras cidades, a partir do
coração de cada dos que de fato se construíram como família Roda Livre.
Sei que meu mestre
mantém essa semente em sua prática pedagógica como professor até os dias de
hoje. E muitos outros desta família seguem com essa semente no seu seio
familiar, no seu ambiente de trabalho, enfim, lembrando de outra frase que a
Professora Cris certa vez me ensinou, “Florindo onde a vida os plantou”...
Minha eterna gratidão a
família Roda Livre, que hoje se mistura com a família Doniciana, com a saudade
da família do Morro do Quilombo, da casa dos capoeiras no pantanal, do
movimento estudantil, bem como da atual família sindical e consanguínea no
aririú da formiga... Eu, um “bom cordeiro” além da saudade que sinto de toda
minha família, mãe, pai, irmãos e irmãs, carrego a certeza de que não estou só,
que não estamos sós, que somos instantes e desses instantes construímos nosso
presente, como o Canguru que sabe se refugiar, mas também ser refúgio.
Repetindo a frase
proferida quando de minha formatura na capoeiragem, em 30 de Agosto de 2002, se
querem saber o tamanho da minha felicidade, contem quantos amigos eu tenho.
Obrigado Cris!
Nada melhor que registrar
algumas fotos que remontam esse passado ao som de Mestre Suassuna...








