
Contribuição de
análise de conjuntura para a 9º Semana da Capoeira.
Uma
roda de capoeira com um vereador, várias mulheres, professoras e ainda alguns
sindicalistas, promete ter bons jogos, em especial para derrubarmos nossos inimigos
feitores, capitães do mato e senhores do engenho...
Esses
eram os nomes dos inimigos de ontem, agora é preciso identificarmos quem são
esses inimigos em nossos dias. É verdade também que desde os tempos da
escravidão haviam contradições nas lutas por libertação, como o exemplo da
guarda negra que protegeu a Princesa Isabel, ou ainda cooptação de negros para
participação na guerra do Paraguai.
Nos
dias de hoje há os que lutam, mas também há os que desfrutam. Neste momento 2.153
bilionários possuem mais riqueza que 60% da população mundial (cerca de 7,8
bilhões – Jul/2020). Ou seja, a riqueza
dessas 2.153 pessoas é equivalente a riqueza de 4,6 Bilhões de pessoas. Nosso
país, por exemplo, tem 210 milhões de pessoas, apenas para termos uma noção da
dimensão dessa desigualdade.
Nós,
na condição de cidadãos brasileiros, capoeiras e trabalhadores, temos o dever
de transformar essa injustiça, mas nos entendendo como agentes de
transformação. Se não há condições iguais de oportunidade para todos não é
possível defender a tese que “basta correr atrás que você consegue”. Vamos a dois
exemplos:
1°
Exemplo – Muitos professores e mestres de capoeira atuam na informalidade, de
modo que ao longo da pandemia muitos estão em situação de vulnerabilidade
econômica. Há ainda outros que não dependem da capoeira como sustento
principal, mas que também trabalham informalmente em outras áreas. Bimba, o
estivador, foi um desses exemplos ao longo da história.
Nesse
momento de crise é que precisamos do Estado para nos amparar, ou seja, dos impostos
que pagamos todos os dias, em cada quilo de arroz ou feijão, ou ainda
descontado de nosso salário no final de cada mês, temos o direito de receber
assistência até que a crise passe.
“Contudo, no final
de junho, o governo federal distribuiu apenas 10% da ajuda financeira prometida
a trabalhadores e empresas, via Programa de Apoio ao Emprego de Emergência
(PESE), com grandes empresas obtendo mais benefícios do governo do que
trabalhadores ou micro e pequenas empresas. Da mesma forma, apenas 47,9% dos
fundos destinados à assistência de emergência a pessoas vulneráveis foram
distribuídos no início de julho.”
Na
prática isso significa que 10 milhões de pessoas em situação de fome ainda
esperam ser aprovadas para receber o auxílio emergencial. Ou seja, quase 90
bilhões de reais que poderiam auxiliar as famílias, ainda não saiu dos cofres
públicos, mesmo já estando aprovados para tal. Como dizia um dos capitães do
mato da atualidade, o ministro da economia Paulo Guedes, “Já colocamos a granada
no bolso do trabalhador”. Sim, esse mesmo capitão do mato teve a cara de pau de
afirmar que só deveriam ser ajudadas as grandes empresas, pois as pequenas não
dão lucro. De fato para ele as vidas não importam.
Entre
desempregados e desalentados no Brasil temos hoje cerca de 17,7 milhões de
pessoas. Isso representa 12% da população em idade para trabalhar que está na
rua...
2º
Exemplo – Além da desigualdade econômica vivemos uma desigualdade étnica e de
gênero. O feitor de ontem é o “neofascista” de hoje. É preciso dar nome aos
bois, ou melhor, ao gado. O racismo e o machismo são elementos estruturais de
nossa sociedade, não vieram com o Bolsonaro. Mas é pelo governo atual que movimentos
fascistas têm crescido, o que aumenta o risco de vida do povo pobre, mas em
especial dos negros, indígenas e das mulheres. Por exemplo, a cada 100 homicídios
no Brasil, 75 são de pessoas negras. Com a pandemia dispararam os casos de
violência doméstica contra a mulher, em especial em nosso estado, o qual tem uma
mulher no próprio nome. Sei que outras pessoas trarão mais elementos sobre a
questão racial e de gênero, por isso vou me ater a apenas mais alguns
elementos:
72,7%
da população pobre é composta por negros. Já entre as pessoas que vivem abaixo
da linha da pobreza, ou seja, que não possuem renda superior a 145 reais por
pessoa da família, 27,2 milhões são de mulheres negras. Se isso já é muito, o
fato é que a renda por pessoa da família, entre pessoas negras é a metade do
valor médio da renda de famílias brancas.
Nós
precisamos lutar contra essas desigualdades, a começar pela defesa do avanço
das políticas de equiparação social, as quais vem sendo destruídas no governo
atual. Do jeito que as coisas vão, levaremos 202 anos para que as mulheres
desfrutem do mesmo direito dos homens, apenas como exemplo.
Vivemos
um governo que incentiva o fascismo. E foi o fascismo que assassinou Mestre Moa
de Catende, foi o fascismo que matou Marielle Franco, é o fascismo militarizado
que vem matando a juventude negra nas comunidades de nossa cidade, a exemplo das
ações militares no morro do mocotó, do mont serrat, morro do quilombo e tantos
outros. O número de pessoas mortas pela polícia militar no Brasil aumentou
durante a pandemia. Nosso país é o que tem a polícia que mais mata e também o
que mais policiais morrem. O direito a vida é de fato o direito pelo qual temos
que lutar.
Mas
estão roubando nossos direitos. A reforma trabalhista, a lei das
terceirizações, a reforma da previdência, o sucateamento do serviço público,
estão aí como armas do capital para fortalecer banqueiros e seus cofres,
enquanto socializa para 99% da população apenas a pobreza e a miséria.
Nesse
jogo a capoeira é mais que um patrimônio, é um bem cultural maravilhoso, singular,
único! Mas sua prática ganha muito mais sentido quando aliada à sua história. É
preciso reconhecer os avanços e os percalços.
Enfim,
é preciso conclamar os capoeiras para realmente abrirem os olhos, pois a
pandemia, vai passar, mas a luta contra o feitor permanece em nossos dias. É
preciso identificarmos nossos inimigos, lutarmos para manter viva nossa história,
mas principalmente, construirmos uma sociedade justa e igualitária, na qual o
jogo da capoeira, a roda da capoeira, sejam mais que um patrimônio da humanidade,
sejam bem culturais públicos, a serviço de nossa nação, tendo seus mestres e
professores a proteção do estado para manutenção de nossa cultura.
Hoje
são vários os movimentos em luta contra o governo e a lógica perversa do capital.
Vidas Negras Importam, Fora Bolsonaro! Solidariedade a população necessitada!
Em defesa do serviço público! Todo apoio as lutas dos trabalhadores
entregadores de aplicativos! Contra o Genocídio, precisamos salvar vidas, não o
lucro!
Seguindo
as palavras de Mestre Cícero,
“Eu sou
capoeira, eu sou cantador, sou menino na hora da paz, sou guerreiro na hora da
dor...” Iê Camará!
Minha gratidão ao Fórum pela oportunidade e aos grandes camaradas Danusa, Marquito, Vitinho, Jumeri e Elisa que contribuíram imensamente em minha formação no dia de hoje. Abraços.
Referências dos dados: