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terça-feira, 23 de março de 2021

É GREVE! PELA VIDA!


    Boa noite, pessoal! Após vários adiamentos, amanhã iniciamos mais uma greve em nossa categoria. Contudo, diferente de tudo que já experienciamos até hoje, não será uma greve por reajuste salarial ou para manter nossos direitos trabalhistas... Pela primeira vez na história de nosso sindicato e na história de muitos outros sindicatos mundo a fora, aprovamos uma greve para continuarmos vivos! Isso mesmo, a greve pela vida é, de fato, para que cada estudante, cada familiar responsável, cada trabalhador e trabalhadora da educação não coloque sua vida em risco, uma vez que nosso trabalho no magistério é, em resumo, de aglomeração diária. Negar isso é negar o próprio processo pedagógico.
    Não é uma greve para defender o trabalho remoto. Até porque o trabalho que vem sendo realizado, com todo o compromisso e exaustão de nossos educadores e educadoras não é o ideal de educação que defendemos. Defendemos o ENSINO PRESENCIAL. Mas o mesmo só pode voltar a acontecer com condições reais de segurança e controle da pandemia! 
    Repito, não é greve para trabalharmos remotamente. É greve para garantirmos nossas vidas e a dos demais envolvidos no processo pedagógico. O direito a vida é o essencial. Enquanto o Gean, Moisés e Bolsonaro seguem com palavras diferentes para concretizar na prática a mesma política genocida, nós trabalhadoras e trabalhadores do serviço público municipal de Florianópolis, com o início da greve a partir de amanhã, estamos reafirmando nosso papel na luta de classes!
    O mapa de nosso sindicato indica que apenas 5 das 120 unidades educativas vão retornar amanhã. A prefeitura de forma sorrateira, após a aprovação de nossa greve na última assembleia da categoria, saiu ligando para algumas unidades educativas sugerindo que trocassem a data de início do ensino híbrido para o dia 05 de abril. Se o objetivo foi enfraquecer nosso movimento, o fato é que só aumentou nossa indignação, além de comprovar que a própria secretaria municipal de educação não quer forçar tanto o retorno porque sabe que muitas unidades educativas não têm sequer condição estrutural para abrirem as portas.
    Estamos numa encruzilhada. De um lado o descaso plantado pela secretaria, com a narrativa de que não vale a pena entrar em greve porque a maior parte das escolas e neims só retornarão em abril; do outro lado a realidade do risco de vida para as/os profissionais, estudantes e familiares das 5 unidades educativas que abrirão as portas amanhã... Como profissional da educação é nosso dever antever o cenário que se aproxima.
    Assim como no poema “Intertexto” (1) de Brecht , se não fizermos nada antes do retorno dessas cinco unidades, depois será tarde, pois não teremos legitimidade para defendermos uns aos outros. Agora é greve! Vamos parar os trabalhos para não morrermos trabalhando.
    Enfim, queremos viver! Estamos vivendo o momento mais derradeiro de nossas vidas. A catástrofe já é real em nossas UPAs e Hospitais. Seremos mais um número na lista de espera para UTI que segue lotada, ou reafirmaremos nosso protagonismo dizendo não ao trabalho sem condição sanitária e segura?
    Nossas companheiras e companheiros da Saúde estão exauridos diante do colapso do sistema. Com o retorno das aulas presenciais toda uma cadeia produtiva volta a rodar, com aglomeração não apenas na escola, mas no transporte público, na porta da escola, no trânsito, e, consequentemente, no próprio sistema de saúde que terá ainda mais pessoas com necessidade de tratamento.
    É pela vacina para toda população, é pelo auxílio emergencial até o fim da pandemia, é pelo direito a vida de toda classe trabalhadora e dos filhos e filhas da classe trabalhadora!
    Nossa categoria decidiu: É GREVE! Cabe agora a cada um e cada uma tomar posição e assumir seu protagonismo na história! É tempo de resistência e só o nosso cruzar de braços, unidos, pode abrir a chance de seguirmos o trabalho tal como está, com as escolas e neims fechados até o fim da pandemia. A máxima “o ensino se recupera, vidas não” nunca fez tanto sentido quanto o momento atual.
    É momento de colocarmos nossa criatividade em prática, propor saídas para fortalecer a mobilização, para ocupar os espaços virtuais, para construir um caminho que priorize a vida e não o interesse dos agentes da morte, que preferem estar em Cancun de férias quando seu povo lota as UTIs... É tempo de resistência, pela vida! Retorno só com vacina!

Sempre na luta.

Marcos Canguru – Resistência Florianópolis e Coletivo Travessia.


Abaixo o Poema para ficar no registro do Blog:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Conquistar pelo estômago, pelo medo ou pela cara de pau? A sujeira de algumas das candidaturas a prefeitura de Florianópolis e a viabilidade alternativa pela esquerda.

Marcos Canguru Resistência Sindical, Florianópolis.

Faltando menos de 20 dias para fim do primeiro turno a prefeitura da capital, cada candidata e candidato começam a mostrar mais qual o nível de sua política e interesse em governar Florianópolis. Apesar da lei eleitoral proibir “qualquer material que proporcione vantagem ao eleitor”[1], a legislação não aborda a subjetividade do uso da máquina pública para campanha, muito menos proíbe a cara de pau de candidatos que disputam a qualquer custo o poder.

Imagem: Reprodução https://www.humorpolitico.com.br/

Gean, o grande mentiroso

A campanha de 2016, quando Gean venceu a disputa por uma minúscula diferença de pouco mais de 3 mil votos, ficou claro que estava disposto a vencer a qualquer custo. Foram tantas promessas de campanha que os outros candidatos a época chegaram a apelidá-lo de Gean “Lorota” em alusão ao seu sobrenome.

Gean foi em todos os debates, até no Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal, SINTRASEM, sempre reafirmando promessas de agradar a todos os interesses. Mas logo que ganhou uma de suas primeiras ações como prefeito foi encaminhar um conjunto de medidas para a cidade que ficou conhecido como o “Pacotão de Maldades do Gean”. As medidas incluíam enorme retirada de direitos do serviço público, carta branca para especulação imobiliária, destinação de recursos para programas ainda em fase de elaboração entre outros ataques que tanto mal fizeram e ainda fazem para nossa cidade.

Ampliou-se o sequestro do dinheiro público para empreiteiras e prestadores de serviço que “maquiaram” a cidade ao longo dos quatro anos de gestão, mas praticamente não possuem autoria de nenhuma das obras que disseram ter concluído.

A educação foi precarizada a níveis anteriores a década de 1990, quando não havia recursos didático-pedagógicos para trabalhar. A desculpa permanente de “problemas de licitação” empurrou várias ações e políticas sociais para o último ano de sua gestão, corroborando com sua estratégia política para se reeleger.

Agora, vendo que seu favoritismo derrete na medida em que sua propaganda é desmascarada pela realidade, Gean apela para o pior da política, a campanha subjetiva pelo uso da máquina pública. Não bastassem as denúncias relacionadas a campanha do “asfaltaço” serem caracterizadas como propaganda eleitoral, agora a prefeitura acena para as famílias das unidades educativas municipais e para os servidores e servidoras municipais.

Desde o início da pandemia várias famílias têm sofrido com a falta de alimentação para seus filhos estudantes das escolas e núcleos de educação infantil municipais (NEIM’s). Gean anunciou um cartão merenda que logo após o início da implementação foi desmascarado por se tratar de empresa envolvida até o pescoço com casos de corrupção.

As famílias seguiram sofrendo com a falta de alimentos enquanto Gean angariava doações da iniciativa privada para fornecer as famílias e almejar lucrar politicamente. Mas o fato é que o envio de cestas básicas não era regular e muita gente que dependia da alimentação da escola para seus filhos ficou refém dessa má gestão que incluiu, com o passar do tempo, kits de alimentos comprados como merenda escolar. Ao mesmo tempo questionávamos, sem resposta, para onde estava sendo direcionada as verbas para compra de todo o conjunto da alimentação escolar, uma vez que estudantes estavam em isolamento social. Faltando menos de um mês para as eleições, as direções das escolas e NEIM’s receberam, além dos kits de alimentos não perecíveis, alimentos de Hortifruti e carne, os quais tem sido distribuídos nesta última semana. Não há qualquer explicação do porquê esses alimentos só estão sendo entregues agora, nem se continuarão sendo entregues após a eleição. Já há relatos até que hortifruti foram entregues em estado de decomposição e não foram aproveitados em sua totalidade pelas famílias.

Gean, portanto, apela para o estômago do eleitor, que não pode cair nesse canto de sereia, pois até dias antes sobravam ações de solidariedade entre moradores e inclusive profissionais da educação para atender com alimentação as famílias mais necessitadas, doando de seus próprios recursos financeiros para situação não piorar mais.

O candidato que já pode ser alcunhado até como Loki (deus da mentira) aprontou mais uma. Abandonou o discurso de serviço público eficiente, no qual foram cortados todos os pontos facultativos nos anos anteriores, para agora decretar ponto facultativo no dia do servidor público, próximo 28 de outubro. Mas os servidores e servidoras municipais nunca caíram em suas lorotas, é só lembrarmos do pacotão de maldades, e do recém confisco de nosso salário em 3% no mês passado.

A mentira é tamanha, que a campanha de Gean tornou-se meme na internet, ironizando que ele fez obra de tudo quanto é tipo de coisa. Mas a realidade é que vemos sua base na câmara de vereadores aprovando mais recursos para compra de asfalto enquanto não discutem nada objetivamente para fortalecer o combate a pandemia.

Gean segue sua propaganda mostrando o arco-íris belo de sua cidade imaginária enquanto joga nas costas da população a responsabilidade para o recente aumento no número de contaminados em nossa cidade, que representa um quarto de todo o contágio ativo de Santa Catarina. Retornamos ao estado de ocupação máxima em algumas UTIs da capital e o prefeito sequer se pronuncia sobre a questão neste momento tão delicado.

Um político manchado por falcatruas, preso em operação da polícia federal, que pintam uma cidade que só existe na campanha eleitoral não pode seguir mais quatro anos de desmonte de nossa cidade! Gean saiu do partido MDB com a cara de pau de afirmar não se associar a corrupção e filiou-se num partido histórico relacionado a corrupção que é o DEM, antigo PFL. Esse é o partido que de fato governa o país, pois possui a presidência do Senado e da Câmara de Deputados, o que lhe permite escolher quais projetos de leis devem ou não tramitar e ir a votação.

Foi com Maia na presidência da Câmara que se votou a PEC da Morte, a EC 95, do teto de gastos, que têm paralisado nosso país! Foi das mãos de Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia que o projeto da Reforma da Previdência foi aprovado, acabando com a aposentadoria da classe trabalhadora. É pelas mãos sujas de sangue que este partido com seus representantes pretende aprovar a Reforma Administrativa, a PEC 32, que acabará com todo o serviço público e mudará a concepção de Estado promotor de políticas públicas para o Estado-Empresa prestador de serviços.

Gean e seus cabos eleitorais já vem colocando em prática essa nefasta política, por isso não podem continuar!

Sobre uma mulher que é uma vergonha para as mulheres.

Em meados da década de noventa Florianópolis passava por profundas transformações em razão do governo de frente popular que construiu as bases para valorização da cidade e dos cidadãos para além de interesses privados. Enquanto o Brasil enfrentava crises econômicas o governo da época promovia orçamento participativo e dialogava com toda a sociedade o uso da máquina pública. Aprovação do Plano de carreira no serviço público, ampliação da democracia escolar com a escolha para direção em todas as unidades educativas, criação de linhas de transporte coletivo para chegar até as periferias e morros foram apenas alguns dos feitos da referida gestão que, apesar dos avanços, não resistiu as propagandas eleitoreiras da oligárquica família Amin, a qual, por meio de sua representante mulher, foi eleita para governar a cidade na segunda metade da década.

Angela Amin desde o início preocupou-se mais em desfazer os feitos da gestão anterior do que efetivamente fazer mais pela cidade. Enquanto voava na onda da política de diminuição do estado, ancorada no governo federal de FHC, atendeu apenas a interesses do grande empresariado, construindo viadutos mal planejados, mas que saiam bem na foto para campanhas posteriores. Destaque para políticas aprovadas em âmbito nacional que apenas foram seguidas no respectivo governo, porém de forma atropelada e precária, como o caso das casas populares. Até hoje existem famílias dessas moradias que não tem sua regularização fundiária, além de serem cobradas taxas como IPTU para esta população, no descumprimento de promessas de campanha.

Ainda assim, a candidata do partido com mais condenados na operação Lava Jato, tem a cara de pau de se ancorar em Bolsonaro para se autopromover. Vamos lembrar que o próprio disse ter acabado com a Lava Jato, pois seu governo “não tem corrupção”, mas faz acordos a todo momento com o centrão, capitaneado pelo partido de Angela e por atuação de sua família nas três esferas, com o maridão fechando acordos no senado, ela na câmara de deputados e o filho na assembleia legislativa de nosso estado.

Pela política do medo, seus cabos eleitorais têm ameaçado outros candidatos, além de fazer uso da narrativa da lei e da ordem nazifascista do Bolsonarismo. Angela Amin não engana mais ninguém, por isso apela para o apoio da extrema direita em sua chapa, mas sendo totalmente incoerente no seu rol de apoio, com o PSDB na vice e apoio de Dário Berger, o lixo mdbista que agora defende a lógica conservadora da família... deles é claro!

A candidata possui um financiamento massivo nas redes sociais o que inclusive já gerou reclamação de vários usuários das plataformas que tem tido seus perfis invadidos com propagandas de sua chapa.

Votar nessa oligarquia é manter o empresariado sujo no poder, seguir com o desmonte do serviço público e a retirada de direitos e liberdades democráticas, basta lembrar os estudantes presos e feridos durante as manifestações do Movimento Passe Livre na sua gestão, seguindo na mesma toada pelo governo Dário Berger nos anos seguintes... 

Por fim, mas não menos importante, é a bandeira dos movimentos populares pela ampliação da representatividade das mulheres na política. Mas representatividade com mulheres emancipadas, feministas e classistas, que pensem o feminismo para os 99% da população, não para o um 1%, na qual sua própria família Amin é uma das oligarquias beneficiadas! Angela Amin é uma vergonha para as mulheres trabalhadoras!

Avançar na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres passa pela superação do machismo e o racismo estrutural, bem como a denúncia e o combate as mulheres que crescem politicamente apenas para manter o status quo, desmoralizando a causa da justiça social para todas, todos e todes!

Para superar a dupla cara de pau, a alternativa é pela Esquerda!

O troca-troca dos partidos que não tem base ideológica, apenas disputam o poder público tratando-o como uma casa de apostas é a marca das candidaturas de Gean e Angela. O atual prefeito montou sua coligação com o principal aliado do partido da Angela na eleição passada, o PSD, que governou a cidade na gestão Cesar Sousa junto com o filho da família Amin. De forma recíproca, Angela tem em sua chapa o atual vice prefeito do governo Gean, João Batista, do PSDB. O que fica claro, portanto, é que não há regra na disputa entre essas duas candidaturas, mas sim a noção de quem dá mais leva...

A opção por não sabatinar o outro candidato da direita, Pedrão, deu-se por sua falta de solidez de campanha. O egocentrismo desse candidato, mais votado para vereador na eleição passada, subiu a cabeça para que disputasse a prefeitura, mas, para isso, precisou romper com a oligarquia dos Amin. Após o rompimento, Pedrão se aproximou do bolsonarismo raiz, pela figura do senador Jorginho Melo e agora tenta se desvincular como sendo um candidato que está aberto para todos, quando na verdade é só mais um candidato cafetão no pleito municipal.

São, portanto, três candidaturas que só representam o velho, o autoritário, o cara de pau, o antidemocrático e burguês modo de gerir uma cidade. Mas, se em épocas passadas a divisão da esquerda impedia uma disputa com chances de ganhar as eleições municipais em Florianópolis, desta vez é esse racha na direita tradicional da cidade que pode levar uma candidatura viável para o segundo turno. Agora é Elson!

Contra a cara de pau dos candidatos da direita, a chapa Elson e Lino representam uma construção que começou a ser costurada pela esquerda da cidade logo após a eleição de Bolsonaro em 2018. De lá para cá muitos foram os debates e o resultado é um programa alternativo e viável para cidade. Aqui vale a lembrança para leitura do artigo “Florianópolis: Frente de Esquerda encabeçada pelo PSOL ameaça direita na capital do estado mais bolsonarista do Brasil”[2], o qual possui dados muito importantes que explicitam a viabilidade da esquerda voltar a prefeitura de Florianópolis.

As trabalhadoras e trabalhadores de Florianópolis tem a chance de votar em um Professor para governar a cidade, recuperando, ao menos a nível municipal, as perdas de não termos conseguido eleger um professor para presidência em 2018. A musculatura da candidatura de Elson aproximou os partidos de esquerda e de centro-esquerda, numa frente popular que tem alimentando a esperança dos que almejam dias melhores, em especial na capital do estado que mais votou na extrema direita no último período.

Mais de uma centena de candidatos a vereador, construindo em unidade a chapa Elson e Lino, perspectivam não apenas ganhar a eleição para prefeito, mas eleger a maioria das cadeiras para vereador e vereadora pela esquerda em nossa cidade. A oportunidade se aponta no horizonte e é preciso mais do que nunca o engajamento de todos, todas e todes, para fazer de fato uma Floripa de toda nossa gente! Vote Elson 50!



[1] https://esquerdaonline.com.br/2020/10/25/florianopolis-frente-de-esquerda-encabecada-pelo-psol-que-ameaca-direita-na-capital-do-estado-mais-bolsonarista-do-brasil/



[2] https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2019/resolucao-no-23-610-de-18-de-dezembro-de-2019 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Quando a palavra autonomia vira sinônimo de “se virem” na educação em Santa Catarina.

 

Marcos Canguru. Resistência Florianópolis.

Uma semana movimentada nos diálogos sobre o retorno às aulas no estado está chegando ao fim escancarando a velha política e o descaso com a vida de estudantes da rede pública estadual e, em especial, da rede municipal de Florianópolis.

Foto da Capa do Documento Publicado pela Prefeitura de Florianópolis.

O Governo Moisés, cedendo as pressões dos tubarões da educação privada [1] na esperança de não ser impedido pela assembleia legislativa, publicou a portaria 778, a qual muda a regra para o retorno as aulas presenciais, considerando possível retornar com apoio pedagógico no nível “grave” de contágio da COVID-19 e retornar com força total no nível “alto”. É visível para esse desgoverno eleito na onda bolsonarista que a permanência na cadeira de governador é mais importante que a vida das comunidades educativas do estado.

Vale o destaque para o fato que as unidades educativas em todo o estado foram fechadas na segunda metade de março quando sequer havia caso confirmado entre estudantes das redes de ensino. Vale lembrar também que em março a ganância politiqueira ainda não estava em jogo, ou seja, não havia processo de impeachment oficializado contra o Governador e os Prefeitos em geral estavam mais preocupados em seguir o exemplo da Europa com o isolamento social, preparando o terreno para futuras eleições municipais.

Pois bem, nessa correlação de forças chegamos ao momento atual, no qual temos quase 23 mil pessoas contaminadas e quase 3 mil mortes em Santa Catarina. A semana que termina ainda registrou um aumento no número de casos ativos nas regiões da Grande Florianópolis e do Alto Uruguai catarinense em relação a semana passada[2].

Mas nada disso serviu de base para que o governo do estado que agora flexibiliza as regras de retorno as aulas e joga para população a decisão de enviar ou não seus filhos e filhas para escola. Na portaria publicada, vemos um verdadeiro atestado de risco de vida a ser “contratado” pelas famílias responsáveis pelos estudantes, ou seja, “Os responsáveis legais do estudante podem optar pela continuidade no regime de atividades não presenciais, mediante a assinatura de termo de responsabilidade junto à instituição de ensino na qual o estudante está matriculado.”[3]

Antes da pandemia não cabia as famílias dos estudantes de 4 a 17 anos a decisão de mandar ou não seus filhos para escola, sendo inclusive denunciados ao conselho tutelar quando a ocorrência de faltas sem justificativas ultrapasse cinco dias consecutivos. Agora o governo estadual e o municipal jogam nas costas das famílias a “opção” de colocarem vidas em risco, numa total incoerência sobre o papel do estado. As leis não podem ser produzidas pela conveniência do momento para os governos de plantão, mas sim para garantir permanentemente a vida digna da sociedade!

Não bastasse tamanho desprezo e falta de responsabilidade do estado em cumprir sua função de assegurar segurança sanitária para toda população, o governo municipal de Florianópolis, preocupado com a eleição, “optou” por lavar as mãos em relação a situação, jogando para cada diretor e diretora das unidades educativas a decisão de reabrirem ou não para o retorno.

Logo após uma assembleia vitoriosa da categoria, com participação massiva e decisão de mais de 90% pelo não retorno das aulas municipais em Florianópolis, o comitê municipal divulgou sua posição jogando para cada escola decidir seu futuro, referendando uma falsa ideia de que há segurança para o retorno.

Usando de clara má fé com o uso da palavra “autonomia”, o governo Gean determinou um grande “se virem” para que as escolas façam o papel de lavar a roupa suja e resistir ou ceder as pressões para o retorno. A própria LDBEN, lei máxima da educação nacional, estabelece que cabe aos sistemas de ensino assegurar progressivos graus de autonomia pedagógica[4]. Ou seja, é papel do Conselho Municipal de Educação, agente institucional regulador do Sistema Municipal de Ensino estabelecer esse “grau de autonomia”. O termo “grau de autonomia” é horrível sem dúvida, mas neste momento serve para afirmar que não significa “se virem” em relação ao risco das vidas escolares sem o devido controle da pandemia.


    Só há um caminho: A LUTA!

Em verdade, os sinônimos da palavra “autonomia” são independência, liberdade, autogoverno, autossuficiência, emancipação e soberania[5].

Nesse sentido as unidades educativas precisam lutar por independência política frente a governos e patrões que tem precarizado a educação pública!

Lutamos a cada dia, nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, ainda que o Governo Gean não considere esse artigo da LDBEN[6].

Nossa luta é por um autogoverno na esfera federal, estadual e municipal dos trabalhadores, no qual a garantia de uma educação pública e de qualidade não seja mera frase de campanha política durante a eleição, mas que efetivamente se concretize, valorizando os profissionais da educação em todas as dimensões, bem como fortalecendo políticas públicas para o estabelecimento de relações humanas de igualdade. Somente assim teremos uma escola e uma sociedade autossuficiente, emancipada e soberana, para além dos limites civilizatórios capital.

A política suja do “se virem” não serve e nem servirá para as comunidades escolares que efetivamente zelam pela VIDA. Seguir em resistência é o que nos resta, ombro a ombro com todo o serviço municipal e em #GREVEpelaVIDA se for preciso.



[1] https://esquerdaonline.com.br/colunistas/tubaroes-da-educacao/

[2] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2020/10/08/sc-tem-12-regioes-em-situacao-grave-para-covid-19-aponta-matriz-de-risco.ghtml

[3] https://www.sc.gov.br/images/Portaria_Conjunta_SES_SED_778_-_retorno_das_atividades_escolares.pdf

[4] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

[5] https://www.sinonimos.com.br/autonomia

[6] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Dilemas na cozinha pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis.

 

                Reflexões e crônicas da vida real para um momento de decisão dentro do Conselho Municipal de Educação.

Marcos Canguru.


Para falarmos de problemas latentes, as vezes é melhor procurarmos caminhos imaginários. Nesse sentido vou tentar apresentar um pouco da "cozinha" pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis. Talvez as semelhanças não sejam meras coincidências, mas prepare seu paladar, pois o prato dessa reflexão escrita pode ser um pouco picante

Todo início de ano cada professor dedica um longo tempo, individual e coletivo, para planejar o caminhar de seus grupos estudantis no processo de ensino aprendizagem. Os profissionais mais atentos, pesquisadores, curiosos por convicção, identificam elementos no próprio desenvolvimento de seus planejamentos, antes, durante e depois de cada aula, de cada ciclo de aprendizagem planejada.

Considerando a singularidade do processo de apreensão do conhecimento por parte de cada estudante, o profissional ideal, comprometido com a educação,  faz o que lhe cabe, ou seja, garante a qualidade da aprendizagem, o acesso ao conhecimento, a didática no processo, enfim, promove a educação em sua amplitude.

Esse cenário é o que almejamos, porém essa construção é limitada pelas condições objetivas do trabalho cotidiano, tais como estrutura escolar precária, superlotação de estudantes por sala, pouco material pedagógico disponível, sobrecarga da jornada de trabalho, baixos salários e desvalorização da profissão perante a sociedade, além de estudantes com sérios problemas sociais, culturais e econômicos, vítimas de violência de todo tipo, baixa autoestima, sem perspectivas de futuro. Esse é o panorama da educação de nosso país, ainda que existam particularidades de acordo com cada cidade ou estado. Ao considerarmos as condições objetivas e subjetivas no processo de formação dos profissionais da educação o problema só aumenta. Com o avanço da educação a distância (EAD) na formação de professores e professoras temos uma formação precarizada, acelerada, desconectada das reais necessidades do processo de profissionalização da educação. Com isso tanto professores e professoras, como estudantes das diversas modalidades de ensino acabam sendo prejudicados.

Na mexida desse caldo todo está a educação, algo que cada estudante consome ao produzir, um produto que não se separa do ato de sua produção, na qual o professor, a professora, são mediadores e promotores do conhecimento, “cozinheiros” que capricham no tempero da vida para que o sabor da escola, mesmo com tantos ingredientes picantes, seja o grande espaço de promoção da humanidade.

Mas estamos em tempos de pandemia, de modo que esse caldo está sendo servido frio na mesa de muitos estudantes. Pior, está faltando na mesa de outros tantos. Muitos profissionais da educação estão adoecendo tentando preparar essa “sopa” da melhor forma, mas não conseguem mantê-la “quente” até chegar no prato de cada estudante. O que falta, na verdade, é o “calor” das relações entre os seres humanos promovido singularmente no processo pedagógico. O olho no olho da professora com a criança, da interação do estudante com os outros, a permissão de novos olhares sobre o fazer pedagógico, a quentura que, ainda que queime de vez em quando, é fundamental para a boa alimentação.

O conhecimento dos tempos pandêmicos, pelas “plataformas virtuais”, pelos intermináveis formulários, das apostilas impressas, ainda que produzidos com todo o compromisso e carinho dos professores e professoras, não contém o calor de sua mediação. Por mais que as apostilas transbordem de intencionalidades, elas não contêm o calor da cozinha pedagógica, falta-lhes a presença do educador, da educadora... Falta, nestas atividades, o corpo presente, falante e pensante de momento, de cada educador, de cada educadora, da interação entre os seres (todos!). Por isso a sopa tem sido servida sempre fria...

Mas o pior é a sopa jogada fora, pelo “ralo” das secretarias de educação municipais e estaduais, as quais em geral têm exigido a intensificação do trabalho cozinha-remoto dos educadores e educadoras, desconsiderando em muitos casos suas condições individuais, tais como equipamentos tecnológicos de qualidade, internet de qualidade e formação em ferramentas digitais para cozinhar a sopa. O fato é que além disso muitos estudantes não tem acesso a sopa (aula virtual, por exemplo), de modo que grande parte desse preparo acaba sendo jogado fora. Em Florianópolis, a impressão é que a Secretaria, de forma análoga a criança dona da bola no jogo de futebol, quer ser a atacante, artilheira e juíza, destacando abertamente sua falta de diálogo profissional (fominha!) e aberto com o Conselho Municipal de Educação (CME), órgão regulador da possível normatização da reorganização do “menu” pedagógico, ou melhor, da reorganização curricular e do calendário letivo.

O tal “cardápio” apresentado pelo CME, ainda que não apresente saídas muito saborosas diante da situação pandêmica, destaca alguns avanços importantes para as “refeições” pedagógicas. Daqui a pouco voltamos nisso, primeiro vamos destacar alguns problemas que precisam de consideração...

Muitos estudantes não têm internet, mas esse não é o principal problema. Muitos não têm computador ou celular, mas esse também não é o principal problema. Muitos sequer têm o que comer neste momento, pois a escola, além de servir a sopa do conhecimento, também era espaço para alimentação saudável de verdade, sem analogia. Esse sim, é um problema imenso. Uma grande cozinheira (de verdade) da escola que trabalho sempre afirmou que “barriga vazia não aprende” e isso é um fato! Se não considerarmos as condições de moradia de cada família, em especial nos locais em que a pobreza impede qualquer tipo de "isolamento social" ou ainda condição mínima para estudar, é certo que a sopa não chegará na mesa de nossos estudantes.

Talvez alguns políticos demagogos afirmem que não é papel da escola garantir a comida na mesa das famílias. Ok, mas durante a pandemia, se as famílias não podem levar seus filhos para escola é papel do poder público levar alimento até as famílias! Mais que isso, é dever dos governos de plantão a proteção da vida de cada cidadão, de cada cidadã! Isso significa que para garantir o isolamento social, por exemplo, mais que uma quantia na forma de auxílio emergencial, os governos federal, estadual e municipal deveriam se debruçar para garantir dignidade a cada um, a cada uma. R$ 600,00 reais não é dignidade! Nem o salário-mínimo hoje em nosso país não garante a sobrevivência de um cidadão, muito menos de uma família se considerarmos o que diz a nossa constituição federal.

Mas voltemos a sopa do conhecimento, afinal esse texto iniciou por isso. Algumas questões ainda permanecem em nossa “fome imaginária”: Como é que professores e professoras, pais e familiares, trabalhadores e trabalhadoras podem exigir que a vida seja preservada em tempos de pandemia? Lembrem-se, já passamos de 100 mil mortos e a curva segue subindo...

As professoras e professores, cozinheiros da vida em sociedade, devem aceitar que sua sopa chegue fria ou que nem chegue a muitos lares?

Será que o momento que vivemos não pode servir para refletirmos talvez, em mudarmos nosso cardápio, ou seja, cientes que não é possível as aulas presenciais neste momento, nos preocuparmos mais com docinhos, salgadinhos, sorvetes e chocolates pedagógicos, promovendo a garantia do vínculo entre educadora e educando? Entre escola e família? Calma, a sopa é importante, mas podemos voltar nela com mais afinco quando retornarmos as atividades presenciais, ok? Muito aprendizado pode surgir dessa interação, mesmo que seja no formato virtual ou impresso (temporariamente apenas, insisto nisso!). Sem abandonarmos o horizonte que permitirá novamente o ensino presencial, a manutenção de vínculo pode contribuir para amenizar o sofrimento de professores, professoras, familiares e estudantes. Talvez essa seja uma boa “receita” para o momento.

Sou professor do município de Florianópolis e estou muito convicto que nossa rede tem condição de realizar melhores “menus” de conhecimento aos nossos estudantes. Mais que isso, que nós, como cozinheiras e cozinheiros do conhecimento, podemos sim estarmos juntos e organizados, mesmo que virtualmente, numa grande cozinha virtual, com nossas colheres e paus de amassar, exigindo que nenhum direito seja retirado, nem das trabalhadoras e trabalhadores, nem dos estudantes, de todas as esferas da educação básica.

Temos um instrumento sindical, o Sintrasem, que está na linha de frente da resistência de nossa luta em defesa da vida, da dignidade e por nenhum direito a menos.

Temos também neste momento um instrumento institucional, o CME que na próxima semana aprovará o documento que certamente impactará na vida profissional da educação e nas futuras sopas ou demais alimentos do conhecimento que viermos a produzir.

No primeiro cardápio divulgado, da minuta de resolução do conselho, percebe-se que há uma preocupação na garantia da sopa, bem como em não retirar direitos, nem dos estudantes, nem dos profissionais da educação. Mas a sensação ainda é que a sopa vai ser servida fria, pelo menos durante a pandemia. Também percebo que haverá uma certa amargura na sopa quando houver condições de retorno presencial, mas as iniciativas do cozinhar coletivo, das proposições dos educadores e educadoras da rede, nos debates democráticos em suas unidades educativas e posteriormente no Sintrasem, podem melhorar a expectativa desse cardápio a ser aprovado pelo CME na próxima semana.

Vejo com muito respeito quão exemplar tem sido o trabalho de elaboração dos conselheiros do CME, inclusive escutando todos os setores, com reuniões abertas demonstrando compromisso com processos democráticos de decisão... minha análise desse caldo, leva ao entendimento que nossa categoria tem se sentido anestesiada diante de tantos ataques... Ver números de mortos e contaminados no jornal diário passou a fazer parte da rotina, como colocar a mesa do café e chamar a atenção das crianças que não lavaram as mãos.

Trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente do serviço municipal, estão neste momento salvando vidas com 3% a menos em seus salários, devido aos desprezíveis vereadores da base do governo que aprovaram a lei de aumento da alíquota de previdência. Pensem como essa refeição não caiu bem... O corte nos salários também vale para nós da cozinha pedagógica além de todos os demais setores que estão em trabalho remoto. Na expectativa velada de amenizar essa contradição o prefeito antecipa o décimo terceiro salário, num ato de desespero para aumentar o giro da economia municipal e tentar calar a boca dos servidores e servidoras (não calarão!) que sentirão o impacto da perda de renda daqui para frente.

Um detalhe: Nossa profissão é a que melhor dialoga, ouso em dizer, com as aglomerações. É no movimento dos pequenos ou grandes estudantes, em conjunto, as vezes em dezenas de pessoas, que promovemos a humanidade pelas interações, pelo confronto de ideias, pela apresentação da riqueza do conhecimento produzido ao longo da história.

O documento apresentado pelo CME é o momentâneo resultado de uma construção coletiva. Essa construção certamente será enriquecida pela força e combatividade dos representantes das unidades educativas no conselho deliberativo do Sintrasem. Sou um deles e nossa história sindical é prova da força de nossa categoria em momentos decisivos, e não será diferente na reconstrução da pauta pedagógica para escolas e NEIMs. Relembrando Gilberto Gil, "andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá (sic)", ou seja, buscaremos um acolhimento mais “quente” tanto para o paladar dos profissionais, como para todos os estudantes, da Educação Infantil, da Educação Especial, do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos.

Na verdade, quando retornarmos as atividades presenciais precisaremos de outro prato, que não seja apenas a sopa. Talvez com a robustez e simplicidade do arroz com feijão, salada, proteínas variadas e muito tempero, consigamos recuperar com muito sabor, a quentura do processo educativo, a alegria de ensinar, mas também a vontade de aprender.

Valorizar a ciência, a arte e a filosofia nos dias de hoje, é um verdadeiro ato revolucionário. Que a ideologia dominante não impere e que as alterações desta resolução sejam para beneficiar a todos e todas, sem corporativismo, garantindo uma necessária “alimentação” de conhecimento para os estudantes, manutenção e ampliação da qualidade da educação, nenhum direito a menos e nenhum dever a mais para os profissionais da educação.

Seguimos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Abre o Zóio Siri de Mangue!


Contribuição de análise de conjuntura para a 9º Semana da Capoeira.

Uma roda de capoeira com um vereador, várias mulheres, professoras e ainda alguns sindicalistas, promete ter bons jogos, em especial para derrubarmos nossos inimigos feitores, capitães do mato e senhores do engenho...
Esses eram os nomes dos inimigos de ontem, agora é preciso identificarmos quem são esses inimigos em nossos dias. É verdade também que desde os tempos da escravidão haviam contradições nas lutas por libertação, como o exemplo da guarda negra que protegeu a Princesa Isabel, ou ainda cooptação de negros para participação na guerra do Paraguai.
Nos dias de hoje há os que lutam, mas também há os que desfrutam. Neste momento 2.153 bilionários possuem mais riqueza que 60% da população mundial (cerca de 7,8 bilhões – Jul/2020).  Ou seja, a riqueza dessas 2.153 pessoas é equivalente a riqueza de 4,6 Bilhões de pessoas. Nosso país, por exemplo, tem 210 milhões de pessoas, apenas para termos uma noção da dimensão dessa desigualdade.
Nós, na condição de cidadãos brasileiros, capoeiras e trabalhadores, temos o dever de transformar essa injustiça, mas nos entendendo como agentes de transformação. Se não há condições iguais de oportunidade para todos não é possível defender a tese que “basta correr atrás que você consegue”. Vamos a dois exemplos:
1° Exemplo – Muitos professores e mestres de capoeira atuam na informalidade, de modo que ao longo da pandemia muitos estão em situação de vulnerabilidade econômica. Há ainda outros que não dependem da capoeira como sustento principal, mas que também trabalham informalmente em outras áreas. Bimba, o estivador, foi um desses exemplos ao longo da história.
Nesse momento de crise é que precisamos do Estado para nos amparar, ou seja, dos impostos que pagamos todos os dias, em cada quilo de arroz ou feijão, ou ainda descontado de nosso salário no final de cada mês, temos o direito de receber assistência até que a crise passe.

“Contudo, no final de junho, o governo federal distribuiu apenas 10% da ajuda financeira prometida a trabalhadores e empresas, via Programa de Apoio ao Emprego de Emergência (PESE), com grandes empresas obtendo mais benefícios do governo do que trabalhadores ou micro e pequenas empresas. Da mesma forma, apenas 47,9% dos fundos destinados à assistência de emergência a pessoas vulneráveis foram distribuídos no início de julho.”

Na prática isso significa que 10 milhões de pessoas em situação de fome ainda esperam ser aprovadas para receber o auxílio emergencial. Ou seja, quase 90 bilhões de reais que poderiam auxiliar as famílias, ainda não saiu dos cofres públicos, mesmo já estando aprovados para tal. Como dizia um dos capitães do mato da atualidade, o ministro da economia Paulo Guedes, “Já colocamos a granada no bolso do trabalhador”. Sim, esse mesmo capitão do mato teve a cara de pau de afirmar que só deveriam ser ajudadas as grandes empresas, pois as pequenas não dão lucro. De fato para ele as vidas não importam.
Entre desempregados e desalentados no Brasil temos hoje cerca de 17,7 milhões de pessoas. Isso representa 12% da população em idade para trabalhar que está na rua...
2º Exemplo – Além da desigualdade econômica vivemos uma desigualdade étnica e de gênero. O feitor de ontem é o “neofascista” de hoje. É preciso dar nome aos bois, ou melhor, ao gado. O racismo e o machismo são elementos estruturais de nossa sociedade, não vieram com o Bolsonaro. Mas é pelo governo atual que movimentos fascistas têm crescido, o que aumenta o risco de vida do povo pobre, mas em especial dos negros, indígenas e das mulheres. Por exemplo, a cada 100 homicídios no Brasil, 75 são de pessoas negras. Com a pandemia dispararam os casos de violência doméstica contra a mulher, em especial em nosso estado, o qual tem uma mulher no próprio nome. Sei que outras pessoas trarão mais elementos sobre a questão racial e de gênero, por isso vou me ater a apenas mais alguns elementos:
72,7% da população pobre é composta por negros. Já entre as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, que não possuem renda superior a 145 reais por pessoa da família, 27,2 milhões são de mulheres negras. Se isso já é muito, o fato é que a renda por pessoa da família, entre pessoas negras é a metade do valor médio da renda de famílias brancas.
Nós precisamos lutar contra essas desigualdades, a começar pela defesa do avanço das políticas de equiparação social, as quais vem sendo destruídas no governo atual. Do jeito que as coisas vão, levaremos 202 anos para que as mulheres desfrutem do mesmo direito dos homens, apenas como exemplo.
Vivemos um governo que incentiva o fascismo. E foi o fascismo que assassinou Mestre Moa de Catende, foi o fascismo que matou Marielle Franco, é o fascismo militarizado que vem matando a juventude negra nas comunidades de nossa cidade, a exemplo das ações militares no morro do mocotó, do mont serrat, morro do quilombo e tantos outros. O número de pessoas mortas pela polícia militar no Brasil aumentou durante a pandemia. Nosso país é o que tem a polícia que mais mata e também o que mais policiais morrem. O direito a vida é de fato o direito pelo qual temos que lutar.
Mas estão roubando nossos direitos. A reforma trabalhista, a lei das terceirizações, a reforma da previdência, o sucateamento do serviço público, estão aí como armas do capital para fortalecer banqueiros e seus cofres, enquanto socializa para 99% da população apenas a pobreza e a miséria.
Nesse jogo a capoeira é mais que um patrimônio, é um bem cultural maravilhoso, singular, único! Mas sua prática ganha muito mais sentido quando aliada à sua história. É preciso reconhecer os avanços e os percalços.
Enfim, é preciso conclamar os capoeiras para realmente abrirem os olhos, pois a pandemia, vai passar, mas a luta contra o feitor permanece em nossos dias. É preciso identificarmos nossos inimigos, lutarmos para manter viva nossa história, mas principalmente, construirmos uma sociedade justa e igualitária, na qual o jogo da capoeira, a roda da capoeira, sejam mais que um patrimônio da humanidade, sejam bem culturais públicos, a serviço de nossa nação, tendo seus mestres e professores a proteção do estado para manutenção de nossa cultura.
Hoje são vários os movimentos em luta contra o governo e a lógica perversa do capital. Vidas Negras Importam, Fora Bolsonaro! Solidariedade a população necessitada! Em defesa do serviço público! Todo apoio as lutas dos trabalhadores entregadores de aplicativos! Contra o Genocídio, precisamos salvar vidas, não o lucro!
Seguindo as palavras de Mestre Cícero,
Eu sou capoeira, eu sou cantador, sou menino na hora da paz, sou guerreiro na hora da dor...” Iê Camará!

Minha gratidão ao Fórum pela oportunidade e aos grandes camaradas Danusa, Marquito, Vitinho, Jumeri e Elisa que contribuíram imensamente em minha formação no dia de hoje. Abraços.


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