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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

E se Paulo Freire fosse Professor da Rede Municipal de Florianópolis nesse tempo de Pandemia?

Por Marcos Canguru.

❓   ❓   ❓

Fonte da Imagem: Revista Educação

Todos falam em Paulo Freire, alguns poucos de forma contrária e muitos outros reivindicam seu legado, interpretando de tantas formas sua obra que por certo esse grande expoente da educação brasileira pode estar sendo vítima de falsários, demagogos e outros adjetivos não possíveis de explicitar para não perdermos nossa posição de professor-educador. Mas, se tantos o usam, imagine só se ele estivesse vivo, contratado como professor substituto na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis? Aos curiosos e curiosas, segue mais uma crônica da vida real. Qualquer semelhança não será mera coincidência...

As relações homens-mundo na educação municipal

Estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no ato em defesa da educação – Agosto de 2019

Pois bem, estamos em 2019, e Paulo Freire, com todo acúmulo que tem, resolveu fazer concurso público para professor em Florianópolis, utilizando-se para tal de vários diplomas de Doutor Honoris Causa em educação ganhos nas mais variadas universidades mundo afora. Obviamente que ele passou e resolveu sair do bairro de Casa Amarela, no Recife, para instalar-se no bairro Chico Mendes, em Florianópolis. Percebeu que o edital de chamamento dos concursados possuía equívocos primários, como o cálculo para dar conta dos prazos legais, deixando os aprovados sem possibilidade de assumirem logo no início do ano letivo.

Mas tudo bem, dialógico como é, Paulo se inscreveu no processo seletivo para ACT, o famoso substituto, para não ficar desempregado até que fosse chamado no concurso de efetivação. Não que ele precisasse disso economicamente, mas queria de fato se familiarizar com os círculos de cultura que permeiam a categoria profissional da educação de Florianópolis. Escolheu uma vaga de substituto com prazo término no início de maio, na expectativa de ser chamado até a data. Ledo engano...

A primeira lição que Paulo teve, quando começou a circular na rede de educação de Florianópolis em 2020, é que a secretaria municipal de educação (SME) utiliza muito de suas “frases de efeito” para capitular posições de legitimidade com os professores em geral, mas não traduz a intencionalidade destas frases em sua prática de gestão. Paulo percebeu o pouco compromisso com a transparência por parte da governo, algo completamente diferente do que foi sua gestão como Secretário de Educação da cidade de São Paulo, décadas antes, durante o belíssimo governo Erundina. 

A segunda lição, foi quando Paulo recebeu um panfleto do sindicato, o SINTRASEM, chamando para uma assembleia de todo o serviço municipal, ainda em fevereiro. Paulo ficou admirado com a assembleia, pois percebeu que além do pessoal da educação havia representação de todos os setores do serviço municipal de Florianópolis. Ficou esperançoso ao perceber a qualidade dos debates e embates dos servidores e servidoras municipais, respeitando o processo democrático-participativo e vivendo, na prática social, muitos dos seus ensinamentos.

Apesar de alegre com essa organização, Paulo ficou indignado com a quantidade de escolas e núcleos de educação infantil precários na cidade, enquanto o secretário verbalizava estar atendendo a todos os problemas da educação. Paulo pensou consigo mesmo: um texto sem um contexto gera um pretexto... um discurso da prefeitura, sem materialidade no real, só serve para enganar a população...

Quando Paulo teve acesso ao seu contracheque a pedagogia da indignação ganhou forma. Ele recebeu um salário correspondente como título de doutor, mas seus pares, que só possuíam graduação, receberam um valor abaixo da lei do piso nacional do magistério. Paulo entrou em contato com o Sintrasem e foi esclarecido que essa luta é antiga, já há bastante tempo luta-se para que o piso seja pago de forma proporcional para toda a categoria, mas o governo Gean conseguiu piorar isso, não pagando a lei do piso nem para o graduado em início de tabela.

Mas Paulo sempre foi um otimista, de modo que as situações problemas identificados poderiam sim tornarem-se inéditos viáveis desde que todos valorizassem a educação pública de fato, para além de discursos vagos. Alguns desses inéditos viáveis ganharam forma com a aprovação da pauta de reivindicações da data-base em assembleia por todo serviço municipal, deliberada democraticamente e com grande representatividade da base.

Nas reuniões de sua escola, na comunidade Chico Mendes, Paulo vislumbrou outros inéditos viáveis, e através de uma pedagogia da esperança, observou o cuidado de seus companheiros e companheiras de trabalho com os estudantes, seus modos de vida, suas condições de oprimidos. Isso permitiu que ele se visse num tempo que passou, lá em Angicos[1], quando ensinou adultos a lerem num curto espaço de tempo.

No seu trabalho em Florianópolis Paulo pode retomar seu método, compartilhando e sendo ouvido pelos seus pares, mas de forma crítica e consciente, alicerçada no movimento do real, sem idolatria. Todos sabiam que ele só ficaria na escola até maio, depois assumiria como efetivo.

 O advento da pandemia e seus impactos na educação como prática da liberdade


Fonte da Imagem: Nova Escola

Desde o dia 16 de março a educação no município de Florianópolis está suspensa, permanecendo ativa apenas no formato virtual, pela plataforma paga da Google, ou impressa, tendo o familiar a responsabilidade de buscar as atividades na escola.

Essa suspensão foi acertada, porém trouxe muitas dúvidas para todos, inclusive para Paulo. Sempre coerente na valorização dos saberes, em especial o científico, ele seguiu as instruções e se colocou a pensar sobre que formas poderiam ser elaboradas para que a educação não ficasse a mercê do isolamento social, mas assumisse um papel ativo e protagonista, como é de sua natureza para transformação da sociedade.

A liberdade autoral dos profissionais foi uma primeira preocupação de Paulo, que buscou dialogar com setores da secretaria de educação, mas não obteve retorno. Em seguida ele soube que algumas cidades de Santa Catarina, como Joinville e Blumenau, aprovaram resoluções em seus conselhos municipais sobre a educação durante a pandemia, mas sem qualquer diálogo democrático com os atores da educação, como profissionais, estudantes e responsáveis. Foi então que recorreu ao Conselho Municipal de Educação de Florianópolis (CME), onde lhe foi sugerido participar de uma das reuniões que estavam sendo elaboradas com toda a sociedade sobre o tema.

Paulo, consciente que o diálogo começa na busca do conteúdo programático, identificou os limites do CME, pois dentro dele havia tanto representantes dos oprimidos, como também dos opressores. Não criou ilusão e buscou acompanhar mais de perto os encaminhamentos de sua unidade educativa, bem como de toda sua categoria por meio do Sintrasem.

Nesse caminhar Paulo se deparou com a angústia dos profissionais que assim como ele, poderiam perder seus empregos temporários por não haver qualquer política pública de proteção nesse momento. Mas se indignou quando viu a SME e o próprio prefeito usando a angústia dos trabalhadores como moeda de troca para aprovação de uma lei que manteria alguns profissionais empregados (não todos), mas sem qualquer diálogo democrático-participativo com a sociedade.

A indignação não foi maior porque de fato os profissionais contratados nas ditas “classes vagas”, ou seja, que não havia já um professor titular na vaga, permanecem empregados durante a pandemia. Mas não era o caso dele. Paulo assumiu uma vaga no lugar de um profissional que havia entrado em “licença prêmio”, um direito do magistério municipal coerente e necessário, haja vista que os trabalhadores do serviço público não possuem fundo de garantia (FGTS), por isso quando saem o que recebem é apenas o referente a conquista destas licenças, como prêmio por cinco anos de trabalho ininterruptos, servindo a população de Florianópolis. O detalhe é que esse direito também vem sendo retirado e sua forma de benefício já não é a mesma devido a ingerência do governo Gean.

O contrato dele terminou antes da primeira quinzena de maio. Foi um escândalo mundo a fora... Jornais noticiavam: “Educador Paulo Freire é mais um número na estatística de desempregados”; “Cidade escolhida por Paulo Freire para desenvolver seu trabalho o trata com desprezo e encerra seu contrato de professor durante a pandemia”; “O patrono da educação brasileira é desvalorizado em seu próprio país! Florianópolis deixa de ser o exemplo de educação de qualidade ao demitir profissionais durante a pandemia”.

Com tantos holofotes mundiais para Florianópolis o prefeito e o secretário tentaram justificar o injustificável. Tentaram defender o indefensável. Desesperados, chamaram Paulo no gabinete da SME e lhe ofereceram uma vaga em outra unidade educativa, com a condição de que ele valorizasse a gestão municipal atual e abafasse as críticas mundiais.

Paulo se viu em situação parecida como contada no livro medo e ousadia. Se ele aceitasse, teria seu emprego de volta, mas renunciaria a sua prática social. Se ele negasse, continuaria sendo pressionado como figura pública e talvez isso fosse bastante arriscado, dada a sua idade avançada, quase centenária, ainda que em qualificada atividade.

Mas a verdade é que Paulo nem pensou duas vezes, disse não a proposta e exigiu que todos os profissionais desempregados deveriam ter seus contratos renovados até o fim da pandemia, pois com as escolas fechadas não há condições de sobreviver como professor.

Paulo reviveu o sentido da educação como prática da liberdade, solicitando que sua obra não fosse mais utilizada nos materiais da SME, muito menos nos discursos do secretário, uma vez que não condiziam com a prática política dirigida a educação municipal. Mas se manteve aberto para o diálogo, entendendo que só dessa forma poderia haver mudanças no cenário que avançava.

Ao ser questionado por um jornal local sobre o porquê preferiu ficar desempregado, Paulo respondeu que não era esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico[2].

 Ao mesmo tempo que lidava com essa pressão política, Paulo estava muito mais preocupado com a condição dos oprimidos da cidade, em especial pelo agravamento com o advento da pandemia. Muitos de seus pares da rede municipal debatiam formas de fazer chegar à educação para todos os estudantes enquanto Paulo se perguntava: Mas em qual condição estão nossos estudantes? Tem onde morar de forma segura para o isolamento social? Tem o que comer? Tem condições de aproveitar o tempo para ler o material pedagógico sem interrupções advindas de sua condição de oprimido? Sua conclusão foi a mesma da maioria dos educadores e educadoras do mundo: O mais importante é a VIDA! O ensino se recupera, vidas não.

Independente de ficar sem o contrato de trabalho, Paulo seguiu dedicando sua prática dialógica à luta dos oprimidos por condições de existência, aproveitando sua imagem para realização de uma solidariedade de classe ativa, crítica e consciente. Militantes sindicais aproveitaram suas propostas e deram eco as ideias, que repercutiram tanto pelo Sintrasem, como furaram as bolhas de controle das famílias e estudantes das unidades educativas municipais.

O sindicato organizou um questionário que deu elementos concretos acerca das condições da população não apenas sobre o acesso as atividades não presenciais, mas sobre as condições de vida desses estudantes e suas famílias. Com isso muitos inéditos viáveis emergiram e temas geradores passaram da simples ideia de atividades interdisciplinares, para de fato propostas que instrumentalizaram os estudantes no sentido de lerem não apenas as palavras, mas o mundo que os cercam.

Paulo seguiu refletindo o momento da pandemia com aproximações ao período da ditadura, quando a direita além de concentrar o poder, agia de modo a calar todos os seus opositores. Percebeu, de fato, muitas semelhanças com seu momento de exílio, o que permitiu identificar a relação do governo dito democrático de Florianópolis na figura de Gean e o autoritarismo do governo Bolsonaro.

Seguindo nas trincheiras junto com os oprimidos, Paulo seguiu dando exemplo em suas ações, particularmente no sentido de sua tolerância para elevar a consciência crítica presente entre seus pares, e sua combatividade contra os opressores. Questionado sobre sua tolerância por um grupo da vanguarda do serviço municipal de Florianópolis, Paulo respondeu que a tolerância deve ser “a virtude revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa melhor lutar contra os antagônicos”[3], no caso, contra o governo Gean, Moisés e Bolsonaro.

A pedagogia da indignação, da autonomia e da esperança para fortalecer os oprimidos

 


Fonte da Imagem: Fundação Getúlio Vargas

A política genocida do governo Bolsonaro, aliada a política demagógica dos governos estaduais e municipais foi de grande impacto na saúde de Paulo, que, em Florianópolis, ficou em crise se deveria voltar para o Nordeste, onde a presença do estado na forma de políticas sociais é infinitamente menor que no sul maravilha.

Ele estava certo no seu papel atuante enquanto intelectual orgânico a serviço da classe trabalhadora, mas para que Florianópolis continuasse sua luta em defesa de toda a população, dos serviços públicos e principalmente em defesa da vida, ele fez a seguinte afirmação:

- Estou voltando para o Recife, mas peço que não percam a esperança! Não deixem que o medo do difícil os paralisem![4] A intolerância, a negação das diferenças precisa ser combatida! É chegado o momento de uma política radical, jamais, porém, sectária, buscando a unidade na diversidade das forças progressistas, para lutar por uma democracia capaz de fazer frente ao poder e à virulência da direita[5].

Para Paulo, a esperança segue nos corações e no pensamento das lutadoras e lutadores do serviço público municipal. As trabalhadoras e trabalhadores tem o direito e o dever de mudar o mundo.

Deixou como tarefa, para todas e todos que dele tiveram algum contato durante sua jornada em Florianópolis, para que não deixem adormecer sua curiosidade. Ao contrário, sigam aguçando-a, como exercício de resistência a uma possível retirada de direitos e liberdades democráticas.

Aguçar a curiosidade, para Paulo, é defender a escola pública, pois permite ampliar o horizonte da curiosidade social e individual[6].

A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, faz parte integrante, repitamos, do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (PAULO FREIRE, p.48, 2000).

Suas palavras são mais atuais que nunca e se renovam a cada avanço dos oprimidos na luta para deixarem de sê-lo. Sobre o momento de “educação não presencial”, Paulo refletiu sobre a tecnologia, afirmando que “a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa[7].

Enquanto embarcava para sua terra natal, Paulo ainda foi questionado sobre o plano da prefeitura de usar a televisão, via TVCâmara como mais uma possibilidade de estudo durante a pandemia. Sem muitas delongas afirmou categoricamente que “não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. [...] a postura crítica e desperta nos momentos necessários [como a pandemia] não pode faltar[8]. Em outras palavras, jamais uma educação bancária servirá para atender as necessidades dos oprimidos. No máximo, servirá para manter a sociedade desigual que vivemos.

O Nordeste recebe seu expoente de braços abertos, enquanto as lutadoras e lutadores do serviço público municipal, aqui da ilha da magia, seguem na luta em defesa da vida, do serviço público e com o esperançar freiriano como mais um dos referenciais de consciência de classe.

 



[1] Cidade do Rio Grande do Norte

[2] Trecho do Livro Pedagogia da Esperança.

[3] Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[4] Trecho extraído do livro Pedagogia da Autonomia, 1996.

[5] Trechos extraídos do livro Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[6] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.47, 2000.

[7] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.48, 2000.

[8] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.50, 2000.