Sempre na luta.
terça-feira, 23 de março de 2021
É GREVE! PELA VIDA!
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
E se Paulo Freire fosse Professor da Rede Municipal de Florianópolis nesse tempo de Pandemia?
Por Marcos Canguru.

Fonte da Imagem: Revista
Educação
Todos falam em Paulo Freire, alguns poucos
de forma contrária e muitos outros reivindicam seu legado, interpretando de
tantas formas sua obra que por certo esse grande expoente da educação
brasileira pode estar sendo vítima de falsários, demagogos e outros adjetivos
não possíveis de explicitar para não perdermos nossa posição de
professor-educador. Mas, se tantos o usam, imagine só se ele estivesse vivo,
contratado como professor substituto na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis?
Aos curiosos e curiosas, segue mais uma crônica da vida real. Qualquer
semelhança não será mera coincidência...
As relações homens-mundo na educação municipal
Estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no ato em defesa da educação – Agosto de 2019
Pois bem, estamos em 2019, e Paulo Freire,
com todo acúmulo que tem, resolveu fazer concurso público para professor em
Florianópolis, utilizando-se para tal de vários diplomas de Doutor Honoris Causa
em educação ganhos nas mais variadas universidades mundo afora. Obviamente que
ele passou e resolveu sair do bairro de Casa Amarela, no Recife, para instalar-se no bairro Chico Mendes, em Florianópolis. Percebeu que o edital de chamamento dos concursados possuía
equívocos primários, como o cálculo para dar conta dos prazos legais, deixando
os aprovados sem possibilidade de assumirem logo no início do ano letivo.
Mas tudo bem, dialógico
como é, Paulo se inscreveu no processo seletivo para ACT, o famoso substituto,
para não ficar desempregado até que fosse chamado no concurso de efetivação.
Não que ele precisasse disso economicamente, mas queria de fato se familiarizar
com os círculos de cultura que permeiam a categoria profissional da
educação de Florianópolis. Escolheu uma vaga de substituto com prazo término no
início de maio, na expectativa de ser chamado até a data. Ledo engano...
A primeira lição que Paulo teve, quando começou a circular na rede de educação de Florianópolis em 2020, é que a secretaria municipal de educação (SME) utiliza muito de suas “frases de efeito” para capitular posições de legitimidade com os professores em geral, mas não traduz a intencionalidade destas frases em sua prática de gestão. Paulo percebeu o pouco compromisso com a transparência por parte da governo, algo completamente diferente do que foi sua gestão como Secretário de Educação da cidade de São Paulo, décadas antes, durante o belíssimo governo Erundina.
A segunda lição, foi
quando Paulo recebeu um panfleto do sindicato, o SINTRASEM, chamando para uma
assembleia de todo o serviço municipal, ainda em fevereiro. Paulo ficou admirado
com a assembleia, pois percebeu que além do pessoal da educação havia representação
de todos os setores do serviço municipal de Florianópolis. Ficou esperançoso ao
perceber a qualidade dos debates e embates dos servidores e servidoras
municipais, respeitando o processo democrático-participativo e vivendo, na
prática social, muitos dos seus ensinamentos.
Apesar de alegre com essa organização, Paulo ficou indignado com a quantidade de escolas e núcleos de educação infantil precários na cidade, enquanto o secretário verbalizava estar atendendo a todos os problemas da educação. Paulo pensou consigo mesmo: um texto sem um contexto gera um pretexto... um discurso da prefeitura, sem materialidade no real, só serve para enganar a população...
Quando Paulo teve
acesso ao seu contracheque a pedagogia da indignação ganhou forma. Ele
recebeu um salário correspondente como título de doutor, mas seus pares, que só
possuíam graduação, receberam um valor abaixo da lei do piso nacional do
magistério. Paulo entrou em contato com o Sintrasem e foi esclarecido que essa
luta é antiga, já há bastante tempo luta-se para que o piso seja pago de forma proporcional
para toda a categoria, mas o governo Gean conseguiu piorar isso, não pagando a
lei do piso nem para o graduado em início de tabela.
Mas Paulo sempre foi um
otimista, de modo que as situações problemas identificados poderiam sim
tornarem-se inéditos viáveis desde que todos valorizassem a educação
pública de fato, para além de discursos vagos. Alguns desses inéditos
viáveis ganharam forma com a aprovação da pauta de reivindicações da data-base
em assembleia por todo serviço municipal, deliberada democraticamente e com
grande representatividade da base.
Nas reuniões de sua escola, na comunidade Chico Mendes, Paulo vislumbrou outros inéditos viáveis, e através de uma pedagogia da esperança, observou o cuidado de seus companheiros e companheiras de trabalho com os estudantes, seus modos de vida, suas condições de oprimidos. Isso permitiu que ele se visse num tempo que passou, lá em Angicos[1], quando ensinou adultos a lerem num curto espaço de tempo.
No seu trabalho em Florianópolis Paulo pode retomar seu método, compartilhando e sendo ouvido pelos seus pares, mas de forma crítica e consciente, alicerçada no movimento do real, sem idolatria. Todos sabiam que ele só ficaria na escola até maio, depois assumiria como efetivo.
O advento da pandemia e seus impactos na educação como prática da liberdade
Desde o dia 16 de março
a educação no município de Florianópolis está suspensa, permanecendo ativa
apenas no formato virtual, pela plataforma paga da Google, ou impressa, tendo o
familiar a responsabilidade de buscar as atividades na escola.
Essa suspensão foi
acertada, porém trouxe muitas dúvidas para todos, inclusive para Paulo. Sempre
coerente na valorização dos saberes, em especial o científico, ele seguiu as
instruções e se colocou a pensar sobre que formas poderiam ser elaboradas para
que a educação não ficasse a mercê do isolamento social, mas assumisse um papel
ativo e protagonista, como é de sua natureza para transformação da sociedade.
A liberdade autoral
dos profissionais foi uma primeira preocupação de Paulo, que buscou dialogar
com setores da secretaria de educação, mas não obteve retorno. Em seguida ele
soube que algumas cidades de Santa Catarina, como Joinville e Blumenau,
aprovaram resoluções em seus conselhos municipais sobre a educação durante a
pandemia, mas sem qualquer diálogo democrático com os atores da educação, como
profissionais, estudantes e responsáveis. Foi então que recorreu ao Conselho Municipal
de Educação de Florianópolis (CME), onde lhe foi sugerido participar de uma das
reuniões que estavam sendo elaboradas com toda a sociedade sobre o tema.
Paulo, consciente que o
diálogo começa na busca do conteúdo programático, identificou os limites
do CME, pois dentro dele havia tanto representantes dos oprimidos, como
também dos opressores. Não criou ilusão e buscou acompanhar mais de
perto os encaminhamentos de sua unidade educativa, bem como de toda sua
categoria por meio do Sintrasem.
Nesse caminhar Paulo se
deparou com a angústia dos profissionais que assim como ele, poderiam perder
seus empregos temporários por não haver qualquer política pública de proteção
nesse momento. Mas se indignou quando viu a SME e o próprio prefeito usando a
angústia dos trabalhadores como moeda de troca para aprovação de uma lei que
manteria alguns profissionais empregados (não todos), mas sem qualquer diálogo democrático-participativo com
a sociedade.
A indignação não foi
maior porque de fato os profissionais contratados nas ditas “classes vagas”, ou
seja, que não havia já um professor titular na vaga, permanecem empregados
durante a pandemia. Mas não era o caso dele. Paulo assumiu uma vaga no lugar de
um profissional que havia entrado em “licença prêmio”, um direito do magistério
municipal coerente e necessário, haja vista que os trabalhadores do serviço
público não possuem fundo de garantia (FGTS), por isso quando saem o que recebem é apenas o
referente a conquista destas licenças, como prêmio por cinco anos de trabalho
ininterruptos, servindo a população de Florianópolis. O detalhe é que esse direito também vem sendo retirado e sua forma de benefício já não é a mesma devido a ingerência do governo Gean.
O contrato dele terminou
antes da primeira quinzena de maio. Foi um escândalo mundo a fora... Jornais noticiavam:
“Educador Paulo Freire é mais um número na estatística de desempregados”; “Cidade
escolhida por Paulo Freire para desenvolver seu trabalho o trata com desprezo e
encerra seu contrato de professor durante a pandemia”; “O patrono da educação
brasileira é desvalorizado em seu próprio país! Florianópolis deixa de ser o
exemplo de educação de qualidade ao demitir profissionais durante a pandemia”.
Com tantos holofotes mundiais
para Florianópolis o prefeito e o secretário tentaram justificar o injustificável.
Tentaram defender o indefensável. Desesperados, chamaram Paulo no gabinete da
SME e lhe ofereceram uma vaga em outra unidade educativa, com a condição de que
ele valorizasse a gestão municipal atual e abafasse as críticas mundiais.
Paulo se viu em
situação parecida como contada no livro medo e ousadia. Se ele
aceitasse, teria seu emprego de volta, mas renunciaria a sua prática social. Se
ele negasse, continuaria sendo pressionado como figura pública e talvez isso fosse
bastante arriscado, dada a sua idade avançada, quase centenária, ainda que em qualificada
atividade.
Mas a verdade é que
Paulo nem pensou duas vezes, disse não a proposta e exigiu que todos os profissionais
desempregados deveriam ter seus contratos renovados até o fim da pandemia, pois
com as escolas fechadas não há condições de sobreviver como professor.
Paulo reviveu o sentido
da educação como prática da liberdade, solicitando que sua obra não
fosse mais utilizada nos materiais da SME, muito menos nos discursos do
secretário, uma vez que não condiziam com a prática política dirigida a
educação municipal. Mas se manteve aberto para o diálogo, entendendo que
só dessa forma poderia haver mudanças no cenário que avançava.
Ao ser questionado por
um jornal local sobre o porquê preferiu ficar desempregado, Paulo respondeu que
não era esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico[2].
Ao mesmo tempo que lidava com essa pressão
política, Paulo estava muito mais preocupado com a condição dos oprimidos da
cidade, em especial pelo agravamento com o advento da pandemia. Muitos de seus
pares da rede municipal debatiam formas de fazer chegar à educação para todos os
estudantes enquanto Paulo se perguntava: Mas em qual condição estão nossos
estudantes? Tem onde morar de forma segura para o isolamento social? Tem o que
comer? Tem condições de aproveitar o tempo para ler o material pedagógico sem
interrupções advindas de sua condição de oprimido? Sua conclusão foi a
mesma da maioria dos educadores e educadoras do mundo: O mais importante é a
VIDA! O ensino se recupera, vidas não.
Independente de ficar sem o contrato de trabalho, Paulo seguiu dedicando sua prática dialógica à luta dos oprimidos por condições de existência, aproveitando sua
imagem para realização de uma solidariedade de classe ativa, crítica e
consciente. Militantes sindicais aproveitaram suas propostas e deram eco as
ideias, que repercutiram tanto pelo Sintrasem, como furaram as bolhas de
controle das famílias e estudantes das unidades educativas municipais.
O
sindicato organizou um questionário que deu elementos concretos acerca das
condições da população não apenas sobre o acesso as atividades não presenciais,
mas sobre as condições de vida desses estudantes e suas famílias. Com isso
muitos inéditos viáveis emergiram e temas geradores passaram da
simples ideia de atividades interdisciplinares, para de fato propostas que
instrumentalizaram os estudantes no sentido de lerem não apenas as palavras,
mas o mundo que os cercam.
Paulo seguiu refletindo
o momento da pandemia com aproximações ao período da ditadura, quando a direita
além de concentrar o poder, agia de modo a calar todos os seus opositores.
Percebeu, de fato, muitas semelhanças com seu momento de exílio, o que permitiu
identificar a relação do governo dito democrático de Florianópolis na figura de
Gean e o autoritarismo do governo Bolsonaro.
Seguindo nas
trincheiras junto com os oprimidos, Paulo seguiu dando exemplo em suas ações,
particularmente no sentido de sua tolerância para elevar a consciência crítica
presente entre seus pares, e sua combatividade contra os opressores.
Questionado sobre sua tolerância por um grupo da vanguarda do serviço municipal
de Florianópolis, Paulo respondeu que a tolerância deve ser “a virtude
revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa
melhor lutar contra os antagônicos”[3],
no caso, contra o governo Gean, Moisés e Bolsonaro.
A pedagogia da indignação, da autonomia e da
esperança para fortalecer os oprimidos
A política genocida do governo
Bolsonaro, aliada a política demagógica dos governos estaduais e municipais foi
de grande impacto na saúde de Paulo, que, em Florianópolis, ficou em crise se
deveria voltar para o Nordeste, onde a presença do estado na forma de políticas
sociais é infinitamente menor que no sul maravilha.
Ele estava certo no seu
papel atuante enquanto intelectual orgânico a serviço da classe trabalhadora,
mas para que Florianópolis continuasse sua luta em defesa de toda a população,
dos serviços públicos e principalmente em defesa da vida, ele fez a seguinte afirmação:
- Estou voltando para o
Recife, mas peço que não percam a esperança! Não deixem que o medo do difícil
os paralisem![4]
A intolerância, a negação das diferenças precisa ser combatida! É chegado o
momento de uma política radical, jamais, porém, sectária, buscando a
unidade na diversidade das forças progressistas, para lutar por
uma democracia capaz de fazer frente ao poder e à virulência da direita[5].
Para Paulo, a esperança
segue nos corações e no pensamento das lutadoras e lutadores do serviço público
municipal. As trabalhadoras e trabalhadores tem o direito e o dever de mudar
o mundo.
Deixou como tarefa,
para todas e todos que dele tiveram algum contato durante sua jornada em Florianópolis, para que não deixem adormecer sua curiosidade. Ao contrário, sigam aguçando-a,
como exercício de resistência a uma possível retirada de direitos e liberdades
democráticas.
Aguçar a curiosidade, para Paulo, é defender
a escola pública, pois permite ampliar o horizonte da curiosidade social e individual[6].
A curiosidade como
inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta
verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que
sugere alerta, faz parte integrante, repitamos, do fenômeno vital.
Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe
pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando
a ele algo que fazemos. (PAULO FREIRE, p.48, 2000).
Suas palavras são mais
atuais que nunca e se renovam a cada avanço dos oprimidos na luta para deixarem
de sê-lo. Sobre o momento de “educação não presencial”, Paulo refletiu sobre a tecnologia,
afirmando que “a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa”[7].
Enquanto embarcava para
sua terra natal, Paulo ainda foi questionado sobre o plano da prefeitura de
usar a televisão, via TVCâmara como mais uma possibilidade de estudo durante a
pandemia. Sem muitas delongas afirmou categoricamente que “não podemos nos pôr
diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier.
[...] a postura crítica e desperta nos momentos necessários [como a
pandemia] não pode faltar[8]. Em outras palavras, jamais uma educação bancária servirá para atender as necessidades dos oprimidos. No máximo, servirá para manter a sociedade desigual que vivemos.
O Nordeste recebe seu expoente
de braços abertos, enquanto as lutadoras e lutadores do serviço público municipal, aqui da ilha da magia, seguem na luta em defesa da vida, do serviço público e com o esperançar
freiriano como mais um dos referenciais de consciência de classe.
[1] Cidade do Rio Grande do Norte
[2]
Trecho do Livro Pedagogia da Esperança.
[3]
Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.
[4]
Trecho extraído do livro Pedagogia da Autonomia, 1996.
[5]
Trechos extraídos do livro Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.
[6] Trecho
extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.47, 2000.
[7] Trecho
extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.48, 2000.
[8] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.50, 2000.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Dilemas na cozinha pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis.
Reflexões e crônicas da vida real para um momento de decisão dentro do Conselho Municipal de Educação.
Marcos Canguru.
Para falarmos de problemas latentes, as vezes é melhor procurarmos caminhos imaginários. Nesse sentido vou tentar apresentar um pouco da "cozinha" pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis. Talvez as semelhanças não sejam meras coincidências, mas prepare seu paladar, pois o prato dessa reflexão escrita pode ser um pouco picante.
Todo início de ano cada professor dedica um longo tempo, individual e coletivo, para planejar o caminhar de seus grupos estudantis no processo de ensino aprendizagem. Os profissionais mais atentos, pesquisadores, curiosos por convicção, identificam elementos no próprio desenvolvimento de seus planejamentos, antes, durante e depois de cada aula, de cada ciclo de aprendizagem planejada.
Considerando a singularidade do processo de apreensão do conhecimento por parte de cada estudante, o profissional ideal, comprometido com a educação, faz o que lhe cabe, ou seja, garante a qualidade da aprendizagem, o acesso ao
conhecimento, a didática no processo, enfim, promove a educação em sua amplitude.
Esse cenário é o que almejamos, porém essa construção é limitada pelas condições objetivas do
trabalho cotidiano, tais como estrutura escolar precária, superlotação de
estudantes por sala, pouco material pedagógico disponível, sobrecarga da
jornada de trabalho, baixos salários e desvalorização da profissão perante a
sociedade, além de estudantes com sérios problemas sociais, culturais e
econômicos, vítimas de violência de todo tipo, baixa autoestima, sem
perspectivas de futuro. Esse é o panorama da educação de nosso país, ainda que existam particularidades de acordo com cada cidade ou estado. Ao considerarmos as condições objetivas e
subjetivas no processo de formação dos profissionais da educação o
problema só aumenta. Com o avanço da educação a distância (EAD) na formação de professores e professoras
temos uma formação precarizada, acelerada, desconectada das reais necessidades
do processo de profissionalização da educação. Com isso tanto professores e
professoras, como estudantes das diversas modalidades de ensino acabam sendo
prejudicados.
Na mexida desse caldo
todo está a educação, algo que cada estudante consome ao produzir, um produto
que não se separa do ato de sua produção, na qual o professor, a professora,
são mediadores e promotores do conhecimento, “cozinheiros” que capricham
no tempero da vida para que o sabor da escola, mesmo com tantos
ingredientes picantes, seja o grande espaço de promoção da humanidade.
Mas estamos em tempos de pandemia, de modo que esse caldo está sendo servido frio na mesa de muitos estudantes. Pior, está faltando na mesa de outros tantos. Muitos profissionais da educação estão adoecendo tentando preparar essa “sopa” da melhor forma, mas não conseguem mantê-la “quente” até chegar no prato de cada estudante. O que falta, na verdade, é o “calor” das relações entre os seres humanos promovido singularmente no processo pedagógico. O olho no olho da professora com a criança, da interação do estudante com os outros, a permissão de novos olhares sobre o fazer pedagógico, a quentura que, ainda que queime de vez em quando, é fundamental para a boa alimentação.
O conhecimento dos
tempos pandêmicos, pelas “plataformas virtuais”, pelos intermináveis
formulários, das apostilas impressas, ainda que produzidos com todo o
compromisso e carinho dos professores e professoras, não contém o calor de sua
mediação. Por mais que as apostilas transbordem de intencionalidades, elas não
contêm o calor da cozinha pedagógica, falta-lhes a presença do educador,
da educadora... Falta, nestas atividades, o corpo presente, falante e pensante
de momento, de cada educador, de cada educadora, da interação entre os seres
(todos!). Por isso a sopa tem sido servida sempre fria...
Mas o pior é a
sopa jogada fora, pelo “ralo” das secretarias de educação municipais e
estaduais, as quais em geral têm exigido a intensificação do trabalho cozinha-remoto dos educadores
e educadoras, desconsiderando em muitos casos suas condições individuais, tais como equipamentos tecnológicos
de qualidade, internet de qualidade e formação em ferramentas digitais para cozinhar
a sopa. O fato é que além disso muitos estudantes não tem acesso a sopa (aula virtual, por exemplo), de modo que grande parte desse preparo acaba sendo jogado fora. Em Florianópolis,
a impressão é que a Secretaria, de forma análoga a criança dona da bola no jogo
de futebol, quer ser a atacante, artilheira e juíza, destacando abertamente sua
falta de diálogo profissional (fominha!) e aberto com o Conselho Municipal de Educação (CME),
órgão regulador da possível normatização da reorganização do “menu” pedagógico,
ou melhor, da reorganização curricular e do calendário letivo.
O tal “cardápio” apresentado
pelo CME, ainda que não apresente saídas muito saborosas diante da situação
pandêmica, destaca alguns avanços importantes para as “refeições”
pedagógicas. Daqui a pouco voltamos nisso, primeiro vamos destacar alguns
problemas que precisam de consideração...
Muitos estudantes
não têm internet, mas esse não é o principal problema. Muitos não têm
computador ou celular, mas esse também não é o principal problema. Muitos
sequer têm o que comer neste momento, pois a escola, além de servir a sopa
do conhecimento, também era espaço para alimentação saudável de verdade, sem
analogia. Esse sim, é um problema imenso. Uma grande cozinheira (de verdade) da
escola que trabalho sempre afirmou que “barriga vazia não aprende” e isso é um
fato! Se não considerarmos as condições de moradia de cada família, em especial nos locais em que a pobreza impede qualquer tipo de "isolamento social" ou ainda condição mínima para estudar, é certo que a sopa não chegará na mesa de nossos estudantes.
Talvez alguns
políticos demagogos afirmem que não é papel da escola garantir a comida na mesa
das famílias. Ok, mas durante a pandemia, se as famílias não podem levar seus
filhos para escola é papel do poder público levar alimento até as famílias!
Mais que isso, é dever dos governos de plantão a proteção da vida de cada
cidadão, de cada cidadã! Isso significa que para garantir o isolamento social,
por exemplo, mais que uma quantia na forma de auxílio emergencial, os governos
federal, estadual e municipal deveriam se debruçar para garantir dignidade a
cada um, a cada uma. R$ 600,00 reais não é dignidade! Nem o salário-mínimo hoje
em nosso país não garante a sobrevivência de um cidadão, muito menos de uma
família se considerarmos o que diz a nossa constituição federal.
Mas voltemos a sopa
do conhecimento, afinal esse texto iniciou por isso. Algumas questões ainda
permanecem em nossa “fome imaginária”: Como é que professores e
professoras, pais e familiares, trabalhadores e trabalhadoras podem exigir que
a vida seja preservada em tempos de pandemia? Lembrem-se, já passamos de 100
mil mortos e a curva segue subindo...
As professoras e
professores, cozinheiros da vida em sociedade, devem aceitar que sua sopa
chegue fria ou que nem chegue a muitos lares?
Será que o momento que
vivemos não pode servir para refletirmos talvez, em mudarmos nosso cardápio, ou
seja, cientes que não é possível as aulas presenciais neste momento, nos
preocuparmos mais com docinhos, salgadinhos, sorvetes e chocolates pedagógicos,
promovendo a garantia do vínculo entre educadora e educando? Entre escola e
família? Calma, a sopa é importante, mas podemos voltar nela com mais afinco
quando retornarmos as atividades presenciais, ok? Muito aprendizado pode surgir
dessa interação, mesmo que seja no formato virtual ou impresso (temporariamente
apenas, insisto nisso!). Sem abandonarmos o horizonte que permitirá novamente o
ensino presencial, a manutenção de vínculo pode contribuir para amenizar o
sofrimento de professores, professoras, familiares e estudantes. Talvez essa
seja uma boa “receita” para o momento.
Sou professor do município
de Florianópolis e estou muito convicto que nossa rede tem condição de realizar
melhores “menus” de conhecimento aos nossos estudantes. Mais que isso,
que nós, como cozinheiras e cozinheiros do conhecimento, podemos sim estarmos juntos
e organizados, mesmo que virtualmente, numa grande cozinha virtual, com nossas
colheres e paus de amassar, exigindo que nenhum direito seja retirado, nem das
trabalhadoras e trabalhadores, nem dos estudantes, de todas as esferas da
educação básica.
Temos um instrumento
sindical, o Sintrasem, que está na linha de frente da resistência de nossa luta
em defesa da vida, da dignidade e por nenhum direito a menos.
Temos também neste
momento um instrumento institucional, o CME que na próxima semana aprovará o documento
que certamente impactará na vida profissional da educação e nas futuras sopas
ou demais alimentos do conhecimento que viermos a produzir.
No primeiro cardápio
divulgado, da minuta de resolução do conselho, percebe-se que há uma
preocupação na garantia da sopa, bem como em não retirar direitos, nem dos
estudantes, nem dos profissionais da educação. Mas a sensação ainda é que a
sopa vai ser servida fria, pelo menos durante a pandemia. Também percebo que haverá
uma certa amargura na sopa quando houver condições de retorno presencial, mas as
iniciativas do cozinhar coletivo, das proposições dos educadores e educadoras
da rede, nos debates democráticos em suas unidades educativas e posteriormente
no Sintrasem, podem melhorar a expectativa desse cardápio a ser aprovado pelo
CME na próxima semana.
Vejo com muito
respeito quão exemplar tem sido o trabalho de elaboração dos conselheiros do
CME, inclusive escutando todos os setores, com reuniões abertas demonstrando
compromisso com processos democráticos de decisão... minha análise desse caldo,
leva ao entendimento que nossa categoria tem se sentido anestesiada diante de
tantos ataques... Ver números de mortos e contaminados no jornal diário passou
a fazer parte da rotina, como colocar a mesa do café e chamar a atenção das
crianças que não lavaram as mãos.
Trabalhadores e
trabalhadoras da linha de frente do serviço municipal, estão neste momento
salvando vidas com 3% a menos em seus salários, devido aos desprezíveis
vereadores da base do governo que aprovaram a lei de aumento da alíquota de previdência. Pensem como essa refeição não caiu bem... O corte nos salários também vale para nós da cozinha pedagógica
além de todos os demais setores que estão em trabalho remoto. Na expectativa
velada de amenizar essa contradição o prefeito antecipa o décimo terceiro
salário, num ato de desespero para aumentar o giro da economia municipal e tentar calar
a boca dos servidores e servidoras (não calarão!) que sentirão o impacto da perda de renda
daqui para frente.
Um detalhe: Nossa
profissão é a que melhor dialoga, ouso em dizer, com as aglomerações. É no
movimento dos pequenos ou grandes estudantes, em conjunto, as vezes em dezenas
de pessoas, que promovemos a humanidade pelas interações, pelo confronto de
ideias, pela apresentação da riqueza do conhecimento produzido ao longo da história.
O documento apresentado pelo CME é o momentâneo resultado de uma construção coletiva. Essa construção certamente será enriquecida pela força e combatividade dos representantes das unidades educativas no conselho deliberativo do Sintrasem. Sou um deles e nossa história sindical é prova da força de nossa categoria em momentos decisivos, e não será diferente na reconstrução da pauta pedagógica para escolas e NEIMs. Relembrando Gilberto Gil, "andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá (sic)", ou seja, buscaremos um acolhimento mais “quente” tanto para o paladar dos profissionais, como para
todos os estudantes, da Educação Infantil, da Educação Especial, do Ensino
Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos.
Na verdade, quando
retornarmos as atividades presenciais precisaremos de outro prato, que não seja
apenas a sopa. Talvez com a robustez e simplicidade do arroz com feijão,
salada, proteínas variadas e muito tempero, consigamos recuperar com muito
sabor, a quentura do processo educativo, a alegria de ensinar, mas também a
vontade de aprender.
Valorizar a ciência,
a arte e a filosofia nos dias de hoje, é um verdadeiro ato revolucionário. Que
a ideologia dominante não impere e que as alterações desta resolução sejam para
beneficiar a todos e todas, sem corporativismo, garantindo uma necessária “alimentação”
de conhecimento para os estudantes, manutenção e ampliação da qualidade da
educação, nenhum direito a menos e nenhum dever a mais para os profissionais da
educação.
Seguimos.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Moacir Pereira, a velha cortina de fumaça e o real confisco no salário do serviço público municipal de Florianópolis.
Circulou nas redes sociais e nos jornais impressos,
no dia de hoje, um artigo do ex-desembargador, ex-NSC/Globo/Diário Catarinense, atualmente colunista na Record, Moacir Pereira, criticando a política de
combate a pandemia, em especial sobre a educação pública. De forma
despudorada, cínica e em flagrante “cara de pau” o senhor Moacir citou os “diretores”
de escolas privadas (o termo correto não seria “Donos da escola”?) que afirmam
ter “constatado” que os professores da escola pública estão “acomodados”, por
isso não criam “opções por aulas presenciais”.
É evidente que o tal artigo de opinião é uma
afronta a educação pública, em especial porque é uma grande mentira. Uma
pesquisa rápida no site da Secretaria Estadual de Educação, ou da Secretaria
Municipal de Educação de Florianópolis já nos serve, com inúmeros registros e, portanto,
sólidos argumentos, para refutar essa fala tendenciosa, mesquinha e
definitivamente falsa. Simples assim.
Mas por que uma fala como essa circulando nos
grupos dos servidores municipais de Florianópolis neste momento? Você servidor,
você servidora, sabe o que de fato aconteceu no dia de hoje que realmente importa
e impactará em sua vida profissional daqui em diante?
O secretário municipal de educação soltou uma
nota respondendo ao Moacir de forma objetiva e serena, sem grandes alardes, mas
defendendo a educação pública, afinal ele é o secretário. Mas o que ele e os
demais secretários têm feito para realmente defender a educação e o serviço
público municipal de Florianópolis? Sim, é uma pergunta retórica e está aqui
apenas para citar a triste constatação de que a partir de hoje nossa educação,
nossa saúde, nossa assistência social, enfim, nosso serviço público municipal
de Florianópolis perde qualidade...
As trabalhadoras e trabalhadores que tem atuado
na linha de frente nas UPAs, Centros de Saúde e CRAS, além dos que estão em
trabalho remoto como no exemplo da educação, confortando as famílias de Florianópolis para que
mantenham vínculo com a escola, respeitem o isolamento social, valorizem a
ciência e protejam suas vidas, agora o farão recebendo 3% a menos de seus
salários!
Em meio a pandemia, a proposta do governo
federal de “passar a boiada” segue também no município de Florianópolis, mas vem com uma cortina de fumaça de Moacir Pereira, junto com a raspa do tacho de jornalistas
desprezíveis, como Alexandre Garcia, Luiz Carlos Prates etc. É pessoal, a "granada explodiu em nossos bolsos" ou melhor, em nossos salários.
Que bom que houve reações da categoria para
responder a opinião estapafúrdia do Moacir, como o exemplo da nota do coletivo
de diretores das escolas do município. Mas e nossa reação ao confisco salarial?
Muitas unidades de saúde e assistência social pararam os serviços após às
15:30, quando nossa organização sindical convocou a categoria para ação contra
a votação do PL 1812, na câmara de vereadores. Algumas unidades educativas que tinham reuniões hoje, além de formações da Secretaria municipal, também foram interrompidas pelos trabalhadores para que nos organizássemos em resistência. Sim, perdemos essa batalha, a
votação foi um escárnio, tal qual a política hipócrita do governo Gean e seus
subalternos correligionários. Mas a luta não acabou e cobraremos nas ruas e nas
urnas, de todos os inimigos do serviço municipal, de colunistas de jornal de
quinta categoria à necropolíticos como
vereadores da base do prefeito e o próprio, já amplamente considerado o pior que
a cidade já teve.
Moacir Pereira pode falar as abobrinhas que
quiser, mas o fato é que ele não paga meu salário, diferente do prefeito e o
próprio secretário de educação, que cortaram nosso vale alimentação em março, em
julho e agora arrematam com o confisco da previdência de mais 3% do nosso salário.
Um confisco que acoberta a parte patronal que não vem sendo paga
corretamente, mas sim através de parcelamentos a perder de vista, desde as gestões
anteriores e, de forma mais absurda, a partir do pacotão do Gean de 2017.
Enfim, a luta continua e não é, nem será em
vão! A partir de 01 de janeiro de 2021 este hipócrita governo acabará e além da
cortina de fumaça existe a esperança de dias melhores. A chuva de hoje será o
nascer do sol e da vida de amanhã. As sementes têm sido cultivadas e por certo os
girassóis vencerão as ervas daninhas... No meio ambiente, nas câmaras de
vereadores, nos gabinetes de prefeitos...
Viva a Resistência!






