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terça-feira, 23 de março de 2021

É GREVE! PELA VIDA!


    Boa noite, pessoal! Após vários adiamentos, amanhã iniciamos mais uma greve em nossa categoria. Contudo, diferente de tudo que já experienciamos até hoje, não será uma greve por reajuste salarial ou para manter nossos direitos trabalhistas... Pela primeira vez na história de nosso sindicato e na história de muitos outros sindicatos mundo a fora, aprovamos uma greve para continuarmos vivos! Isso mesmo, a greve pela vida é, de fato, para que cada estudante, cada familiar responsável, cada trabalhador e trabalhadora da educação não coloque sua vida em risco, uma vez que nosso trabalho no magistério é, em resumo, de aglomeração diária. Negar isso é negar o próprio processo pedagógico.
    Não é uma greve para defender o trabalho remoto. Até porque o trabalho que vem sendo realizado, com todo o compromisso e exaustão de nossos educadores e educadoras não é o ideal de educação que defendemos. Defendemos o ENSINO PRESENCIAL. Mas o mesmo só pode voltar a acontecer com condições reais de segurança e controle da pandemia! 
    Repito, não é greve para trabalharmos remotamente. É greve para garantirmos nossas vidas e a dos demais envolvidos no processo pedagógico. O direito a vida é o essencial. Enquanto o Gean, Moisés e Bolsonaro seguem com palavras diferentes para concretizar na prática a mesma política genocida, nós trabalhadoras e trabalhadores do serviço público municipal de Florianópolis, com o início da greve a partir de amanhã, estamos reafirmando nosso papel na luta de classes!
    O mapa de nosso sindicato indica que apenas 5 das 120 unidades educativas vão retornar amanhã. A prefeitura de forma sorrateira, após a aprovação de nossa greve na última assembleia da categoria, saiu ligando para algumas unidades educativas sugerindo que trocassem a data de início do ensino híbrido para o dia 05 de abril. Se o objetivo foi enfraquecer nosso movimento, o fato é que só aumentou nossa indignação, além de comprovar que a própria secretaria municipal de educação não quer forçar tanto o retorno porque sabe que muitas unidades educativas não têm sequer condição estrutural para abrirem as portas.
    Estamos numa encruzilhada. De um lado o descaso plantado pela secretaria, com a narrativa de que não vale a pena entrar em greve porque a maior parte das escolas e neims só retornarão em abril; do outro lado a realidade do risco de vida para as/os profissionais, estudantes e familiares das 5 unidades educativas que abrirão as portas amanhã... Como profissional da educação é nosso dever antever o cenário que se aproxima.
    Assim como no poema “Intertexto” (1) de Brecht , se não fizermos nada antes do retorno dessas cinco unidades, depois será tarde, pois não teremos legitimidade para defendermos uns aos outros. Agora é greve! Vamos parar os trabalhos para não morrermos trabalhando.
    Enfim, queremos viver! Estamos vivendo o momento mais derradeiro de nossas vidas. A catástrofe já é real em nossas UPAs e Hospitais. Seremos mais um número na lista de espera para UTI que segue lotada, ou reafirmaremos nosso protagonismo dizendo não ao trabalho sem condição sanitária e segura?
    Nossas companheiras e companheiros da Saúde estão exauridos diante do colapso do sistema. Com o retorno das aulas presenciais toda uma cadeia produtiva volta a rodar, com aglomeração não apenas na escola, mas no transporte público, na porta da escola, no trânsito, e, consequentemente, no próprio sistema de saúde que terá ainda mais pessoas com necessidade de tratamento.
    É pela vacina para toda população, é pelo auxílio emergencial até o fim da pandemia, é pelo direito a vida de toda classe trabalhadora e dos filhos e filhas da classe trabalhadora!
    Nossa categoria decidiu: É GREVE! Cabe agora a cada um e cada uma tomar posição e assumir seu protagonismo na história! É tempo de resistência e só o nosso cruzar de braços, unidos, pode abrir a chance de seguirmos o trabalho tal como está, com as escolas e neims fechados até o fim da pandemia. A máxima “o ensino se recupera, vidas não” nunca fez tanto sentido quanto o momento atual.
    É momento de colocarmos nossa criatividade em prática, propor saídas para fortalecer a mobilização, para ocupar os espaços virtuais, para construir um caminho que priorize a vida e não o interesse dos agentes da morte, que preferem estar em Cancun de férias quando seu povo lota as UTIs... É tempo de resistência, pela vida! Retorno só com vacina!

Sempre na luta.

Marcos Canguru – Resistência Florianópolis e Coletivo Travessia.


Abaixo o Poema para ficar no registro do Blog:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht.

sábado, 7 de novembro de 2020

DONÍCIA 100% CONTRA A FARSA DA PROPAGANDA DO GEAN!

 

Professor Marcos Canguru

ARQUIVO PESSOAL

Circulou nos últimos dias uma propaganda do atual candidato a reeleição para prefeitura de Florianópolis, Gean, trazendo como mérito seu o atual estado de conservação da Escola Básica Municipal Donícia Maria da Costa, situada no bairro Saco Grande. Mas quem mora na comunidade e é estudante ou familiar de algum ou alguma estudante sabe que a mentira tem perna curta assim como a credibilidade do atual prefeito.

 

Um pouco do contexto

O atual prédio da EBM Donícia Maria da Costa tem cerca de vinte anos e foi construído para atender duas demandas: 1º atender a comunidade que já lutava pela ampliação da escola situada anteriormente onde hoje é o NEIM Barreira do Janga; 2º atender a recém formada comunidade da Vila Cachoeira, a qual veio com a promessa de uma escola para comunidade, mas que se deparou com uma escola já existente, com muitos estudantes, que apenas foram transferidos do prédio antigo para o novo.

A inauguração do prédio novo foi fruto do Governo Angela Amin, porém a obra foi tão mal feita que em poucos anos de funcionamento da “nova” escola precisou ter seus alicerces reconstruídos, pois estava cedendo. Isso ocorreu já no governo Dário Berger, o qual, para acalmar os ânimos do problema, prometeu construir uma quadra coberta na unidade, o que não cumpriu.

Na última década nossa escola passou por profundas transformações, em especial pelo adensamento da população que amenizou seus conflitos comunitários. Mais que isso, aprendeu a se organizar e lutar pelo melhor da comunidade. Nessa luta, com contribuição fundamental do Conselho de Moradores do Saco Grande (COMOSG), muito se avançou desde então, não a partir de favores espúrios com a gestão da prefeitura de plantão, mas com luta comunitária organizada.

Nesse processo a gestão mudança coletiva foi eleita para dirigir a escola em novembro de 2013 e permanece até os dias atuais. Desde então podemos afirmar com mais propriedade o quanto avançamos. Em 2014, debaixo de muita luta, manifestação nas redes sociais e protesto organizados pela comunidade, em especial por alguns familiares e estudantes da EJA, conquistamos a quadra coberta. Um projeto que não atende a necessidade da escola que era a de construir um ginásio. Porém, a comunidade avaliou que retornar toda a burocracia faria demorar ainda mais para obra sair, por isso aceitou o projeto que apesar das críticas, foi colocado em prática.

Nos anos seguintes de 2015, 2016 e 2017, antes do governo Gean, com muita luta conquistamos uma sala informatizada nova, um laboratório de ciências novo, uma sala nova para o projeto mais educação, além do principal, que foi o recurso humano! Tanto profissionais que se efetivaram, como outros substitutos que todo ano escolhem nossa escola para continuar trabalhando foram moldando a identidade doniciana!

Como temos uma comunidade rotativa, com muitas pessoas dos mais variados lugares do Brasil que almejam uma vida melhor em nossa cidade e acabam por ancorar-se em nossa região, a identidade de nossa escola foi se construindo a partir dessa diversidade, do acolhimento, do respeito a cada um e cada uma, bem como uma forte crítica e luta contra todo tipo de opressão. O ápice desse momento foi a comemoração de 30 anos da escola, em 2018, quando consagrou-se esse espírito coletivo que vem florindo inclusive em outros jardins desde então, tanto pelos familiares que seguiram suas lutas por sobrevivência em outros lugares, como pelos profissionais que foram para outras unidades mas fazem sempre questão de lembrar e, de certo modo, reproduzir ensinamentos e práticas construídas em solo doniciano.

A luta histórica da comunidade, desde pelo menos 2015, foi pela ampliação da escola, com um projeto que ampliaria o número de salas, garantiria uma sala multimeios com espaço satisfatório, uma cozinha ampliada, com deposito de alimentos atendendo as medidas sanitárias de conservação, além de um depósito de limpeza com vestiário para os profissionais da limpeza, cozinha e demais que necessitam de ambiente para troca de roupas, banho etc. O projeto da ampliação foi assinado como promessa pelo então governo Cesar Souza, mas não saiu do papel.

 

A EBM Donícia sob o atual Governo Gean

O governo Gean logo que assumiu, além de atacar os servidores públicos com um pacote de medidas de retirada de direitos, ainda sucateou a Secretaria Municipal de Educação que demorou para funcionar minimamente. Com a desculpa que não havia licitação, seu primeiro ano de gestão foi marcado pela falta de alimentos na escola, falta de material pedagógico, além de pouquíssimas manutenções.

Quando nossa comunidade se organizou e ameaçou fechar a cozinha da escola pela condição insalubre e risco de vida iminente pelo fogão em péssimas condições que lá estava, o governo Gean trouxe um novo fogão que nem de perto resolveu o problema, porém minimizou os riscos. A comunidade então comprou um fogão com recurso do PDDE (verba federal que vem para escola) e só então a prefeitura, para não ficar ainda mais desmoralizada, construiu uma “casinha” externa para proteger os botijões de gás, além de refazer a instalação de gás.

A promessa de ampliação permaneceu no papel, porém o secretário de educação, junto com sua comitiva se fez presente em uma reunião do conselho deliberativo escolar, na qual foi recebido com o conjunto de reivindicações que já estavam em sua caixa de e-mails desde o início de sua gestão. O modo Gean de governar se deparou com uma comunidade que não bate palminhas para promessas, mas que efetivamente é engajada na luta pela melhoria da escola. O secretário chegou a afirmar estar se sentindo ameaçado durante a reunião, quando na verdade o estávamos confrontando com inteligência, no campo das ideias, reivindicando direitos da comunidade. Após essa reunião nosso conselho pegou os contatos de empresas contratadas pela prefeitura para reforma da escola e com muita cobrança e insistência conquistamos algumas melhorias, como a troca do gradeamento do muro da escola, troca dos corrimãos e instalação de outros corrimãos em mais locais da escola, instalação de um sistema preventivo de incêndio, reforma em muro que estava rachado, além da construção de um telhado improvisado para o espaço de lavação (tanque) da equipe de limpeza. Por fim, também conquistamos a pintura da escola, a qual ocorreu sob vários problemas e improvisações. Houve ainda outras pequenas reformas solicitadas pela comunidade e que também só saíram com muita luta e cobrança constante, como uma janela na sala do xerox, outra na frente da escola, junto com uma pavimentação e criação de mais uma sala no segundo andar prédio.

Nossa escola está sim bem linda, mas não estaria não fosse à luta da comunidade. O que efetivamente temos necessidade é sua ampliação, não uma propaganda enganosa que aproveitou uma escola boa para apenas pintá-la e “vende-la” como nova!

 Aos moradores, profissionais e estudantes que conhecem a escola, vivem e sentem a comunidade, suas angústias e perspectivas, fica a revolta, mas também a certeza que seguiremos lutando. Os ventos da mudança apontam no horizonte, também fruto dessa construção coletiva, algo que o atual prefeito desconhece e tanto ignora.

O pertencimento doniciano, portanto, se fez e se faz no olho no olho, no cuidado cotidiano com cada vida que adentra pelos portões de nossa unidade. Com o respeito ao pluralismo das ideias e no chão da realidade concreta, não nas promessas descumpridas pela atual gestão do Governo Gean, a qual está imersa de denúncias de corrupção, má gestão do recurso público e até estupro.

Nossa escola, nossa comunidade, nossa cidade, merece respeito! Seguiremos na luta, como sempre tivemos, inclusive para desmascarar propagandas que distorcem a realidade e objetivam perpetuar no poder quem sequer tem credibilidade e ética com o serviço público.

A palavra de ordem, construída no seio de nossa escola, foi, é e seguirá sendo, Donícia 100%! Seguimos florindo, tal qual o lindo Ipê amarelo, marca do amor e da esperança de nossa escola.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Quando a palavra autonomia vira sinônimo de “se virem” na educação em Santa Catarina.

 

Marcos Canguru. Resistência Florianópolis.

Uma semana movimentada nos diálogos sobre o retorno às aulas no estado está chegando ao fim escancarando a velha política e o descaso com a vida de estudantes da rede pública estadual e, em especial, da rede municipal de Florianópolis.

Foto da Capa do Documento Publicado pela Prefeitura de Florianópolis.

O Governo Moisés, cedendo as pressões dos tubarões da educação privada [1] na esperança de não ser impedido pela assembleia legislativa, publicou a portaria 778, a qual muda a regra para o retorno as aulas presenciais, considerando possível retornar com apoio pedagógico no nível “grave” de contágio da COVID-19 e retornar com força total no nível “alto”. É visível para esse desgoverno eleito na onda bolsonarista que a permanência na cadeira de governador é mais importante que a vida das comunidades educativas do estado.

Vale o destaque para o fato que as unidades educativas em todo o estado foram fechadas na segunda metade de março quando sequer havia caso confirmado entre estudantes das redes de ensino. Vale lembrar também que em março a ganância politiqueira ainda não estava em jogo, ou seja, não havia processo de impeachment oficializado contra o Governador e os Prefeitos em geral estavam mais preocupados em seguir o exemplo da Europa com o isolamento social, preparando o terreno para futuras eleições municipais.

Pois bem, nessa correlação de forças chegamos ao momento atual, no qual temos quase 23 mil pessoas contaminadas e quase 3 mil mortes em Santa Catarina. A semana que termina ainda registrou um aumento no número de casos ativos nas regiões da Grande Florianópolis e do Alto Uruguai catarinense em relação a semana passada[2].

Mas nada disso serviu de base para que o governo do estado que agora flexibiliza as regras de retorno as aulas e joga para população a decisão de enviar ou não seus filhos e filhas para escola. Na portaria publicada, vemos um verdadeiro atestado de risco de vida a ser “contratado” pelas famílias responsáveis pelos estudantes, ou seja, “Os responsáveis legais do estudante podem optar pela continuidade no regime de atividades não presenciais, mediante a assinatura de termo de responsabilidade junto à instituição de ensino na qual o estudante está matriculado.”[3]

Antes da pandemia não cabia as famílias dos estudantes de 4 a 17 anos a decisão de mandar ou não seus filhos para escola, sendo inclusive denunciados ao conselho tutelar quando a ocorrência de faltas sem justificativas ultrapasse cinco dias consecutivos. Agora o governo estadual e o municipal jogam nas costas das famílias a “opção” de colocarem vidas em risco, numa total incoerência sobre o papel do estado. As leis não podem ser produzidas pela conveniência do momento para os governos de plantão, mas sim para garantir permanentemente a vida digna da sociedade!

Não bastasse tamanho desprezo e falta de responsabilidade do estado em cumprir sua função de assegurar segurança sanitária para toda população, o governo municipal de Florianópolis, preocupado com a eleição, “optou” por lavar as mãos em relação a situação, jogando para cada diretor e diretora das unidades educativas a decisão de reabrirem ou não para o retorno.

Logo após uma assembleia vitoriosa da categoria, com participação massiva e decisão de mais de 90% pelo não retorno das aulas municipais em Florianópolis, o comitê municipal divulgou sua posição jogando para cada escola decidir seu futuro, referendando uma falsa ideia de que há segurança para o retorno.

Usando de clara má fé com o uso da palavra “autonomia”, o governo Gean determinou um grande “se virem” para que as escolas façam o papel de lavar a roupa suja e resistir ou ceder as pressões para o retorno. A própria LDBEN, lei máxima da educação nacional, estabelece que cabe aos sistemas de ensino assegurar progressivos graus de autonomia pedagógica[4]. Ou seja, é papel do Conselho Municipal de Educação, agente institucional regulador do Sistema Municipal de Ensino estabelecer esse “grau de autonomia”. O termo “grau de autonomia” é horrível sem dúvida, mas neste momento serve para afirmar que não significa “se virem” em relação ao risco das vidas escolares sem o devido controle da pandemia.


    Só há um caminho: A LUTA!

Em verdade, os sinônimos da palavra “autonomia” são independência, liberdade, autogoverno, autossuficiência, emancipação e soberania[5].

Nesse sentido as unidades educativas precisam lutar por independência política frente a governos e patrões que tem precarizado a educação pública!

Lutamos a cada dia, nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, ainda que o Governo Gean não considere esse artigo da LDBEN[6].

Nossa luta é por um autogoverno na esfera federal, estadual e municipal dos trabalhadores, no qual a garantia de uma educação pública e de qualidade não seja mera frase de campanha política durante a eleição, mas que efetivamente se concretize, valorizando os profissionais da educação em todas as dimensões, bem como fortalecendo políticas públicas para o estabelecimento de relações humanas de igualdade. Somente assim teremos uma escola e uma sociedade autossuficiente, emancipada e soberana, para além dos limites civilizatórios capital.

A política suja do “se virem” não serve e nem servirá para as comunidades escolares que efetivamente zelam pela VIDA. Seguir em resistência é o que nos resta, ombro a ombro com todo o serviço municipal e em #GREVEpelaVIDA se for preciso.



[1] https://esquerdaonline.com.br/colunistas/tubaroes-da-educacao/

[2] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2020/10/08/sc-tem-12-regioes-em-situacao-grave-para-covid-19-aponta-matriz-de-risco.ghtml

[3] https://www.sc.gov.br/images/Portaria_Conjunta_SES_SED_778_-_retorno_das_atividades_escolares.pdf

[4] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

[5] https://www.sinonimos.com.br/autonomia

[6] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

E se Paulo Freire fosse Professor da Rede Municipal de Florianópolis nesse tempo de Pandemia?

Por Marcos Canguru.

❓   ❓   ❓

Fonte da Imagem: Revista Educação

Todos falam em Paulo Freire, alguns poucos de forma contrária e muitos outros reivindicam seu legado, interpretando de tantas formas sua obra que por certo esse grande expoente da educação brasileira pode estar sendo vítima de falsários, demagogos e outros adjetivos não possíveis de explicitar para não perdermos nossa posição de professor-educador. Mas, se tantos o usam, imagine só se ele estivesse vivo, contratado como professor substituto na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis? Aos curiosos e curiosas, segue mais uma crônica da vida real. Qualquer semelhança não será mera coincidência...

As relações homens-mundo na educação municipal

Estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no ato em defesa da educação – Agosto de 2019

Pois bem, estamos em 2019, e Paulo Freire, com todo acúmulo que tem, resolveu fazer concurso público para professor em Florianópolis, utilizando-se para tal de vários diplomas de Doutor Honoris Causa em educação ganhos nas mais variadas universidades mundo afora. Obviamente que ele passou e resolveu sair do bairro de Casa Amarela, no Recife, para instalar-se no bairro Chico Mendes, em Florianópolis. Percebeu que o edital de chamamento dos concursados possuía equívocos primários, como o cálculo para dar conta dos prazos legais, deixando os aprovados sem possibilidade de assumirem logo no início do ano letivo.

Mas tudo bem, dialógico como é, Paulo se inscreveu no processo seletivo para ACT, o famoso substituto, para não ficar desempregado até que fosse chamado no concurso de efetivação. Não que ele precisasse disso economicamente, mas queria de fato se familiarizar com os círculos de cultura que permeiam a categoria profissional da educação de Florianópolis. Escolheu uma vaga de substituto com prazo término no início de maio, na expectativa de ser chamado até a data. Ledo engano...

A primeira lição que Paulo teve, quando começou a circular na rede de educação de Florianópolis em 2020, é que a secretaria municipal de educação (SME) utiliza muito de suas “frases de efeito” para capitular posições de legitimidade com os professores em geral, mas não traduz a intencionalidade destas frases em sua prática de gestão. Paulo percebeu o pouco compromisso com a transparência por parte da governo, algo completamente diferente do que foi sua gestão como Secretário de Educação da cidade de São Paulo, décadas antes, durante o belíssimo governo Erundina. 

A segunda lição, foi quando Paulo recebeu um panfleto do sindicato, o SINTRASEM, chamando para uma assembleia de todo o serviço municipal, ainda em fevereiro. Paulo ficou admirado com a assembleia, pois percebeu que além do pessoal da educação havia representação de todos os setores do serviço municipal de Florianópolis. Ficou esperançoso ao perceber a qualidade dos debates e embates dos servidores e servidoras municipais, respeitando o processo democrático-participativo e vivendo, na prática social, muitos dos seus ensinamentos.

Apesar de alegre com essa organização, Paulo ficou indignado com a quantidade de escolas e núcleos de educação infantil precários na cidade, enquanto o secretário verbalizava estar atendendo a todos os problemas da educação. Paulo pensou consigo mesmo: um texto sem um contexto gera um pretexto... um discurso da prefeitura, sem materialidade no real, só serve para enganar a população...

Quando Paulo teve acesso ao seu contracheque a pedagogia da indignação ganhou forma. Ele recebeu um salário correspondente como título de doutor, mas seus pares, que só possuíam graduação, receberam um valor abaixo da lei do piso nacional do magistério. Paulo entrou em contato com o Sintrasem e foi esclarecido que essa luta é antiga, já há bastante tempo luta-se para que o piso seja pago de forma proporcional para toda a categoria, mas o governo Gean conseguiu piorar isso, não pagando a lei do piso nem para o graduado em início de tabela.

Mas Paulo sempre foi um otimista, de modo que as situações problemas identificados poderiam sim tornarem-se inéditos viáveis desde que todos valorizassem a educação pública de fato, para além de discursos vagos. Alguns desses inéditos viáveis ganharam forma com a aprovação da pauta de reivindicações da data-base em assembleia por todo serviço municipal, deliberada democraticamente e com grande representatividade da base.

Nas reuniões de sua escola, na comunidade Chico Mendes, Paulo vislumbrou outros inéditos viáveis, e através de uma pedagogia da esperança, observou o cuidado de seus companheiros e companheiras de trabalho com os estudantes, seus modos de vida, suas condições de oprimidos. Isso permitiu que ele se visse num tempo que passou, lá em Angicos[1], quando ensinou adultos a lerem num curto espaço de tempo.

No seu trabalho em Florianópolis Paulo pode retomar seu método, compartilhando e sendo ouvido pelos seus pares, mas de forma crítica e consciente, alicerçada no movimento do real, sem idolatria. Todos sabiam que ele só ficaria na escola até maio, depois assumiria como efetivo.

 O advento da pandemia e seus impactos na educação como prática da liberdade


Fonte da Imagem: Nova Escola

Desde o dia 16 de março a educação no município de Florianópolis está suspensa, permanecendo ativa apenas no formato virtual, pela plataforma paga da Google, ou impressa, tendo o familiar a responsabilidade de buscar as atividades na escola.

Essa suspensão foi acertada, porém trouxe muitas dúvidas para todos, inclusive para Paulo. Sempre coerente na valorização dos saberes, em especial o científico, ele seguiu as instruções e se colocou a pensar sobre que formas poderiam ser elaboradas para que a educação não ficasse a mercê do isolamento social, mas assumisse um papel ativo e protagonista, como é de sua natureza para transformação da sociedade.

A liberdade autoral dos profissionais foi uma primeira preocupação de Paulo, que buscou dialogar com setores da secretaria de educação, mas não obteve retorno. Em seguida ele soube que algumas cidades de Santa Catarina, como Joinville e Blumenau, aprovaram resoluções em seus conselhos municipais sobre a educação durante a pandemia, mas sem qualquer diálogo democrático com os atores da educação, como profissionais, estudantes e responsáveis. Foi então que recorreu ao Conselho Municipal de Educação de Florianópolis (CME), onde lhe foi sugerido participar de uma das reuniões que estavam sendo elaboradas com toda a sociedade sobre o tema.

Paulo, consciente que o diálogo começa na busca do conteúdo programático, identificou os limites do CME, pois dentro dele havia tanto representantes dos oprimidos, como também dos opressores. Não criou ilusão e buscou acompanhar mais de perto os encaminhamentos de sua unidade educativa, bem como de toda sua categoria por meio do Sintrasem.

Nesse caminhar Paulo se deparou com a angústia dos profissionais que assim como ele, poderiam perder seus empregos temporários por não haver qualquer política pública de proteção nesse momento. Mas se indignou quando viu a SME e o próprio prefeito usando a angústia dos trabalhadores como moeda de troca para aprovação de uma lei que manteria alguns profissionais empregados (não todos), mas sem qualquer diálogo democrático-participativo com a sociedade.

A indignação não foi maior porque de fato os profissionais contratados nas ditas “classes vagas”, ou seja, que não havia já um professor titular na vaga, permanecem empregados durante a pandemia. Mas não era o caso dele. Paulo assumiu uma vaga no lugar de um profissional que havia entrado em “licença prêmio”, um direito do magistério municipal coerente e necessário, haja vista que os trabalhadores do serviço público não possuem fundo de garantia (FGTS), por isso quando saem o que recebem é apenas o referente a conquista destas licenças, como prêmio por cinco anos de trabalho ininterruptos, servindo a população de Florianópolis. O detalhe é que esse direito também vem sendo retirado e sua forma de benefício já não é a mesma devido a ingerência do governo Gean.

O contrato dele terminou antes da primeira quinzena de maio. Foi um escândalo mundo a fora... Jornais noticiavam: “Educador Paulo Freire é mais um número na estatística de desempregados”; “Cidade escolhida por Paulo Freire para desenvolver seu trabalho o trata com desprezo e encerra seu contrato de professor durante a pandemia”; “O patrono da educação brasileira é desvalorizado em seu próprio país! Florianópolis deixa de ser o exemplo de educação de qualidade ao demitir profissionais durante a pandemia”.

Com tantos holofotes mundiais para Florianópolis o prefeito e o secretário tentaram justificar o injustificável. Tentaram defender o indefensável. Desesperados, chamaram Paulo no gabinete da SME e lhe ofereceram uma vaga em outra unidade educativa, com a condição de que ele valorizasse a gestão municipal atual e abafasse as críticas mundiais.

Paulo se viu em situação parecida como contada no livro medo e ousadia. Se ele aceitasse, teria seu emprego de volta, mas renunciaria a sua prática social. Se ele negasse, continuaria sendo pressionado como figura pública e talvez isso fosse bastante arriscado, dada a sua idade avançada, quase centenária, ainda que em qualificada atividade.

Mas a verdade é que Paulo nem pensou duas vezes, disse não a proposta e exigiu que todos os profissionais desempregados deveriam ter seus contratos renovados até o fim da pandemia, pois com as escolas fechadas não há condições de sobreviver como professor.

Paulo reviveu o sentido da educação como prática da liberdade, solicitando que sua obra não fosse mais utilizada nos materiais da SME, muito menos nos discursos do secretário, uma vez que não condiziam com a prática política dirigida a educação municipal. Mas se manteve aberto para o diálogo, entendendo que só dessa forma poderia haver mudanças no cenário que avançava.

Ao ser questionado por um jornal local sobre o porquê preferiu ficar desempregado, Paulo respondeu que não era esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico[2].

 Ao mesmo tempo que lidava com essa pressão política, Paulo estava muito mais preocupado com a condição dos oprimidos da cidade, em especial pelo agravamento com o advento da pandemia. Muitos de seus pares da rede municipal debatiam formas de fazer chegar à educação para todos os estudantes enquanto Paulo se perguntava: Mas em qual condição estão nossos estudantes? Tem onde morar de forma segura para o isolamento social? Tem o que comer? Tem condições de aproveitar o tempo para ler o material pedagógico sem interrupções advindas de sua condição de oprimido? Sua conclusão foi a mesma da maioria dos educadores e educadoras do mundo: O mais importante é a VIDA! O ensino se recupera, vidas não.

Independente de ficar sem o contrato de trabalho, Paulo seguiu dedicando sua prática dialógica à luta dos oprimidos por condições de existência, aproveitando sua imagem para realização de uma solidariedade de classe ativa, crítica e consciente. Militantes sindicais aproveitaram suas propostas e deram eco as ideias, que repercutiram tanto pelo Sintrasem, como furaram as bolhas de controle das famílias e estudantes das unidades educativas municipais.

O sindicato organizou um questionário que deu elementos concretos acerca das condições da população não apenas sobre o acesso as atividades não presenciais, mas sobre as condições de vida desses estudantes e suas famílias. Com isso muitos inéditos viáveis emergiram e temas geradores passaram da simples ideia de atividades interdisciplinares, para de fato propostas que instrumentalizaram os estudantes no sentido de lerem não apenas as palavras, mas o mundo que os cercam.

Paulo seguiu refletindo o momento da pandemia com aproximações ao período da ditadura, quando a direita além de concentrar o poder, agia de modo a calar todos os seus opositores. Percebeu, de fato, muitas semelhanças com seu momento de exílio, o que permitiu identificar a relação do governo dito democrático de Florianópolis na figura de Gean e o autoritarismo do governo Bolsonaro.

Seguindo nas trincheiras junto com os oprimidos, Paulo seguiu dando exemplo em suas ações, particularmente no sentido de sua tolerância para elevar a consciência crítica presente entre seus pares, e sua combatividade contra os opressores. Questionado sobre sua tolerância por um grupo da vanguarda do serviço municipal de Florianópolis, Paulo respondeu que a tolerância deve ser “a virtude revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa melhor lutar contra os antagônicos”[3], no caso, contra o governo Gean, Moisés e Bolsonaro.

A pedagogia da indignação, da autonomia e da esperança para fortalecer os oprimidos

 


Fonte da Imagem: Fundação Getúlio Vargas

A política genocida do governo Bolsonaro, aliada a política demagógica dos governos estaduais e municipais foi de grande impacto na saúde de Paulo, que, em Florianópolis, ficou em crise se deveria voltar para o Nordeste, onde a presença do estado na forma de políticas sociais é infinitamente menor que no sul maravilha.

Ele estava certo no seu papel atuante enquanto intelectual orgânico a serviço da classe trabalhadora, mas para que Florianópolis continuasse sua luta em defesa de toda a população, dos serviços públicos e principalmente em defesa da vida, ele fez a seguinte afirmação:

- Estou voltando para o Recife, mas peço que não percam a esperança! Não deixem que o medo do difícil os paralisem![4] A intolerância, a negação das diferenças precisa ser combatida! É chegado o momento de uma política radical, jamais, porém, sectária, buscando a unidade na diversidade das forças progressistas, para lutar por uma democracia capaz de fazer frente ao poder e à virulência da direita[5].

Para Paulo, a esperança segue nos corações e no pensamento das lutadoras e lutadores do serviço público municipal. As trabalhadoras e trabalhadores tem o direito e o dever de mudar o mundo.

Deixou como tarefa, para todas e todos que dele tiveram algum contato durante sua jornada em Florianópolis, para que não deixem adormecer sua curiosidade. Ao contrário, sigam aguçando-a, como exercício de resistência a uma possível retirada de direitos e liberdades democráticas.

Aguçar a curiosidade, para Paulo, é defender a escola pública, pois permite ampliar o horizonte da curiosidade social e individual[6].

A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, faz parte integrante, repitamos, do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (PAULO FREIRE, p.48, 2000).

Suas palavras são mais atuais que nunca e se renovam a cada avanço dos oprimidos na luta para deixarem de sê-lo. Sobre o momento de “educação não presencial”, Paulo refletiu sobre a tecnologia, afirmando que “a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa[7].

Enquanto embarcava para sua terra natal, Paulo ainda foi questionado sobre o plano da prefeitura de usar a televisão, via TVCâmara como mais uma possibilidade de estudo durante a pandemia. Sem muitas delongas afirmou categoricamente que “não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. [...] a postura crítica e desperta nos momentos necessários [como a pandemia] não pode faltar[8]. Em outras palavras, jamais uma educação bancária servirá para atender as necessidades dos oprimidos. No máximo, servirá para manter a sociedade desigual que vivemos.

O Nordeste recebe seu expoente de braços abertos, enquanto as lutadoras e lutadores do serviço público municipal, aqui da ilha da magia, seguem na luta em defesa da vida, do serviço público e com o esperançar freiriano como mais um dos referenciais de consciência de classe.

 



[1] Cidade do Rio Grande do Norte

[2] Trecho do Livro Pedagogia da Esperança.

[3] Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[4] Trecho extraído do livro Pedagogia da Autonomia, 1996.

[5] Trechos extraídos do livro Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[6] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.47, 2000.

[7] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.48, 2000.

[8] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.50, 2000. 





quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Dilemas na cozinha pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis.

 

                Reflexões e crônicas da vida real para um momento de decisão dentro do Conselho Municipal de Educação.

Marcos Canguru.


Para falarmos de problemas latentes, as vezes é melhor procurarmos caminhos imaginários. Nesse sentido vou tentar apresentar um pouco da "cozinha" pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis. Talvez as semelhanças não sejam meras coincidências, mas prepare seu paladar, pois o prato dessa reflexão escrita pode ser um pouco picante

Todo início de ano cada professor dedica um longo tempo, individual e coletivo, para planejar o caminhar de seus grupos estudantis no processo de ensino aprendizagem. Os profissionais mais atentos, pesquisadores, curiosos por convicção, identificam elementos no próprio desenvolvimento de seus planejamentos, antes, durante e depois de cada aula, de cada ciclo de aprendizagem planejada.

Considerando a singularidade do processo de apreensão do conhecimento por parte de cada estudante, o profissional ideal, comprometido com a educação,  faz o que lhe cabe, ou seja, garante a qualidade da aprendizagem, o acesso ao conhecimento, a didática no processo, enfim, promove a educação em sua amplitude.

Esse cenário é o que almejamos, porém essa construção é limitada pelas condições objetivas do trabalho cotidiano, tais como estrutura escolar precária, superlotação de estudantes por sala, pouco material pedagógico disponível, sobrecarga da jornada de trabalho, baixos salários e desvalorização da profissão perante a sociedade, além de estudantes com sérios problemas sociais, culturais e econômicos, vítimas de violência de todo tipo, baixa autoestima, sem perspectivas de futuro. Esse é o panorama da educação de nosso país, ainda que existam particularidades de acordo com cada cidade ou estado. Ao considerarmos as condições objetivas e subjetivas no processo de formação dos profissionais da educação o problema só aumenta. Com o avanço da educação a distância (EAD) na formação de professores e professoras temos uma formação precarizada, acelerada, desconectada das reais necessidades do processo de profissionalização da educação. Com isso tanto professores e professoras, como estudantes das diversas modalidades de ensino acabam sendo prejudicados.

Na mexida desse caldo todo está a educação, algo que cada estudante consome ao produzir, um produto que não se separa do ato de sua produção, na qual o professor, a professora, são mediadores e promotores do conhecimento, “cozinheiros” que capricham no tempero da vida para que o sabor da escola, mesmo com tantos ingredientes picantes, seja o grande espaço de promoção da humanidade.

Mas estamos em tempos de pandemia, de modo que esse caldo está sendo servido frio na mesa de muitos estudantes. Pior, está faltando na mesa de outros tantos. Muitos profissionais da educação estão adoecendo tentando preparar essa “sopa” da melhor forma, mas não conseguem mantê-la “quente” até chegar no prato de cada estudante. O que falta, na verdade, é o “calor” das relações entre os seres humanos promovido singularmente no processo pedagógico. O olho no olho da professora com a criança, da interação do estudante com os outros, a permissão de novos olhares sobre o fazer pedagógico, a quentura que, ainda que queime de vez em quando, é fundamental para a boa alimentação.

O conhecimento dos tempos pandêmicos, pelas “plataformas virtuais”, pelos intermináveis formulários, das apostilas impressas, ainda que produzidos com todo o compromisso e carinho dos professores e professoras, não contém o calor de sua mediação. Por mais que as apostilas transbordem de intencionalidades, elas não contêm o calor da cozinha pedagógica, falta-lhes a presença do educador, da educadora... Falta, nestas atividades, o corpo presente, falante e pensante de momento, de cada educador, de cada educadora, da interação entre os seres (todos!). Por isso a sopa tem sido servida sempre fria...

Mas o pior é a sopa jogada fora, pelo “ralo” das secretarias de educação municipais e estaduais, as quais em geral têm exigido a intensificação do trabalho cozinha-remoto dos educadores e educadoras, desconsiderando em muitos casos suas condições individuais, tais como equipamentos tecnológicos de qualidade, internet de qualidade e formação em ferramentas digitais para cozinhar a sopa. O fato é que além disso muitos estudantes não tem acesso a sopa (aula virtual, por exemplo), de modo que grande parte desse preparo acaba sendo jogado fora. Em Florianópolis, a impressão é que a Secretaria, de forma análoga a criança dona da bola no jogo de futebol, quer ser a atacante, artilheira e juíza, destacando abertamente sua falta de diálogo profissional (fominha!) e aberto com o Conselho Municipal de Educação (CME), órgão regulador da possível normatização da reorganização do “menu” pedagógico, ou melhor, da reorganização curricular e do calendário letivo.

O tal “cardápio” apresentado pelo CME, ainda que não apresente saídas muito saborosas diante da situação pandêmica, destaca alguns avanços importantes para as “refeições” pedagógicas. Daqui a pouco voltamos nisso, primeiro vamos destacar alguns problemas que precisam de consideração...

Muitos estudantes não têm internet, mas esse não é o principal problema. Muitos não têm computador ou celular, mas esse também não é o principal problema. Muitos sequer têm o que comer neste momento, pois a escola, além de servir a sopa do conhecimento, também era espaço para alimentação saudável de verdade, sem analogia. Esse sim, é um problema imenso. Uma grande cozinheira (de verdade) da escola que trabalho sempre afirmou que “barriga vazia não aprende” e isso é um fato! Se não considerarmos as condições de moradia de cada família, em especial nos locais em que a pobreza impede qualquer tipo de "isolamento social" ou ainda condição mínima para estudar, é certo que a sopa não chegará na mesa de nossos estudantes.

Talvez alguns políticos demagogos afirmem que não é papel da escola garantir a comida na mesa das famílias. Ok, mas durante a pandemia, se as famílias não podem levar seus filhos para escola é papel do poder público levar alimento até as famílias! Mais que isso, é dever dos governos de plantão a proteção da vida de cada cidadão, de cada cidadã! Isso significa que para garantir o isolamento social, por exemplo, mais que uma quantia na forma de auxílio emergencial, os governos federal, estadual e municipal deveriam se debruçar para garantir dignidade a cada um, a cada uma. R$ 600,00 reais não é dignidade! Nem o salário-mínimo hoje em nosso país não garante a sobrevivência de um cidadão, muito menos de uma família se considerarmos o que diz a nossa constituição federal.

Mas voltemos a sopa do conhecimento, afinal esse texto iniciou por isso. Algumas questões ainda permanecem em nossa “fome imaginária”: Como é que professores e professoras, pais e familiares, trabalhadores e trabalhadoras podem exigir que a vida seja preservada em tempos de pandemia? Lembrem-se, já passamos de 100 mil mortos e a curva segue subindo...

As professoras e professores, cozinheiros da vida em sociedade, devem aceitar que sua sopa chegue fria ou que nem chegue a muitos lares?

Será que o momento que vivemos não pode servir para refletirmos talvez, em mudarmos nosso cardápio, ou seja, cientes que não é possível as aulas presenciais neste momento, nos preocuparmos mais com docinhos, salgadinhos, sorvetes e chocolates pedagógicos, promovendo a garantia do vínculo entre educadora e educando? Entre escola e família? Calma, a sopa é importante, mas podemos voltar nela com mais afinco quando retornarmos as atividades presenciais, ok? Muito aprendizado pode surgir dessa interação, mesmo que seja no formato virtual ou impresso (temporariamente apenas, insisto nisso!). Sem abandonarmos o horizonte que permitirá novamente o ensino presencial, a manutenção de vínculo pode contribuir para amenizar o sofrimento de professores, professoras, familiares e estudantes. Talvez essa seja uma boa “receita” para o momento.

Sou professor do município de Florianópolis e estou muito convicto que nossa rede tem condição de realizar melhores “menus” de conhecimento aos nossos estudantes. Mais que isso, que nós, como cozinheiras e cozinheiros do conhecimento, podemos sim estarmos juntos e organizados, mesmo que virtualmente, numa grande cozinha virtual, com nossas colheres e paus de amassar, exigindo que nenhum direito seja retirado, nem das trabalhadoras e trabalhadores, nem dos estudantes, de todas as esferas da educação básica.

Temos um instrumento sindical, o Sintrasem, que está na linha de frente da resistência de nossa luta em defesa da vida, da dignidade e por nenhum direito a menos.

Temos também neste momento um instrumento institucional, o CME que na próxima semana aprovará o documento que certamente impactará na vida profissional da educação e nas futuras sopas ou demais alimentos do conhecimento que viermos a produzir.

No primeiro cardápio divulgado, da minuta de resolução do conselho, percebe-se que há uma preocupação na garantia da sopa, bem como em não retirar direitos, nem dos estudantes, nem dos profissionais da educação. Mas a sensação ainda é que a sopa vai ser servida fria, pelo menos durante a pandemia. Também percebo que haverá uma certa amargura na sopa quando houver condições de retorno presencial, mas as iniciativas do cozinhar coletivo, das proposições dos educadores e educadoras da rede, nos debates democráticos em suas unidades educativas e posteriormente no Sintrasem, podem melhorar a expectativa desse cardápio a ser aprovado pelo CME na próxima semana.

Vejo com muito respeito quão exemplar tem sido o trabalho de elaboração dos conselheiros do CME, inclusive escutando todos os setores, com reuniões abertas demonstrando compromisso com processos democráticos de decisão... minha análise desse caldo, leva ao entendimento que nossa categoria tem se sentido anestesiada diante de tantos ataques... Ver números de mortos e contaminados no jornal diário passou a fazer parte da rotina, como colocar a mesa do café e chamar a atenção das crianças que não lavaram as mãos.

Trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente do serviço municipal, estão neste momento salvando vidas com 3% a menos em seus salários, devido aos desprezíveis vereadores da base do governo que aprovaram a lei de aumento da alíquota de previdência. Pensem como essa refeição não caiu bem... O corte nos salários também vale para nós da cozinha pedagógica além de todos os demais setores que estão em trabalho remoto. Na expectativa velada de amenizar essa contradição o prefeito antecipa o décimo terceiro salário, num ato de desespero para aumentar o giro da economia municipal e tentar calar a boca dos servidores e servidoras (não calarão!) que sentirão o impacto da perda de renda daqui para frente.

Um detalhe: Nossa profissão é a que melhor dialoga, ouso em dizer, com as aglomerações. É no movimento dos pequenos ou grandes estudantes, em conjunto, as vezes em dezenas de pessoas, que promovemos a humanidade pelas interações, pelo confronto de ideias, pela apresentação da riqueza do conhecimento produzido ao longo da história.

O documento apresentado pelo CME é o momentâneo resultado de uma construção coletiva. Essa construção certamente será enriquecida pela força e combatividade dos representantes das unidades educativas no conselho deliberativo do Sintrasem. Sou um deles e nossa história sindical é prova da força de nossa categoria em momentos decisivos, e não será diferente na reconstrução da pauta pedagógica para escolas e NEIMs. Relembrando Gilberto Gil, "andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá (sic)", ou seja, buscaremos um acolhimento mais “quente” tanto para o paladar dos profissionais, como para todos os estudantes, da Educação Infantil, da Educação Especial, do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos.

Na verdade, quando retornarmos as atividades presenciais precisaremos de outro prato, que não seja apenas a sopa. Talvez com a robustez e simplicidade do arroz com feijão, salada, proteínas variadas e muito tempero, consigamos recuperar com muito sabor, a quentura do processo educativo, a alegria de ensinar, mas também a vontade de aprender.

Valorizar a ciência, a arte e a filosofia nos dias de hoje, é um verdadeiro ato revolucionário. Que a ideologia dominante não impere e que as alterações desta resolução sejam para beneficiar a todos e todas, sem corporativismo, garantindo uma necessária “alimentação” de conhecimento para os estudantes, manutenção e ampliação da qualidade da educação, nenhum direito a menos e nenhum dever a mais para os profissionais da educação.

Seguimos.