quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Dilemas na cozinha pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis.

 

                Reflexões e crônicas da vida real para um momento de decisão dentro do Conselho Municipal de Educação.

Marcos Canguru.


Para falarmos de problemas latentes, as vezes é melhor procurarmos caminhos imaginários. Nesse sentido vou tentar apresentar um pouco da "cozinha" pedagógica da rede municipal de educação de Florianópolis. Talvez as semelhanças não sejam meras coincidências, mas prepare seu paladar, pois o prato dessa reflexão escrita pode ser um pouco picante

Todo início de ano cada professor dedica um longo tempo, individual e coletivo, para planejar o caminhar de seus grupos estudantis no processo de ensino aprendizagem. Os profissionais mais atentos, pesquisadores, curiosos por convicção, identificam elementos no próprio desenvolvimento de seus planejamentos, antes, durante e depois de cada aula, de cada ciclo de aprendizagem planejada.

Considerando a singularidade do processo de apreensão do conhecimento por parte de cada estudante, o profissional ideal, comprometido com a educação,  faz o que lhe cabe, ou seja, garante a qualidade da aprendizagem, o acesso ao conhecimento, a didática no processo, enfim, promove a educação em sua amplitude.

Esse cenário é o que almejamos, porém essa construção é limitada pelas condições objetivas do trabalho cotidiano, tais como estrutura escolar precária, superlotação de estudantes por sala, pouco material pedagógico disponível, sobrecarga da jornada de trabalho, baixos salários e desvalorização da profissão perante a sociedade, além de estudantes com sérios problemas sociais, culturais e econômicos, vítimas de violência de todo tipo, baixa autoestima, sem perspectivas de futuro. Esse é o panorama da educação de nosso país, ainda que existam particularidades de acordo com cada cidade ou estado. Ao considerarmos as condições objetivas e subjetivas no processo de formação dos profissionais da educação o problema só aumenta. Com o avanço da educação a distância (EAD) na formação de professores e professoras temos uma formação precarizada, acelerada, desconectada das reais necessidades do processo de profissionalização da educação. Com isso tanto professores e professoras, como estudantes das diversas modalidades de ensino acabam sendo prejudicados.

Na mexida desse caldo todo está a educação, algo que cada estudante consome ao produzir, um produto que não se separa do ato de sua produção, na qual o professor, a professora, são mediadores e promotores do conhecimento, “cozinheiros” que capricham no tempero da vida para que o sabor da escola, mesmo com tantos ingredientes picantes, seja o grande espaço de promoção da humanidade.

Mas estamos em tempos de pandemia, de modo que esse caldo está sendo servido frio na mesa de muitos estudantes. Pior, está faltando na mesa de outros tantos. Muitos profissionais da educação estão adoecendo tentando preparar essa “sopa” da melhor forma, mas não conseguem mantê-la “quente” até chegar no prato de cada estudante. O que falta, na verdade, é o “calor” das relações entre os seres humanos promovido singularmente no processo pedagógico. O olho no olho da professora com a criança, da interação do estudante com os outros, a permissão de novos olhares sobre o fazer pedagógico, a quentura que, ainda que queime de vez em quando, é fundamental para a boa alimentação.

O conhecimento dos tempos pandêmicos, pelas “plataformas virtuais”, pelos intermináveis formulários, das apostilas impressas, ainda que produzidos com todo o compromisso e carinho dos professores e professoras, não contém o calor de sua mediação. Por mais que as apostilas transbordem de intencionalidades, elas não contêm o calor da cozinha pedagógica, falta-lhes a presença do educador, da educadora... Falta, nestas atividades, o corpo presente, falante e pensante de momento, de cada educador, de cada educadora, da interação entre os seres (todos!). Por isso a sopa tem sido servida sempre fria...

Mas o pior é a sopa jogada fora, pelo “ralo” das secretarias de educação municipais e estaduais, as quais em geral têm exigido a intensificação do trabalho cozinha-remoto dos educadores e educadoras, desconsiderando em muitos casos suas condições individuais, tais como equipamentos tecnológicos de qualidade, internet de qualidade e formação em ferramentas digitais para cozinhar a sopa. O fato é que além disso muitos estudantes não tem acesso a sopa (aula virtual, por exemplo), de modo que grande parte desse preparo acaba sendo jogado fora. Em Florianópolis, a impressão é que a Secretaria, de forma análoga a criança dona da bola no jogo de futebol, quer ser a atacante, artilheira e juíza, destacando abertamente sua falta de diálogo profissional (fominha!) e aberto com o Conselho Municipal de Educação (CME), órgão regulador da possível normatização da reorganização do “menu” pedagógico, ou melhor, da reorganização curricular e do calendário letivo.

O tal “cardápio” apresentado pelo CME, ainda que não apresente saídas muito saborosas diante da situação pandêmica, destaca alguns avanços importantes para as “refeições” pedagógicas. Daqui a pouco voltamos nisso, primeiro vamos destacar alguns problemas que precisam de consideração...

Muitos estudantes não têm internet, mas esse não é o principal problema. Muitos não têm computador ou celular, mas esse também não é o principal problema. Muitos sequer têm o que comer neste momento, pois a escola, além de servir a sopa do conhecimento, também era espaço para alimentação saudável de verdade, sem analogia. Esse sim, é um problema imenso. Uma grande cozinheira (de verdade) da escola que trabalho sempre afirmou que “barriga vazia não aprende” e isso é um fato! Se não considerarmos as condições de moradia de cada família, em especial nos locais em que a pobreza impede qualquer tipo de "isolamento social" ou ainda condição mínima para estudar, é certo que a sopa não chegará na mesa de nossos estudantes.

Talvez alguns políticos demagogos afirmem que não é papel da escola garantir a comida na mesa das famílias. Ok, mas durante a pandemia, se as famílias não podem levar seus filhos para escola é papel do poder público levar alimento até as famílias! Mais que isso, é dever dos governos de plantão a proteção da vida de cada cidadão, de cada cidadã! Isso significa que para garantir o isolamento social, por exemplo, mais que uma quantia na forma de auxílio emergencial, os governos federal, estadual e municipal deveriam se debruçar para garantir dignidade a cada um, a cada uma. R$ 600,00 reais não é dignidade! Nem o salário-mínimo hoje em nosso país não garante a sobrevivência de um cidadão, muito menos de uma família se considerarmos o que diz a nossa constituição federal.

Mas voltemos a sopa do conhecimento, afinal esse texto iniciou por isso. Algumas questões ainda permanecem em nossa “fome imaginária”: Como é que professores e professoras, pais e familiares, trabalhadores e trabalhadoras podem exigir que a vida seja preservada em tempos de pandemia? Lembrem-se, já passamos de 100 mil mortos e a curva segue subindo...

As professoras e professores, cozinheiros da vida em sociedade, devem aceitar que sua sopa chegue fria ou que nem chegue a muitos lares?

Será que o momento que vivemos não pode servir para refletirmos talvez, em mudarmos nosso cardápio, ou seja, cientes que não é possível as aulas presenciais neste momento, nos preocuparmos mais com docinhos, salgadinhos, sorvetes e chocolates pedagógicos, promovendo a garantia do vínculo entre educadora e educando? Entre escola e família? Calma, a sopa é importante, mas podemos voltar nela com mais afinco quando retornarmos as atividades presenciais, ok? Muito aprendizado pode surgir dessa interação, mesmo que seja no formato virtual ou impresso (temporariamente apenas, insisto nisso!). Sem abandonarmos o horizonte que permitirá novamente o ensino presencial, a manutenção de vínculo pode contribuir para amenizar o sofrimento de professores, professoras, familiares e estudantes. Talvez essa seja uma boa “receita” para o momento.

Sou professor do município de Florianópolis e estou muito convicto que nossa rede tem condição de realizar melhores “menus” de conhecimento aos nossos estudantes. Mais que isso, que nós, como cozinheiras e cozinheiros do conhecimento, podemos sim estarmos juntos e organizados, mesmo que virtualmente, numa grande cozinha virtual, com nossas colheres e paus de amassar, exigindo que nenhum direito seja retirado, nem das trabalhadoras e trabalhadores, nem dos estudantes, de todas as esferas da educação básica.

Temos um instrumento sindical, o Sintrasem, que está na linha de frente da resistência de nossa luta em defesa da vida, da dignidade e por nenhum direito a menos.

Temos também neste momento um instrumento institucional, o CME que na próxima semana aprovará o documento que certamente impactará na vida profissional da educação e nas futuras sopas ou demais alimentos do conhecimento que viermos a produzir.

No primeiro cardápio divulgado, da minuta de resolução do conselho, percebe-se que há uma preocupação na garantia da sopa, bem como em não retirar direitos, nem dos estudantes, nem dos profissionais da educação. Mas a sensação ainda é que a sopa vai ser servida fria, pelo menos durante a pandemia. Também percebo que haverá uma certa amargura na sopa quando houver condições de retorno presencial, mas as iniciativas do cozinhar coletivo, das proposições dos educadores e educadoras da rede, nos debates democráticos em suas unidades educativas e posteriormente no Sintrasem, podem melhorar a expectativa desse cardápio a ser aprovado pelo CME na próxima semana.

Vejo com muito respeito quão exemplar tem sido o trabalho de elaboração dos conselheiros do CME, inclusive escutando todos os setores, com reuniões abertas demonstrando compromisso com processos democráticos de decisão... minha análise desse caldo, leva ao entendimento que nossa categoria tem se sentido anestesiada diante de tantos ataques... Ver números de mortos e contaminados no jornal diário passou a fazer parte da rotina, como colocar a mesa do café e chamar a atenção das crianças que não lavaram as mãos.

Trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente do serviço municipal, estão neste momento salvando vidas com 3% a menos em seus salários, devido aos desprezíveis vereadores da base do governo que aprovaram a lei de aumento da alíquota de previdência. Pensem como essa refeição não caiu bem... O corte nos salários também vale para nós da cozinha pedagógica além de todos os demais setores que estão em trabalho remoto. Na expectativa velada de amenizar essa contradição o prefeito antecipa o décimo terceiro salário, num ato de desespero para aumentar o giro da economia municipal e tentar calar a boca dos servidores e servidoras (não calarão!) que sentirão o impacto da perda de renda daqui para frente.

Um detalhe: Nossa profissão é a que melhor dialoga, ouso em dizer, com as aglomerações. É no movimento dos pequenos ou grandes estudantes, em conjunto, as vezes em dezenas de pessoas, que promovemos a humanidade pelas interações, pelo confronto de ideias, pela apresentação da riqueza do conhecimento produzido ao longo da história.

O documento apresentado pelo CME é o momentâneo resultado de uma construção coletiva. Essa construção certamente será enriquecida pela força e combatividade dos representantes das unidades educativas no conselho deliberativo do Sintrasem. Sou um deles e nossa história sindical é prova da força de nossa categoria em momentos decisivos, e não será diferente na reconstrução da pauta pedagógica para escolas e NEIMs. Relembrando Gilberto Gil, "andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá (sic)", ou seja, buscaremos um acolhimento mais “quente” tanto para o paladar dos profissionais, como para todos os estudantes, da Educação Infantil, da Educação Especial, do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos.

Na verdade, quando retornarmos as atividades presenciais precisaremos de outro prato, que não seja apenas a sopa. Talvez com a robustez e simplicidade do arroz com feijão, salada, proteínas variadas e muito tempero, consigamos recuperar com muito sabor, a quentura do processo educativo, a alegria de ensinar, mas também a vontade de aprender.

Valorizar a ciência, a arte e a filosofia nos dias de hoje, é um verdadeiro ato revolucionário. Que a ideologia dominante não impere e que as alterações desta resolução sejam para beneficiar a todos e todas, sem corporativismo, garantindo uma necessária “alimentação” de conhecimento para os estudantes, manutenção e ampliação da qualidade da educação, nenhum direito a menos e nenhum dever a mais para os profissionais da educação.

Seguimos.

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