terça-feira, 2 de junho de 2020

CAPOEIRA - O QUE PODEM DIZER OS DISCÍPULOS DE BIMBA E PASTINHA SOBRE O RACISMO?

Camaradas, abaixo uma reflexão em forma de ideia/campanha...



Uma pergunta título tem o objetivo único de provocar a manifestação de Mestres e discípulos dos dois maiores ícones da capoeira, Mestre Pastinha e Mestre Bimba. Em 2018 a morte de Mestre Moa foi um prelúdio do que viria pela frente.
Para não haver dúvidas, começo me identificando, afirmando que sou um praticante de capoeira de origem branca, criado em uma família cristã. Contudo, ao vivenciar organicamente a capoeira, me apaixonei por esse bem cultural, pelos variados elementos da cultura afro-brasileira e, desde então, sou um amante e defensor da cultura afrodescendente. Minha construção acadêmico-universitária só foi possível pela Capoeira, tenho uma dívida eterna com esse fenômeno cultural e por essa razão assumo o ônus e o bônus das provocações que virão a seguir.

CHAMANDO PRO JOGO...
A morte da população negra é histórica e, como diria Will Smith, a diferença é que “está sendo filmada”. Mas a luta do povo negro pela igualdade racial também é histórica e nesse momento ganha contornos de enfrentamento que nos exige uma tomada de posição. Berimbau já fez sua chamada, é hora de lutar...
Infelizmente, aqui na região Sul do país, há exemplos (não sei quantos, mas existem e podem ser facilmente identificados em redes sociais e grupos de capoeira no whatsapp) de praticantes de capoeira que abertamente ainda defendem o governo Bolsonaro e, nessa mesma toada, tem acordo com a fala racista do atual “presidente” da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, o qual afirmou em uma recente gravação de áudio que o Movimento Negro (MN) é uma “escória maldita”. Este ser ainda criticou o Dia da Consciência Negra, xingando Zumbi dos Palmares, símbolo da luta contra a escravidão no Brasil.
Muitos estudiosos trariam elementos históricos para repudiar Sérgio Camargo, bem como comprovar o quanto sua fala sobre Zumbi é preconceituosa e equivocada. Mas há um caminho que talvez seja mais elementar e profícuo...

CAPOEIRA ME CHAMA EU VOU ATENDER (M.Canjiquinha)
Ao pouco que sei, faço uma aposta que as duas maiores contribuições para a permanência e existência da capoeira até os dias atuais se deram a partir da vida em prol da capoeira de dois Mestres: Bimba e Pastinha.
Esses dois mestres são relembrados nas cantigas e em muitos ensinamentos que seus discípulos disseminaram e disseminam pelo Brasil e pelo mundo. As poucas filmagens que temos demonstram muito o profundo vínculo de Pastinha e Bimba com a cultura Afro-brasileira, com a Capoeira, com a luta pela vida, contra o preconceito racial.
Pois bem, diante do grave momento que nosso país e nosso mundo passam, com uma pandemia, crise econômica e o bater na porta da população negra o risco de governos autoritários retirarem ainda mais direitos sociais, o que tem então a dizer os que caminharam ao lado desses mestres, sobre o racismo e as reações de enfrentamento?
Mestre Bimba e Mestre Pastinha, se estivessem vivos, assistiriam calados a toda essa situação? Que orientação cada um daria para seus discípulos? Concordariam eles com as ações governamentais de colocar Sérgio Camargo a frente da principal entidade que representa a cultura negra do Brasil? Concordariam eles com as palavras e opiniões deste “presidente” da Fundação Palmares?

AO PÉ DO BERIMBAU, À LUTA NECESSÁRIA
            Não há dúvidas que a diversidade da capoeira é o que faz desse bem cultural um símbolo único e ao mesmo tempo plural. Nesse momento muitos mestres, discípulos de Bimba e Pastinha tem opiniões muito diversas sobre a capoeiragem. Mas será que suas opiniões também são tão diversas em relação a defesa da igualdade racial?
            A partir dos ensinamentos de Bimba e Pastinha, como cada discípulo poderia expor, nesse momento sua opinião em relação ao preconceito racial?
            Sinceramente, meu objetivo é que esses variados discípulos, pudessem se manifestar nesse momento, em vídeos, áudios ou textos, expondo sua opinião sobre a luta contra o racismo, sobre a presença de Sérgio Camargo na Fundação Palmares, enfim, sobre a necessária luta em defesa do povo negro, de nossa cultura ancestral. Para isso, da forma que for possível, citar a hashtag #CAPOEIRASEMDEFESADAVIDA,  #CAPOEIRASCONTRAORACISMO, #CAPOEIRADIZNAOPRORACISMO ou ainda outra forma que você criar e compartilhar nas redes sociais. O importante é contribuir com sua opinião.
            Como tem afirmado movimentos em defesa da igualdade racial pelo mundo, “Black Lives Matter!”, ou seja, “Vidas Negras Importam!”. A comprovação entre nós, defensores da capoeira, que de fato vidas negras importam, bem como Salvar Vidas é mais importante do que salvar os lucros ou os governos, me faz provocar aqueles que tiveram a oportunidade de acompanhar um pouco das vivências de Mestre Bimba e Mestre Pastinha para que contribuam nessa campanha, em defesa da vida! Você mestre e/ou discípulo, desses que foram e são nossos grandes detentores do saber da capoeira, poderia contribuir com essa iniciativa? Você capoeirista, que defende esse bem cultural, bem como a vida, que não concorda com o Racismo e o Fascismo, vamos nos somar também? Todas as contribuições são bem vindas, a provocação é para que consigamos ecoar nossa voz, pois é preciso nos unirmos nessa luta, em nosso país e no mundo.
            Partir da referência de Mestre Pastinha e Mestre Bimba, pode, quem sabe, auxiliar a todos os praticantes da capoeira ou mesmo simpatizantes de nossa cultura, a tomarem consciência e se unirem na luta em defesa de nossa cultura, de nosso povo atual e ancestral.
            Termino essa reflexão com a saudosa, porém enigmática citação de Mestre Pastinha quando afirmou que “a capoeira é tudo que a boca come”. Se é, não podemos permitir que capoeiras em geral comam as sementes do Racismo e do Fascismo, pois isso seria o fim da capoeira, pelo menos em sua pluralidade, resistência ao opressor, e em defesa da vida. A você Mestre, Professor, Graduado, iniciante ou simpatizante, a hora é agora!
             Comente aqui no Blog ou em sua rede social preferida, mas não se cale! Essa luta é de todos! Como dizia o Samba, "a minha liberdade custou sangue",
            Axé.
#CAPOEIRASEMDEFESADAVIDA #CAPOEIRASCONTRAORACISMO #CAPOEIRADIZNAOPRORACISMO


domingo, 10 de maio de 2020

FAMILIA - DIA DAS MÃES, UM DIA COMO TODOS OS OUTROS?


Há os ventos da alma...



Quem é este ser que permite o habitar de outro ser, o qual ao sair de suas entranhas, torna-se sua razão de ser?
Quem é este ser, que, como primeiro ato consumado, serve de alimento para o ser por si criado?
Mãe, palavra originada a partir de uma ação concreta, do fornecer o alimento para a criança...
Sua mama é a chave primeira para o ato mais nobre dos seres que, mais que viverem na natureza, a recriam e a transformam, ao seu interesse e semelhança.
Ser mãe é isso... O doar-se para a geração...
Dessa doação, nos seres humanos em geral, emana um sentimento que resume o que de melhor a humanidade já produziu: O Amor...
Celebrar a existência de todas as mães do mundo é um fenômeno cultural de profundo conjunto de sentimentos... Se o amor resume todos eles, é válido lembrar que neste meio se encontra o afeto, a saudade, a preocupação, a alegria, a dor... E quando as emoções não encontram mais palavras para se justificar, a ação que permanece é a do Choro, emoção sensivelmente não elaborada, que diz muito, mesmo quando não consegue dizer nada...
Fui criado numa cultura eurocêntrica, por isso, ou apesar disso, aprendi a valorizar a mãe para além de sua particularidade, ou seja, cada ser gerado deveria ter uma forma de mãe que contemplasse apenas o que de melhor as mães da história já registraram, mas em verdade, o mundo não funciona dessa forma...
E que bom que não funciona!
Seria tedioso se todas as mães fossem apenas Deusas e não seres humanos, contraditórios, únicos!
Aos Deuses da história, que destaquemos Reia, a mãe dos Deuses... Ou a Mãe Terra, como também a chamam... Pachamama, melhor dizendo...
Sim, existem referências históricas e muitas outras mitológicas...
Mas ninguém é igual a minha mãe!
Capitalistas podem vender a imagem da mãe branca, bonita, sempre sorridente, dona de casa, recatada e do lar... que merece uma mercadoria em forma de homenagem...
Outros ainda podem carregar a mágoa de momentos históricos impeditivos, os quais não permitiram que mulheres, pelas mais variadas razões, fossem mães, ou ainda, se o fossem, não tenham vivido o momento mãe com seus filhos e filhas...
Mas repito, ninguém é igual a minha mãe!
Por isso estou cansado de dar voltas sobre a necessidade de justificar um dia a mais, para celebrar a vida e todos os momentos que passamos juntos...
O dia das mães, apesar de todas as contradições, em especial sua perversa metabolização pelo capitalismo, não é um dia como todos os outros...
Se sinto a segurança em afirmar que minha mãe me ama, me amou e me amará durante todos os dias de sua vida, isso é mais do que suficiente para justificar que sim, ela merece ser amada todos os dias também!
Porém, ao somarmos nosso amor, em especial na minha família, considerando que minha mãe teve seis filhos, a celebração de um dia a mais, para resumir e recordar, o ato de ser mãe, mas não de qualquer mãe e sim da minha mãe, é sem dúvida, de extrema necessidade!


Mãezinha, estou distante, mas estou perto, estou triste, mas estou feliz, porque eu te amo e sempre te amarei.
Se a contradição desse menino, programado para nascer, que fugiu de perto de sua asa, para voar ainda mais longe do que o horizonte aponte, é sabido que seu ninho, onde você estiver, é e sempre será meu eterno refúgio! Por isso meu amor por você transborda e se multiplica... pelo menos por três!


E as palavras vêm a mente apenas para tentar elaborar a profundidade de emoções que não se explicam, mas que explodem em mim, principalmente no atual momento pandêmico que vivemos...
Por isso, não haverá álcool em gel, máscara ou isolamento que me impeça de te contagiar... Com meu amor, minha saudade, enfim, a manutenção de minha esperança na humanidade, tendo como referência maior o amor que você depositou em mim, desde o ato de minha criação até os cabelos brancos que já me atingem nesses trinta e poucos anos...
Te amo demais!!!

Mas fica em casa, tá?

Que os ventos de minha alma, pedindo ajuda para Mercedes Sosa... cheguem até você e a nossa linda, amada e única família!










 Com cambaleante carinho... 

Seguindo os ventos da liberdade...

Marcos com Orgulho CORDEIRO...

sexta-feira, 8 de maio de 2020

DONICIA - PROPOSTA DE TRABALHO COM TEMAS GERADORES


PROPOSTA DE TRABALHO COM TEMAS GERADORES
PARA OS ANOS FINAIS
EBM DONICIA MARIA DA COSTA



Florianópolis, 08 de Maio de 2020. 




Iniciando o diálogo, justificando e avançando...







A concepção metodológica de Paulo Freire, para a educação está sistematizada em várias obras, mas nos deteremos, neste primeiro momento, ao livro Pedagogia do Oprimido. São quatro capítulos. O primeiro com proposição de justificar a exposição de sua tese. O Segundo capítulo apresenta a crítica ao que o autor chama de Educação Bancária. Essa crítica serve de base para então propor saídas no processo pedagógico. Essa ação é a que nos interessa nesse primeiro momento.
No Capítulo 3, é exposto o entendimento da “essência da educação como prática da liberdade”, título que também está presente num livro anterior ao pedagogia do oprimido, interessante para uma leitura posterior. Por fim, no capítulo 4, nos é apresentado a teoria da ação antidialógica.
Mas voltemos ao capítulo 3. Para Freire (1987), essa essência da educação como prática da liberdade é a “dialogicidade”. Esse conceito precisa de uma outra elaboração, por isso tratarei aqui apenas como a necessidade de diálogo, na horizontalidade do estabelecimento de relações humanas, em específico nas relações Educador-Educador, Educador-Educando, Educador-Familia, Família-Educando a partir da atividade proposta pelo Educador e Educando-Educador, como resposta de síntese relacionada a determinada tarefa, mas também como ponto de partida para manutenção do diálogo (aprendizado), da dialogicidade em tempos de pandemia.
Dessas relações destacamos uma primeira problemática, ou melhor, uma primeira “situação-limite”[1]: Como dialogar com os estudantes durante a pandemia?
Para responder essa primeira pergunta vamos ao item do livro “o diálogo começa na busca do conteúdo programático” (1987, p.53). Ele começa afirmando que:

Daí que, para esta concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o educador-educando se encontra com os educandos-educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação (grifo meu).

Em nossa reunião do dia 07 de maio ficou evidente o quanto estamos, grosso modo, inquietos no sentido do que fazer diante da pandemia e a obrigatoriedade de planejar “aulas não presenciais”. Isso fica ainda mais escancarado ao identificarmos que as primeiras iniciativas de nosso coletivo obtiveram pouquíssimo retorno dos estudantes, por algumas razões conhecidas, tais como a vulnerabilidade social, acesso a internet etc. mas também outras razões desconhecidas, dentre elas o real interesse dos educandos acerca do que está sendo proposto, a dificuldade de articulação das disciplinas e as dúvidas frente a que caminho percorrer: Revisão de conteúdos? Conteúdos novos? Trato com os educandos com diagnóstico de deficiência ou TEA? Afinal QUÊ FAZER???
Seguindo a concepção metodológica de Paulo Freire, nada melhor que problematizar toda essa situação para que possamos vislumbrar, coletivamente, “inéditos-viáveis”[2]. É nessa perspectiva que esse texto agora se apresenta, pois, a partir da construção de “Temas-Geradores”, objetivamos dar sentido e de fato produzirmos coletivamente, em especial com os nossos educandos, esses inéditos-viáveis.
Nas palavras de Freire,

A educação autêntica, repitamos, não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de “A” com “B”, mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele. Visões impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças ou desesperanças que implicitam temas significativos, à base dos quais se constituirá o conteúdo programático da educação (1987, p.54).

Dessa citação já é possível lembrarmos o que nossos companheiros e companheiras das Ciências, História e Geografia estão caminhando enquanto planejamento. Ou seja, nosso tema gerador “Terra” já está bem embasado para ser ampliado com as demais disciplinas, pois inclusive já está sendo dialogado com os estudantes através do pioneirismo anterior a esse planejamento. Nos resta agora destacar a necessidade da relação Professor “com” Estudante, mediatizados pelo mundo. Em tempos de pandemia esse Planeta Terra e seus moradores, em especial os seres humanos, compartilham de visões, como afirmou Freire, ainda mais “impregnadas de anseios, de dúvidas, de esperanças ou desesperanças que implicitam temas significativos” (p.54, 1987).

EEEM Santo Antônio: Tema Gerador de 2017


Tema Gerador: Conceito Chave.


É preciso primeiramente considerarmos, antes de qualquer proposição, a situação da Pandemia, da atual forma organizativa de nosso trabalho, da realidade de nossos educandos, enfim, da conjuntura, pois como nos afirma Paulo Freire,

Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da situação ou da ação política, acrescentemos. (1987, p.55).

Dito isso, o tema gerador consiste em propor, através dessa situação presente, questionamentos, desafios, que permitam ao educando se reconhecer como parte da problemática, ou seja, não doar aos educandos “conteúdos que pouco ou nada tenham a ver com seus anseios, com suas dúvidas, com suas esperanças, com seus temores. Conteúdos que, às vezes, aumentam estes temores” (FREIRE, 1987, p.55). Lembrando que a base metodológica por ele proposta visa “a libertação da opressão”, portanto parte da relação dialética entre opressor e oprimido. Não entraremos nessa temática agora em função da singularidade de nossa necessidade, mas é preciso destacar essa relação primeira para não cairmos na negação das limitações de nossos estudantes, o que implicaria negativamente na formulação coletiva do planejamento pedagógico a partir de temas geradores.
Na configuração do Ensino Fundamental de nossa escola, é preciso usar o Tema-Gerador, como um guarda-chuva, ou seja, abrigar as disciplinas abaixo da temática, de modo a permitir que todas sigam caminhando articuladamente, em diálogo e relação direta com nossos educandos, perspectivando seu crescimento individual, mas cientes das limitações decorrentes do ensino remoto, bem como da falta de nossa mediação em tempo real com cada educando em seu processo de aprendizado.
O Tema-gerador é um elemento, nas palavras de Freire (1987), da “realidade mediatizadora” o qual precisamos buscar com os próprios educandos. Esse buscar, em ação-reflexão, “é o momento em que se realiza a investigação do que chamamos de universo temático do povo ou o conjunto de seus temas geradores (FREIRE, 1987, p.56).

Em verdade, o conceito de “tema gerador” não é uma criação arbitrária, ou uma hipótese de trabalho que deva ser comprovada. Se o “tema gerador” fosse uma hipótese que devesse ser comprovada, a investigação, primeiramente, não seria em torno dele, mas de sua existência ou não. (FREIRE, 1987, p.56).

Ou seja, o tema gerador “Terra” é o primeiro de muitos que poderemos elencar, na medida em que formos ganhando confiança coletiva dessa articulação, buscando nessa realidade mediatizadora, pandêmica, mas sem nos frustrar com o ‘abrir mão’ de conteúdos curriculares, o que é melhor para nossos educandos. Os conteúdos também fazem parte dessa realidade, diria até mais, são elementos mediatizadores da realidade, por isso sua importância. Mas diante desse momento de isolamento social, da falta dessa mediação educador-educando orgânica, presencial, a aposta metodológica via tema gerador deve ser considerada.
A noção de “temas” juntamente com a ideia de “geração” carrega a possibilidade do novo, que surgirá a partir da ação de nossos educandos frente aos desafios-temas que problematizarmos com eles. Em outras palavras,

Estes temas se chamam geradores porque, qualquer que seja a natureza de sua
compreensão como a ação por eles provocada, contêm em si a possibilidade de desdobrar-se em outros tantos temas que, por sua vez, provocam novas tarefas que devem ser cumpridas. (FREIRE, 1987, p.122).

Nesse interim, a leitura de todo o Capítulo 3 do livro Pedagogia do Oprimido, deve estar em nosso horizonte, até para qualificarmos esse primeiro diálogo-texto ora compartilhado.

Investigação científica estudo vetor | Vetor Grátis




Da investigação temática







A realidade objetiva é um desafio ao qual os seres humanos, homens e mulheres, crianças, adolescentes e adultos, profissionais e estudantes, têm de responder. Talvez, o fatalismo presente no cotidiano de nossos educandos, mas também entre nós professores e professoras, nos imponha apenas “situações limite” que ainda não nos permita identificar respostas mais otimistas acerca do futuro. 
Antes mesmo da Pandemia já identificávamos entre os educandos um alto índice de baixa autoestima, desinteresse, automutilação entre outros problemas da realidade objetiva de nossa comunidade.
Segundo Paulo Freire é neste conjunto de contradições fatalistas que vislumbramos vários temas geradores, bem como possíveis caminhos de sua superação, percebam:
E nesta forma expressada de pensar o mundo fatalistamente, de pensá-lo dinâmica ou estaticamente, na maneira como realizam seu enfrentamento com o mundo, se encontram envolvidos seus “temas geradores”.
Ainda quando um grupo de indivíduos não chegue a expressar concretamente uma temática geradora, o que pode parecer inexistência de temas, sugere, pelo contrário, a existência de um tema dramático: o tema do silêncio. Sugere uma estrutura constituinte do mutismo ante a força esmagadora de “situações-limites”, em face das quais o óbvio é a adaptação.
É importante reenfatizar que o “tema gerador” não se encontra nos homens isolados da realidade, nem tampouco na realidade separada dos homens. Só pode ser compreendido nas relações homens-mundo.
Investigar o “tema gerador” é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis (FREIRE, 1987, p.62, grifos meus).

A ideia da investigação temática é, portanto, um dos princípios educativos da metodologia proposta. Em outras palavras, o exercício da pesquisa, o aguçar da curiosidade a partir de desafios implícitos e explícitos nos temas geradores, permite tanto aos educandos como aos educadores, a qualificação desse diálogo que tanto informa quanto forma a ambos, cada um no grau respectivo a sua experiência. Sendo assim,

A investigação temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se a um ato mecânico. Sendo processo de busca, de conhecimento, por isto tudo, de criação, exige de seus sujeitos que vão descobrindo, no encadeamento dos temas significativos, a interpenetração dos problemas (FREIRE, 1987, p.64, grifos meus).

Nessa perspectiva podemos propor temas-geradores, mas isto não nos classifica como sendo apenas nós os sujeitos exclusivos da investigação. O objetivo é sermos investigadores conjuntamente com os educandos, tarefa essa bastante limitada devido a forma não presencial do ensino neste momento.
Talvez, em função dessa situação problema, nosso primeiro objetivo seja, além de planejar a partir da metodologia dos temas geradores, também buscar a manutenção do vínculo dos educandos com a escola, com as nossas disciplinas curriculares, enfim, conosco enquanto agentes de sua formação.
A formulação de estratégias para avaliarmos, num período curto, se estamos ou não avançando satisfatoriamente em relação a esses objetivos, deve ser o pressuposto para o desvelar de inéditos viáveis e novas formas de seguir no processo de formação com os educandos ao longo do período de isolamento social, com as aulas não presenciais, a partir dos temas geradores.
É claro que ainda há muito mais a acrescentar em relação a obra de Paulo Freire, em especial do capítulo 3 até aqui exposto, mas por hora finalizo essa reflexão-proposição e, a depender de nosso avanço coletivo, me disponho a ir elaborando o aprofundamento da proposta Paulo Freiriana em futuros novos textos.
Sempre na luta,
Marcos Cordeiro Bueno (Canguru).




[1] Conforme entende Paulo Freire, ao citar PINTO (1960), afirma que “as “situações-limites” não são “o contorno infranqueável onde terminam as possibilidades, mas a margem real onde começam todas as possibilidades”; não são “a fronteira entre o ser e o nada, mas a fronteira entre o ser e o ser mais" (mais ser) (FREIRE, 1987, p.122).
[2] O inédito viável nada mais é do que “soluções praticáveis” até então despercebidas, em oposição as percebidas ou as efetivamente já realizadas. Ele surge na medida do avanço da busca investigativa de temas geradores em meio às situações problemas (FREIRE, 1987).

segunda-feira, 27 de abril de 2020

CAPOEIRA - Dissertação de Mestrado

O ano de 2012, foi o momento síntese para a finalização de minha dissertação de mestrado. "O Fetiche de Capoeira Patrimônio" foi a conclusão de um profundo estudo no campo das políticas culturais. Aos interessados, segue o link da mesma.

O Fetiche da Capoeira Patrimônio: Quem quer abrir mão da história da capoeira?

Grupo de Capoeira Roda Livre mestre e professor maizena - YouTube
Fonte Arquivo Pessoal. No Jogo, Mestre Mineiro e Instrutor Maizena.

SINDICAL - O que você propõe? Em relação ao ensino não presencial de Florianópolis

No último dia 18 de Abril, após tomar conhecimento que muitos diretores e diretoras estavam contrariados devido as críticas que apontei aos mesmos, uma diretora me indagou a seguinte questão:
"Marcos, posso saber o que de fato vc pensa? Como devemos agir nesse momento tão difícil para todos??? Qual é a sua sugestão para as aulas??? Eu vejo vc falar tanto, mas fico pensando..m o que ele que??? Gostaria de saber..." Em resposta sistematizei o texto abaixo, já contendo elementos de solução apontados nos textos anteriores. Tenho percebido há algum tempo entre várias pessoas que há uma certa dificuldade de exercitar a reflexão e ler um texto longo por parte de algumas pessoas, algo não simplista que vá além... Talvez isso tenha também me motivado para o Blog, afinal é preciso registrar para não esquecer, em especial quando o conteúdo é complexo, como o enfrentamento a Pandemia por parte de profissionais da educação... O quê fazer?

Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento – Livraria ...
Imagem Ilustrativa do Livro Que Fazer de Lênin, publicado pela Editora Expressão Popular


Vou lhe responder em dois pontos os questionamentos:
Já expus várias proposições nos textos que publiquei anteriormente, por isso vou citar aqui novamente para tentar deixar mais explícito o entendimento, considerando apenas as duas últimas publicações. O que estiver entre aspas já foi escrito anteriormente, mas agradeço sua atenção para explicar melhor alguns pontos e avançar na proposição de outros:
1º Sobre o que fazer:
1. “...primeiro o foco é para a garantia da vida da população, depois o ano letivo” (08/ABR/2020).
2. “pela revogação imediata desta portaria” (07/ABR/2020).
3. O Conselho Municipal de Educação (CME), assim como eu somos “...a favor de atividades complementares” (08/ABR/2020).
4. Por isso, afirmei em 07 de Abril: “Nenhuma criança fora de casa, pelo isolamento social até o fim da pandemia, nenhum servidor ou servidora a menos!”
5. Preocupar-se primeiramente com:
a. “Desde o início da pandemia estamos apreensivos, pois não sabemos o tempo de duração do isolamento, se perderemos algum ente querido ou se contrairemos a COVID-19, como estão nossos estudantes que vivem em situação de vulnerabilidade social, se estão passando fome, se estão sofrendo violência devido ao ambiente precarizado, além é claro, da preocupação de como faremos a reposição desse período que estamos sem aula” (08/ABR/2020).
b. Dessa preocupação decorre que é preciso primeiramente um plano estratégico de acolhimento das famílias em situação vulnerável, em especial do ponto de vista da fome e de fonte de renda mínima. É preciso, portanto, agilizar a eficiência do Cartão merenda, desburocratizar essa ferramenta, pois muitos familiares estão com dificuldades de acessar. Ampliar em quantidade para mais famílias e em valor para as respectivas. 
c. Outra decorrência é a necessidade de um salário mínimo tal qual o necessário conforme o estudo do DIEESE, para todas as famílias vulneráveis, diferente dos míseros 600 reais que mal pagam uma cesta básica completa para uma família de 4 pessoas. Junto a isso também é preciso agilizar o pagamento, pois muitos liberados ainda não receberam.
6. A experiência que se desenha na Educação Infantil do município, já é de grande valia, se a considerarmos pelo viés formativo para as famílias, diferente do viés impositivo presente para o ensino fundamental.
7. Construir uma proposição pedagógica “de forma ampla e democrática com toda a rede” (08/ABR/2020). Em outras palavras, um plano estratégico que primeiro estruture como fazer essa construção, sendo o mesmo divulgado amplamente.
a. O plano deve conter prazos específicos relacionados na seguinte ordem:
i. Diagnóstico de formação dos professores com aptidão para o trato com as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIs);
ii. Diagnóstico de acesso e qualidade de acesso para os profissionais da rede;
iii. Diagnóstico preciso de acesso e qualidade de acesso dos estudantes 
iv. Seminários virtuais de proposição para construção de propostas pedagógicas, de modo a fortalecer um pensamento de rede, mas que permita a valorização de todo o corpo docente.
8. Concomitante a essa construção no campo pedagógico a PMF deveria:
a. Exigir, juntamente com outros munícipios e estados a estatização e a democratização total do acesso a internet, permitindo que as proposições pedagógicas tenham eficiência no sentido de chegarem ao estudante que precisa.
b. Enquanto o governo federal não avança nessa proposta, a PMF poderia comprar equipamentos de grande amplitude de compartilhamento de wi-fi, bem como instalar em pontos estratégicos da cidade de modo a ampliar o alcance para todos os munícipes e estudantes;
c. A PMF também, por meio da assistência social, deveria avaliar o que poderia ser realizado, de forma justa e democrática, para que em todas as residências houvesse pelo menos um equipamento eletrônico que permita o acesso à internet.
9. Concomitante também, já deveria ter sido elaborado pela PMF um plano estratégico de acompanhamento assistencial para as famílias vulneráveis, bem como ter aprovado um orçamento específico para auxiliar a população em suas necessidades básicas, como moradia digna, renda básica e, no caso, acesso a internet.
10. Também ao mesmo tempo, a PMF já deveria ter elaborado um plano de acompanhamento psicológico para toda a população, considerando especificidades, tais como organização familiar, cuidado com ações de rotina durante o isolamento, auxilio psicológico para não pressionar as famílias, estudantes e profissionais da educação, que por ventura estão assumindo atividades diferenciadas.
11. Nos apropriarmos criticamente dos documentos oficiais que tem sido elaborados, via governos, conselho nacional e municipal, para que nossa proposição pedagógica não seja enviesada por pressões governamentais, mas que sim pela garantia de algo que garanta o acesso universal para todos.
12. Uma primeira ação poderia ser uma aproximação FAMÍLIA-ESCOLA pelo contato virtual, de modo a levantar experiências de cuidado contra a pandemia realizado pelas famílias, no sentido de fazer da escola “virtual” um portal de compartilhamento de relatos exitosos de experiências de famílias e profissionais da educação no enfrentamento a pandemia;
13. Outra ação seria, a partir desses relatos, que os profissionais da educação estudassem formas de apoio frente as dificuldades, relacionando pedagogicamente a importância de conteúdos e apropriação científica para solução de problemas.
a. Compartilhamento de materiais, vídeos, áudios e demais experiências focadas na valorização do conhecimento científico seria de grande valia nesse momento, em especial para fortalecer a necessidade do isolamento social, o qual começa a ruir na consciência da população, em especial a partir de ações irresponsáveis de governantes em todas as esferas, federal, estadual e municipal.
2º Sobre o que NÃO fazer:
1. Apresentar uma solução para a educação que “ameaça a vida das crianças e de seus parentes. Prefeito quer que estes alunos frequentem a escola para assistir as aulas virtuais” (07/ABR/2020).
2. “crianças e adolescentes estão sendo incentivadas a sair de casa” (07/ABR/2020).
3. O CME, assim como eu, somos “contrário [s] a lógica impositiva de frequência e avaliação para os estudantes, uma vez que, independente da ideia de uma educação não presencial, a falta do professor no processo de ensino-aprendizagem precariza e, em se tratando do ensino fundamental, segrega e exclui muitos de nossos estudantes!” (08/ABR/2020)
4. “...a ideia de ensino virtual na própria escola o que dissolve o isolamento social e aumenta as chances de contágio da COVID-19”. (08/ABR/2020)
5. A portaria 156/2020 “...não foi construído de forma ampla e democrática com toda a rede.” (08/ABR/2020)
6. Diagnóstico frágil, a partir do SGE, sobre o acesso as famílias em relação a internet.
7. “...expor os estudantes sem acesso à internet ao contágio do coronavirus, devido ao seu deslocamento (sem transporte) e permanência na escola”. (08/ABR/2020)
8. “uma ferramenta que permitirá descontar de seu salário caso você não saiba fazer o que a secretaria ordenar”. (08/ABR/2020)
9. A UFSC e a UDESC “já se posicionaram afirmando a impossibilidade de EAD em tempos de pandemia, mas essa afirmativa técnico-científica não é válida para quem só enxerga o que se determina via Secretaria Municipal de Educação.” (08/ABR/2020)
10. Forçar “... nossos estudantes a uma situação de ensino insustentável e que gerará vários processos negativos na formação discente.” (08/ABR/2020)
11. Valer-se “de uma crise  para fortalecer apenas os seus [governantes e comissionados], jogando para o serviço público a ameaça de descontar salário em caso de descumprimento, bem como de desconto do vale alimentação tratando esse direito como se o mesmo fosse um mero favor.” (08/ABR/2020)
12. “Gean anunciou à abertura de alguns outros serviços não essenciais, expondo claramente sua prática de ser favorável a retomada da economia e não a preocupação em salvar vidas! Ou seja, ainda que mascarado, Gean escancara sua face perversa, politiqueira, descomprometida com a cidade e nosso povo” (07/ABR/2020). O detalhe é que ontem, dia 16/04 ele veio a público e anunciou a abertura do comércio a partir de segunda feira. Se naquele momento era preocupante, imagine agora, dez dias depois com o considerável aumento do contágio.
Concluindo, não sou o dono da verdade, muito menos alguém que está acima de alguém, mas reivindico que efetivamente consigamos dialogar, sem melindres, rechaçando o que pode colocar em risco a vida de qualquer um, e, a partir da valorização da vida, não do lucro, construirmos coletivamente estratégias que possam auxiliar nossa população a sair dessa crise com o menor prejuízo possível. Essa é, na minha opinião a MISSÃO DO SERVIÇO PÚBLICO MUNICIPAL. Se algumas das proposições parecem inalcançáveis, lembre-se que em períodos de crise o que parecia IMPOSSÍVEL torna-se INEVITÁVEL. O exemplo disso é alguém imaginar, em sã consciência, que algum dia o Governo Bolsonaro aprovaria uma lei de renda mínima para a população carente. E ainda, que esse valor seria de 600 reais, superior a ideia inicial de 200 reais proposta pelo governo. Para além de grupos de Whatsapp, é preciso qualificarmos nosso debate. Abraços fraternos.
Marcos Canguru. 18/04/2020.

POESIA - Vírus no Plural

Vírus no plural

Fonte Facebook


Eu quero ir embora,
Eu quero gritar,
Eu quero o fim da demora,
Eu quero chorar,

Quero esquecer,
Parar de lembrar,
Quero viver,
Desatinar...
Me tranquilizar...
Em meio a essa pandemia
Não tem hora não tem dia,
É respirar vendo o tempo passar...

Ah, o tempo...
Tempo de reeducar,
Para um outro querer,
Um outro pensar...

É tempo de viver juntos, mas separados,
De se unir, cada um na sua casa,
De valorizar antigos aglomerados em luta
Ocupando as ruas em brasa...

O tempo material da história
É definitivamente dialético!
Material, mas dialético.
Nesse confundir-se ao se esclarecer
Nesse morrer em vida
Nessa presente luta de classes
Por tanto intento escondida...

Alto lá, ninguém se move,
Lá vem o COVID-19.
Governos batem cabeça,
Pessoas suscitam descrença,
Enquanto ele corre...

Corre, voa e em gotículas se espalha
Como não o vemos pouco podemos fazer
E sem perceber ele se instala...

A ciência estuda e é atacada
Governantes oportunistas se aproveitam,
Elevando o senso comum, e arquitetando outra empreitada...

Educação a distância...
Professor em obsolescência programada,
Trabalhadores essenciais morrendo,
A população sendo enganada.

Enfim, vamos ao critério de verdade:
Há um vírus rondando por aí...
Crescendo junto a um vírus mais mortal...
Um vírus que existe há alguns séculos...
O vírus do Capital...
Marcos Canguru, Resistência, 16 de Abril de 2020.

SINDICAL - Análise da Portaria SME 156/2020 - Florianópolis

Imagem Ilustrativa do Diário Oficial



Atenção SERVIDORES E SERVIDORAS DO MAGISTÉRIO MUNICIPAL!
Não bastasse todos os problemas pelos quais a população está enfrentando, nós, servidoras e servidores públicos que atuamos em unidades educativas fomos surpreendidos na noite de hoje, dia 03 de abril pela portaria 156/2020. 
Em suas primeiras considerações, a portaria cita outra portaria, de número 1026/2020, publicada ontem, 02 de Abril e que estabelece o regime de teletrabalho <http://www.pmf.sc.gov.br/arquivos/diario/pdf/02_04_2020_22.37.30.be30339140652b136f8dd17da0b06c0c.pdf>. A portaria 1026/2020, é uma afronta aos servidores, pois permite que as chefias imediatas encaminhem para sua respectiva secretaria os nomes de quem não atender as metas estabelecidas/planejadas pela direção e equipe pedagógica, tendo o servidor desconto em folha, vejam:
Artigo 2º, § 3º “Na hipótese de não atendimento às metas estabelecidas com base no inciso IV, o Secretário fica autorizado a promover o desconto remuneratório proporcional.”
Voltando a portaria 156/2020:
Atendendo a reivindicação da categoria, essa portaria definiu a codificação mais apropriada para os servidores em isolamento social, que agora terão registrados o cód. 68 e não mais o que nos jogava para a ideia de “recesso escolar”, com o cód.76. Isso fica claro no artigo 1º. O detalhe é que esse código já existia, o que demonstra o despreparo da atual gestão.
Não obstante, vamos aos fatos expostos nos demais artigos:
O artigo 1º, convoca os servidores a partir de 01 de Abril, porém o decreto saiu hoje, dia 03. Isso significa que já temos dois dias de falta??
O Artigo 2º permite a convocação da chefia imediata, contudo não alerta para as especificidades de cada servidor, tais como relacionadas a forma de deslocamento para a unidade, se o servidor está em grupo de risco, se tem com quem deixar seus filhos etc.
Sobre o Artigo 3º, o foco está na bomba para os Diretores e diretoras...
o O item I está em contradição com a LDB, pois a mesma em seu artigo 13, afirma que é uma incumbência dos docentes “V - ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;”. COMO SE OS DIAS LETIVOS ESTÃO SUSPENSOS?! A suspensão está na legislação citada nas próprias “considerações” no início da portaria.
o O item II fala da construção de um ambiente virtual de aprendizagem. Eu pergunto, a Equipe Pedagógica tem formação para dominar essa ferramenta? E os professores e professoras? E os estudantes de comunidades vulneráveis, com pouco ou nenhum instrumento tecnológico para acessar? É louvável já haver algumas iniciativas individuais sendo colocadas em prática, mas para uma rede municipal de ensino há que se construir algo profissional e conectado com a comunidade de fato, não algo para manter as aparências.
o O item III adentra na especificidade do professor. Como dar conta desse planejamento em horário normal de trabalho, respeitando a portaria 1026/2020, sendo que muitos professores e professoras tem filhos, estão com eles em casa, os quais também necessitarão do notebook ou celular no respectivo horário para assistir sua aula etc., como resolver essa questão?
o O item IV, relacionado aos cuidados com a pandemia é válido, mas o problema é como fazer chegar à informação aos estudantes de forma mediada pelo professor. Já não há vasta informação sobre essa questão sendo divulgada diariamente em todos os meios eletrônicos e jornalísticos?
o O Item V relacionado a frequência e registro de conteúdo é em minha opinião, simplesmente impossível em nossa unidade educativa, dado a vulnerabilidade social de nossos estudantes. É uma medida maquiadora e enganadora, pois deixa isso claro ao afirmar servir “para fins de cumprimento do ano letivo de 2020”. ANO LETIVO? 
o O Item VI deveria ser tratado para fins de um elemento a mais, não ser critério de avaliação, pois sem acesso a plataforma muitos estudantes serão simplesmente excluídos do processo de ensino e aprendizagem. O fato é que o ensino aprendizagem já está sendo obliterado, mutilado com essa proposta.
o O Item VII, que aferirá a viabilidade ou não dos planejamentos das escolas, não informa prazos, muito menos dá segurança no que está sendo proposto. Com isso é a saúde mental de nossos profissionais que será ainda mais adoecida e ao fim de todo esse processo corremos o risco de termos mais profissionais afastados por licença para tratamento de saúde.
O Parágrafo 1º vai na mesma linha da análise do item VI acima, ou seja, a validação meritocrática dos estudantes, desconsiderando seus respectivos contextos sociais, uma afronta ao que dispõe o Plano Municipal de Educação e as diretrizes curriculares municipais no que concerne a Inclusão. E como fazer com os estudantes com deficiência/TEA? Eles não existem para esta portaria, será que é porque a ex-gerente de projetos inovadores, responsável pela Educação Especial em nosso município acabou de ser exonerada?
Em relação ao parágrafo 2º, penso que além das unidades que não tem Professor Auxiliar de Tecnologia, todas as unidades educativas deveriam solicitar “ao Departamento de Tecnologia Educacional a organização e manutenção dos seus ambientes virtuais de aprendizagem”, dando primeiramente formação específica para todos os profissionais do município, bem como mapeando as unidades que atendem crianças e adolescentes com alto nível de vulnerabilidade social para pensar o que é possível ser feito para somente a posteriori traçar estratégias que consigam ser cumpridas diante de tamanhas limitações de cada público. 
O Artigo 4º, voltado para a Educação Infantil, mantém o nível de ansiedade e desespero compartilhado com esse setor, pois coloca no colo da direção a responsabilidade, mas sem qualquer encaminhamento efetivo, a não ser manter o clima apreensivo.
O Artigo 5º volta a colocar a responsabilidade em nossos ombros (leiam a portaria 1026/2020), deixando subliminar que o diretor que não se curvar a essa política será responsabilizado, bem como o professor que não correr atrás terá desconto em folha! Assédio moral formal em tempos de pandemia, triste e revoltante!
O Artigo 6º, dos casos omissos, permite que tudo seja revisto, pois toda a situação é um caso omisso, não é mesmo?
A portaria finaliza afirmando entrar em vigor na data de hoje (03/04), contradizendo o que está no início de seu próprio texto... 
Por fim, se defendemos que algo seja produzido para os estudantes terem alguma atividade com conteúdo pedagógico, a mesma, para surtir efeito, deve ser implementada de forma profissional, bem como não leve em consideração questões como rendimento, frequência e avaliação, pois a saúde mental de toda a população mundial está abalada diante da pandemia, sendo assim é uma grande irresponsabilidade jogar nas costas de professores a solução para um problema que é real - o cancelamento das aulas devido ao isolamento social, mas que é secundário diante do risco de contágio e elevação do número de mortes de todo o povo.
Seguimos atentos e em luta para que em tempos de crise haja união para solução de todos os problemas, de todas as ordens, mas sem oportunismo e criação de novos problemas, tais como os apontados nesta portaria.
Marcos Canguru, membro da RESISTÊNCIA, professor da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis.