segunda-feira, 27 de abril de 2020

SINDICAL - O que você propõe? Em relação ao ensino não presencial de Florianópolis

No último dia 18 de Abril, após tomar conhecimento que muitos diretores e diretoras estavam contrariados devido as críticas que apontei aos mesmos, uma diretora me indagou a seguinte questão:
"Marcos, posso saber o que de fato vc pensa? Como devemos agir nesse momento tão difícil para todos??? Qual é a sua sugestão para as aulas??? Eu vejo vc falar tanto, mas fico pensando..m o que ele que??? Gostaria de saber..." Em resposta sistematizei o texto abaixo, já contendo elementos de solução apontados nos textos anteriores. Tenho percebido há algum tempo entre várias pessoas que há uma certa dificuldade de exercitar a reflexão e ler um texto longo por parte de algumas pessoas, algo não simplista que vá além... Talvez isso tenha também me motivado para o Blog, afinal é preciso registrar para não esquecer, em especial quando o conteúdo é complexo, como o enfrentamento a Pandemia por parte de profissionais da educação... O quê fazer?

Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento – Livraria ...
Imagem Ilustrativa do Livro Que Fazer de Lênin, publicado pela Editora Expressão Popular


Vou lhe responder em dois pontos os questionamentos:
Já expus várias proposições nos textos que publiquei anteriormente, por isso vou citar aqui novamente para tentar deixar mais explícito o entendimento, considerando apenas as duas últimas publicações. O que estiver entre aspas já foi escrito anteriormente, mas agradeço sua atenção para explicar melhor alguns pontos e avançar na proposição de outros:
1º Sobre o que fazer:
1. “...primeiro o foco é para a garantia da vida da população, depois o ano letivo” (08/ABR/2020).
2. “pela revogação imediata desta portaria” (07/ABR/2020).
3. O Conselho Municipal de Educação (CME), assim como eu somos “...a favor de atividades complementares” (08/ABR/2020).
4. Por isso, afirmei em 07 de Abril: “Nenhuma criança fora de casa, pelo isolamento social até o fim da pandemia, nenhum servidor ou servidora a menos!”
5. Preocupar-se primeiramente com:
a. “Desde o início da pandemia estamos apreensivos, pois não sabemos o tempo de duração do isolamento, se perderemos algum ente querido ou se contrairemos a COVID-19, como estão nossos estudantes que vivem em situação de vulnerabilidade social, se estão passando fome, se estão sofrendo violência devido ao ambiente precarizado, além é claro, da preocupação de como faremos a reposição desse período que estamos sem aula” (08/ABR/2020).
b. Dessa preocupação decorre que é preciso primeiramente um plano estratégico de acolhimento das famílias em situação vulnerável, em especial do ponto de vista da fome e de fonte de renda mínima. É preciso, portanto, agilizar a eficiência do Cartão merenda, desburocratizar essa ferramenta, pois muitos familiares estão com dificuldades de acessar. Ampliar em quantidade para mais famílias e em valor para as respectivas. 
c. Outra decorrência é a necessidade de um salário mínimo tal qual o necessário conforme o estudo do DIEESE, para todas as famílias vulneráveis, diferente dos míseros 600 reais que mal pagam uma cesta básica completa para uma família de 4 pessoas. Junto a isso também é preciso agilizar o pagamento, pois muitos liberados ainda não receberam.
6. A experiência que se desenha na Educação Infantil do município, já é de grande valia, se a considerarmos pelo viés formativo para as famílias, diferente do viés impositivo presente para o ensino fundamental.
7. Construir uma proposição pedagógica “de forma ampla e democrática com toda a rede” (08/ABR/2020). Em outras palavras, um plano estratégico que primeiro estruture como fazer essa construção, sendo o mesmo divulgado amplamente.
a. O plano deve conter prazos específicos relacionados na seguinte ordem:
i. Diagnóstico de formação dos professores com aptidão para o trato com as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIs);
ii. Diagnóstico de acesso e qualidade de acesso para os profissionais da rede;
iii. Diagnóstico preciso de acesso e qualidade de acesso dos estudantes 
iv. Seminários virtuais de proposição para construção de propostas pedagógicas, de modo a fortalecer um pensamento de rede, mas que permita a valorização de todo o corpo docente.
8. Concomitante a essa construção no campo pedagógico a PMF deveria:
a. Exigir, juntamente com outros munícipios e estados a estatização e a democratização total do acesso a internet, permitindo que as proposições pedagógicas tenham eficiência no sentido de chegarem ao estudante que precisa.
b. Enquanto o governo federal não avança nessa proposta, a PMF poderia comprar equipamentos de grande amplitude de compartilhamento de wi-fi, bem como instalar em pontos estratégicos da cidade de modo a ampliar o alcance para todos os munícipes e estudantes;
c. A PMF também, por meio da assistência social, deveria avaliar o que poderia ser realizado, de forma justa e democrática, para que em todas as residências houvesse pelo menos um equipamento eletrônico que permita o acesso à internet.
9. Concomitante também, já deveria ter sido elaborado pela PMF um plano estratégico de acompanhamento assistencial para as famílias vulneráveis, bem como ter aprovado um orçamento específico para auxiliar a população em suas necessidades básicas, como moradia digna, renda básica e, no caso, acesso a internet.
10. Também ao mesmo tempo, a PMF já deveria ter elaborado um plano de acompanhamento psicológico para toda a população, considerando especificidades, tais como organização familiar, cuidado com ações de rotina durante o isolamento, auxilio psicológico para não pressionar as famílias, estudantes e profissionais da educação, que por ventura estão assumindo atividades diferenciadas.
11. Nos apropriarmos criticamente dos documentos oficiais que tem sido elaborados, via governos, conselho nacional e municipal, para que nossa proposição pedagógica não seja enviesada por pressões governamentais, mas que sim pela garantia de algo que garanta o acesso universal para todos.
12. Uma primeira ação poderia ser uma aproximação FAMÍLIA-ESCOLA pelo contato virtual, de modo a levantar experiências de cuidado contra a pandemia realizado pelas famílias, no sentido de fazer da escola “virtual” um portal de compartilhamento de relatos exitosos de experiências de famílias e profissionais da educação no enfrentamento a pandemia;
13. Outra ação seria, a partir desses relatos, que os profissionais da educação estudassem formas de apoio frente as dificuldades, relacionando pedagogicamente a importância de conteúdos e apropriação científica para solução de problemas.
a. Compartilhamento de materiais, vídeos, áudios e demais experiências focadas na valorização do conhecimento científico seria de grande valia nesse momento, em especial para fortalecer a necessidade do isolamento social, o qual começa a ruir na consciência da população, em especial a partir de ações irresponsáveis de governantes em todas as esferas, federal, estadual e municipal.
2º Sobre o que NÃO fazer:
1. Apresentar uma solução para a educação que “ameaça a vida das crianças e de seus parentes. Prefeito quer que estes alunos frequentem a escola para assistir as aulas virtuais” (07/ABR/2020).
2. “crianças e adolescentes estão sendo incentivadas a sair de casa” (07/ABR/2020).
3. O CME, assim como eu, somos “contrário [s] a lógica impositiva de frequência e avaliação para os estudantes, uma vez que, independente da ideia de uma educação não presencial, a falta do professor no processo de ensino-aprendizagem precariza e, em se tratando do ensino fundamental, segrega e exclui muitos de nossos estudantes!” (08/ABR/2020)
4. “...a ideia de ensino virtual na própria escola o que dissolve o isolamento social e aumenta as chances de contágio da COVID-19”. (08/ABR/2020)
5. A portaria 156/2020 “...não foi construído de forma ampla e democrática com toda a rede.” (08/ABR/2020)
6. Diagnóstico frágil, a partir do SGE, sobre o acesso as famílias em relação a internet.
7. “...expor os estudantes sem acesso à internet ao contágio do coronavirus, devido ao seu deslocamento (sem transporte) e permanência na escola”. (08/ABR/2020)
8. “uma ferramenta que permitirá descontar de seu salário caso você não saiba fazer o que a secretaria ordenar”. (08/ABR/2020)
9. A UFSC e a UDESC “já se posicionaram afirmando a impossibilidade de EAD em tempos de pandemia, mas essa afirmativa técnico-científica não é válida para quem só enxerga o que se determina via Secretaria Municipal de Educação.” (08/ABR/2020)
10. Forçar “... nossos estudantes a uma situação de ensino insustentável e que gerará vários processos negativos na formação discente.” (08/ABR/2020)
11. Valer-se “de uma crise  para fortalecer apenas os seus [governantes e comissionados], jogando para o serviço público a ameaça de descontar salário em caso de descumprimento, bem como de desconto do vale alimentação tratando esse direito como se o mesmo fosse um mero favor.” (08/ABR/2020)
12. “Gean anunciou à abertura de alguns outros serviços não essenciais, expondo claramente sua prática de ser favorável a retomada da economia e não a preocupação em salvar vidas! Ou seja, ainda que mascarado, Gean escancara sua face perversa, politiqueira, descomprometida com a cidade e nosso povo” (07/ABR/2020). O detalhe é que ontem, dia 16/04 ele veio a público e anunciou a abertura do comércio a partir de segunda feira. Se naquele momento era preocupante, imagine agora, dez dias depois com o considerável aumento do contágio.
Concluindo, não sou o dono da verdade, muito menos alguém que está acima de alguém, mas reivindico que efetivamente consigamos dialogar, sem melindres, rechaçando o que pode colocar em risco a vida de qualquer um, e, a partir da valorização da vida, não do lucro, construirmos coletivamente estratégias que possam auxiliar nossa população a sair dessa crise com o menor prejuízo possível. Essa é, na minha opinião a MISSÃO DO SERVIÇO PÚBLICO MUNICIPAL. Se algumas das proposições parecem inalcançáveis, lembre-se que em períodos de crise o que parecia IMPOSSÍVEL torna-se INEVITÁVEL. O exemplo disso é alguém imaginar, em sã consciência, que algum dia o Governo Bolsonaro aprovaria uma lei de renda mínima para a população carente. E ainda, que esse valor seria de 600 reais, superior a ideia inicial de 200 reais proposta pelo governo. Para além de grupos de Whatsapp, é preciso qualificarmos nosso debate. Abraços fraternos.
Marcos Canguru. 18/04/2020.

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