sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Conquistar pelo estômago, pelo medo ou pela cara de pau? A sujeira de algumas das candidaturas a prefeitura de Florianópolis e a viabilidade alternativa pela esquerda.

Marcos Canguru Resistência Sindical, Florianópolis.

Faltando menos de 20 dias para fim do primeiro turno a prefeitura da capital, cada candidata e candidato começam a mostrar mais qual o nível de sua política e interesse em governar Florianópolis. Apesar da lei eleitoral proibir “qualquer material que proporcione vantagem ao eleitor”[1], a legislação não aborda a subjetividade do uso da máquina pública para campanha, muito menos proíbe a cara de pau de candidatos que disputam a qualquer custo o poder.

Imagem: Reprodução https://www.humorpolitico.com.br/

Gean, o grande mentiroso

A campanha de 2016, quando Gean venceu a disputa por uma minúscula diferença de pouco mais de 3 mil votos, ficou claro que estava disposto a vencer a qualquer custo. Foram tantas promessas de campanha que os outros candidatos a época chegaram a apelidá-lo de Gean “Lorota” em alusão ao seu sobrenome.

Gean foi em todos os debates, até no Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal, SINTRASEM, sempre reafirmando promessas de agradar a todos os interesses. Mas logo que ganhou uma de suas primeiras ações como prefeito foi encaminhar um conjunto de medidas para a cidade que ficou conhecido como o “Pacotão de Maldades do Gean”. As medidas incluíam enorme retirada de direitos do serviço público, carta branca para especulação imobiliária, destinação de recursos para programas ainda em fase de elaboração entre outros ataques que tanto mal fizeram e ainda fazem para nossa cidade.

Ampliou-se o sequestro do dinheiro público para empreiteiras e prestadores de serviço que “maquiaram” a cidade ao longo dos quatro anos de gestão, mas praticamente não possuem autoria de nenhuma das obras que disseram ter concluído.

A educação foi precarizada a níveis anteriores a década de 1990, quando não havia recursos didático-pedagógicos para trabalhar. A desculpa permanente de “problemas de licitação” empurrou várias ações e políticas sociais para o último ano de sua gestão, corroborando com sua estratégia política para se reeleger.

Agora, vendo que seu favoritismo derrete na medida em que sua propaganda é desmascarada pela realidade, Gean apela para o pior da política, a campanha subjetiva pelo uso da máquina pública. Não bastassem as denúncias relacionadas a campanha do “asfaltaço” serem caracterizadas como propaganda eleitoral, agora a prefeitura acena para as famílias das unidades educativas municipais e para os servidores e servidoras municipais.

Desde o início da pandemia várias famílias têm sofrido com a falta de alimentação para seus filhos estudantes das escolas e núcleos de educação infantil municipais (NEIM’s). Gean anunciou um cartão merenda que logo após o início da implementação foi desmascarado por se tratar de empresa envolvida até o pescoço com casos de corrupção.

As famílias seguiram sofrendo com a falta de alimentos enquanto Gean angariava doações da iniciativa privada para fornecer as famílias e almejar lucrar politicamente. Mas o fato é que o envio de cestas básicas não era regular e muita gente que dependia da alimentação da escola para seus filhos ficou refém dessa má gestão que incluiu, com o passar do tempo, kits de alimentos comprados como merenda escolar. Ao mesmo tempo questionávamos, sem resposta, para onde estava sendo direcionada as verbas para compra de todo o conjunto da alimentação escolar, uma vez que estudantes estavam em isolamento social. Faltando menos de um mês para as eleições, as direções das escolas e NEIM’s receberam, além dos kits de alimentos não perecíveis, alimentos de Hortifruti e carne, os quais tem sido distribuídos nesta última semana. Não há qualquer explicação do porquê esses alimentos só estão sendo entregues agora, nem se continuarão sendo entregues após a eleição. Já há relatos até que hortifruti foram entregues em estado de decomposição e não foram aproveitados em sua totalidade pelas famílias.

Gean, portanto, apela para o estômago do eleitor, que não pode cair nesse canto de sereia, pois até dias antes sobravam ações de solidariedade entre moradores e inclusive profissionais da educação para atender com alimentação as famílias mais necessitadas, doando de seus próprios recursos financeiros para situação não piorar mais.

O candidato que já pode ser alcunhado até como Loki (deus da mentira) aprontou mais uma. Abandonou o discurso de serviço público eficiente, no qual foram cortados todos os pontos facultativos nos anos anteriores, para agora decretar ponto facultativo no dia do servidor público, próximo 28 de outubro. Mas os servidores e servidoras municipais nunca caíram em suas lorotas, é só lembrarmos do pacotão de maldades, e do recém confisco de nosso salário em 3% no mês passado.

A mentira é tamanha, que a campanha de Gean tornou-se meme na internet, ironizando que ele fez obra de tudo quanto é tipo de coisa. Mas a realidade é que vemos sua base na câmara de vereadores aprovando mais recursos para compra de asfalto enquanto não discutem nada objetivamente para fortalecer o combate a pandemia.

Gean segue sua propaganda mostrando o arco-íris belo de sua cidade imaginária enquanto joga nas costas da população a responsabilidade para o recente aumento no número de contaminados em nossa cidade, que representa um quarto de todo o contágio ativo de Santa Catarina. Retornamos ao estado de ocupação máxima em algumas UTIs da capital e o prefeito sequer se pronuncia sobre a questão neste momento tão delicado.

Um político manchado por falcatruas, preso em operação da polícia federal, que pintam uma cidade que só existe na campanha eleitoral não pode seguir mais quatro anos de desmonte de nossa cidade! Gean saiu do partido MDB com a cara de pau de afirmar não se associar a corrupção e filiou-se num partido histórico relacionado a corrupção que é o DEM, antigo PFL. Esse é o partido que de fato governa o país, pois possui a presidência do Senado e da Câmara de Deputados, o que lhe permite escolher quais projetos de leis devem ou não tramitar e ir a votação.

Foi com Maia na presidência da Câmara que se votou a PEC da Morte, a EC 95, do teto de gastos, que têm paralisado nosso país! Foi das mãos de Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia que o projeto da Reforma da Previdência foi aprovado, acabando com a aposentadoria da classe trabalhadora. É pelas mãos sujas de sangue que este partido com seus representantes pretende aprovar a Reforma Administrativa, a PEC 32, que acabará com todo o serviço público e mudará a concepção de Estado promotor de políticas públicas para o Estado-Empresa prestador de serviços.

Gean e seus cabos eleitorais já vem colocando em prática essa nefasta política, por isso não podem continuar!

Sobre uma mulher que é uma vergonha para as mulheres.

Em meados da década de noventa Florianópolis passava por profundas transformações em razão do governo de frente popular que construiu as bases para valorização da cidade e dos cidadãos para além de interesses privados. Enquanto o Brasil enfrentava crises econômicas o governo da época promovia orçamento participativo e dialogava com toda a sociedade o uso da máquina pública. Aprovação do Plano de carreira no serviço público, ampliação da democracia escolar com a escolha para direção em todas as unidades educativas, criação de linhas de transporte coletivo para chegar até as periferias e morros foram apenas alguns dos feitos da referida gestão que, apesar dos avanços, não resistiu as propagandas eleitoreiras da oligárquica família Amin, a qual, por meio de sua representante mulher, foi eleita para governar a cidade na segunda metade da década.

Angela Amin desde o início preocupou-se mais em desfazer os feitos da gestão anterior do que efetivamente fazer mais pela cidade. Enquanto voava na onda da política de diminuição do estado, ancorada no governo federal de FHC, atendeu apenas a interesses do grande empresariado, construindo viadutos mal planejados, mas que saiam bem na foto para campanhas posteriores. Destaque para políticas aprovadas em âmbito nacional que apenas foram seguidas no respectivo governo, porém de forma atropelada e precária, como o caso das casas populares. Até hoje existem famílias dessas moradias que não tem sua regularização fundiária, além de serem cobradas taxas como IPTU para esta população, no descumprimento de promessas de campanha.

Ainda assim, a candidata do partido com mais condenados na operação Lava Jato, tem a cara de pau de se ancorar em Bolsonaro para se autopromover. Vamos lembrar que o próprio disse ter acabado com a Lava Jato, pois seu governo “não tem corrupção”, mas faz acordos a todo momento com o centrão, capitaneado pelo partido de Angela e por atuação de sua família nas três esferas, com o maridão fechando acordos no senado, ela na câmara de deputados e o filho na assembleia legislativa de nosso estado.

Pela política do medo, seus cabos eleitorais têm ameaçado outros candidatos, além de fazer uso da narrativa da lei e da ordem nazifascista do Bolsonarismo. Angela Amin não engana mais ninguém, por isso apela para o apoio da extrema direita em sua chapa, mas sendo totalmente incoerente no seu rol de apoio, com o PSDB na vice e apoio de Dário Berger, o lixo mdbista que agora defende a lógica conservadora da família... deles é claro!

A candidata possui um financiamento massivo nas redes sociais o que inclusive já gerou reclamação de vários usuários das plataformas que tem tido seus perfis invadidos com propagandas de sua chapa.

Votar nessa oligarquia é manter o empresariado sujo no poder, seguir com o desmonte do serviço público e a retirada de direitos e liberdades democráticas, basta lembrar os estudantes presos e feridos durante as manifestações do Movimento Passe Livre na sua gestão, seguindo na mesma toada pelo governo Dário Berger nos anos seguintes... 

Por fim, mas não menos importante, é a bandeira dos movimentos populares pela ampliação da representatividade das mulheres na política. Mas representatividade com mulheres emancipadas, feministas e classistas, que pensem o feminismo para os 99% da população, não para o um 1%, na qual sua própria família Amin é uma das oligarquias beneficiadas! Angela Amin é uma vergonha para as mulheres trabalhadoras!

Avançar na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres passa pela superação do machismo e o racismo estrutural, bem como a denúncia e o combate as mulheres que crescem politicamente apenas para manter o status quo, desmoralizando a causa da justiça social para todas, todos e todes!

Para superar a dupla cara de pau, a alternativa é pela Esquerda!

O troca-troca dos partidos que não tem base ideológica, apenas disputam o poder público tratando-o como uma casa de apostas é a marca das candidaturas de Gean e Angela. O atual prefeito montou sua coligação com o principal aliado do partido da Angela na eleição passada, o PSD, que governou a cidade na gestão Cesar Sousa junto com o filho da família Amin. De forma recíproca, Angela tem em sua chapa o atual vice prefeito do governo Gean, João Batista, do PSDB. O que fica claro, portanto, é que não há regra na disputa entre essas duas candidaturas, mas sim a noção de quem dá mais leva...

A opção por não sabatinar o outro candidato da direita, Pedrão, deu-se por sua falta de solidez de campanha. O egocentrismo desse candidato, mais votado para vereador na eleição passada, subiu a cabeça para que disputasse a prefeitura, mas, para isso, precisou romper com a oligarquia dos Amin. Após o rompimento, Pedrão se aproximou do bolsonarismo raiz, pela figura do senador Jorginho Melo e agora tenta se desvincular como sendo um candidato que está aberto para todos, quando na verdade é só mais um candidato cafetão no pleito municipal.

São, portanto, três candidaturas que só representam o velho, o autoritário, o cara de pau, o antidemocrático e burguês modo de gerir uma cidade. Mas, se em épocas passadas a divisão da esquerda impedia uma disputa com chances de ganhar as eleições municipais em Florianópolis, desta vez é esse racha na direita tradicional da cidade que pode levar uma candidatura viável para o segundo turno. Agora é Elson!

Contra a cara de pau dos candidatos da direita, a chapa Elson e Lino representam uma construção que começou a ser costurada pela esquerda da cidade logo após a eleição de Bolsonaro em 2018. De lá para cá muitos foram os debates e o resultado é um programa alternativo e viável para cidade. Aqui vale a lembrança para leitura do artigo “Florianópolis: Frente de Esquerda encabeçada pelo PSOL ameaça direita na capital do estado mais bolsonarista do Brasil”[2], o qual possui dados muito importantes que explicitam a viabilidade da esquerda voltar a prefeitura de Florianópolis.

As trabalhadoras e trabalhadores de Florianópolis tem a chance de votar em um Professor para governar a cidade, recuperando, ao menos a nível municipal, as perdas de não termos conseguido eleger um professor para presidência em 2018. A musculatura da candidatura de Elson aproximou os partidos de esquerda e de centro-esquerda, numa frente popular que tem alimentando a esperança dos que almejam dias melhores, em especial na capital do estado que mais votou na extrema direita no último período.

Mais de uma centena de candidatos a vereador, construindo em unidade a chapa Elson e Lino, perspectivam não apenas ganhar a eleição para prefeito, mas eleger a maioria das cadeiras para vereador e vereadora pela esquerda em nossa cidade. A oportunidade se aponta no horizonte e é preciso mais do que nunca o engajamento de todos, todas e todes, para fazer de fato uma Floripa de toda nossa gente! Vote Elson 50!



[1] https://esquerdaonline.com.br/2020/10/25/florianopolis-frente-de-esquerda-encabecada-pelo-psol-que-ameaca-direita-na-capital-do-estado-mais-bolsonarista-do-brasil/



[2] https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2019/resolucao-no-23-610-de-18-de-dezembro-de-2019 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Quando a palavra autonomia vira sinônimo de “se virem” na educação em Santa Catarina.

 

Marcos Canguru. Resistência Florianópolis.

Uma semana movimentada nos diálogos sobre o retorno às aulas no estado está chegando ao fim escancarando a velha política e o descaso com a vida de estudantes da rede pública estadual e, em especial, da rede municipal de Florianópolis.

Foto da Capa do Documento Publicado pela Prefeitura de Florianópolis.

O Governo Moisés, cedendo as pressões dos tubarões da educação privada [1] na esperança de não ser impedido pela assembleia legislativa, publicou a portaria 778, a qual muda a regra para o retorno as aulas presenciais, considerando possível retornar com apoio pedagógico no nível “grave” de contágio da COVID-19 e retornar com força total no nível “alto”. É visível para esse desgoverno eleito na onda bolsonarista que a permanência na cadeira de governador é mais importante que a vida das comunidades educativas do estado.

Vale o destaque para o fato que as unidades educativas em todo o estado foram fechadas na segunda metade de março quando sequer havia caso confirmado entre estudantes das redes de ensino. Vale lembrar também que em março a ganância politiqueira ainda não estava em jogo, ou seja, não havia processo de impeachment oficializado contra o Governador e os Prefeitos em geral estavam mais preocupados em seguir o exemplo da Europa com o isolamento social, preparando o terreno para futuras eleições municipais.

Pois bem, nessa correlação de forças chegamos ao momento atual, no qual temos quase 23 mil pessoas contaminadas e quase 3 mil mortes em Santa Catarina. A semana que termina ainda registrou um aumento no número de casos ativos nas regiões da Grande Florianópolis e do Alto Uruguai catarinense em relação a semana passada[2].

Mas nada disso serviu de base para que o governo do estado que agora flexibiliza as regras de retorno as aulas e joga para população a decisão de enviar ou não seus filhos e filhas para escola. Na portaria publicada, vemos um verdadeiro atestado de risco de vida a ser “contratado” pelas famílias responsáveis pelos estudantes, ou seja, “Os responsáveis legais do estudante podem optar pela continuidade no regime de atividades não presenciais, mediante a assinatura de termo de responsabilidade junto à instituição de ensino na qual o estudante está matriculado.”[3]

Antes da pandemia não cabia as famílias dos estudantes de 4 a 17 anos a decisão de mandar ou não seus filhos para escola, sendo inclusive denunciados ao conselho tutelar quando a ocorrência de faltas sem justificativas ultrapasse cinco dias consecutivos. Agora o governo estadual e o municipal jogam nas costas das famílias a “opção” de colocarem vidas em risco, numa total incoerência sobre o papel do estado. As leis não podem ser produzidas pela conveniência do momento para os governos de plantão, mas sim para garantir permanentemente a vida digna da sociedade!

Não bastasse tamanho desprezo e falta de responsabilidade do estado em cumprir sua função de assegurar segurança sanitária para toda população, o governo municipal de Florianópolis, preocupado com a eleição, “optou” por lavar as mãos em relação a situação, jogando para cada diretor e diretora das unidades educativas a decisão de reabrirem ou não para o retorno.

Logo após uma assembleia vitoriosa da categoria, com participação massiva e decisão de mais de 90% pelo não retorno das aulas municipais em Florianópolis, o comitê municipal divulgou sua posição jogando para cada escola decidir seu futuro, referendando uma falsa ideia de que há segurança para o retorno.

Usando de clara má fé com o uso da palavra “autonomia”, o governo Gean determinou um grande “se virem” para que as escolas façam o papel de lavar a roupa suja e resistir ou ceder as pressões para o retorno. A própria LDBEN, lei máxima da educação nacional, estabelece que cabe aos sistemas de ensino assegurar progressivos graus de autonomia pedagógica[4]. Ou seja, é papel do Conselho Municipal de Educação, agente institucional regulador do Sistema Municipal de Ensino estabelecer esse “grau de autonomia”. O termo “grau de autonomia” é horrível sem dúvida, mas neste momento serve para afirmar que não significa “se virem” em relação ao risco das vidas escolares sem o devido controle da pandemia.


    Só há um caminho: A LUTA!

Em verdade, os sinônimos da palavra “autonomia” são independência, liberdade, autogoverno, autossuficiência, emancipação e soberania[5].

Nesse sentido as unidades educativas precisam lutar por independência política frente a governos e patrões que tem precarizado a educação pública!

Lutamos a cada dia, nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, ainda que o Governo Gean não considere esse artigo da LDBEN[6].

Nossa luta é por um autogoverno na esfera federal, estadual e municipal dos trabalhadores, no qual a garantia de uma educação pública e de qualidade não seja mera frase de campanha política durante a eleição, mas que efetivamente se concretize, valorizando os profissionais da educação em todas as dimensões, bem como fortalecendo políticas públicas para o estabelecimento de relações humanas de igualdade. Somente assim teremos uma escola e uma sociedade autossuficiente, emancipada e soberana, para além dos limites civilizatórios capital.

A política suja do “se virem” não serve e nem servirá para as comunidades escolares que efetivamente zelam pela VIDA. Seguir em resistência é o que nos resta, ombro a ombro com todo o serviço municipal e em #GREVEpelaVIDA se for preciso.



[1] https://esquerdaonline.com.br/colunistas/tubaroes-da-educacao/

[2] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2020/10/08/sc-tem-12-regioes-em-situacao-grave-para-covid-19-aponta-matriz-de-risco.ghtml

[3] https://www.sc.gov.br/images/Portaria_Conjunta_SES_SED_778_-_retorno_das_atividades_escolares.pdf

[4] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

[5] https://www.sinonimos.com.br/autonomia

[6] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Quando a música aciona o gatilho do passado... Reflexões de um capoeira adormecido.

 

 As vezes um conjunto de fatos ocorridos em nossas vidas se resumem a uma música, ou melhor, a um conjunto de músicas...

Passado um tempo, esses registros, quando aparecem, provocam profundas e emotivas reações... Remontam um passado e mexem com nosso presente...



Assim foi comigo nesta semana. Uma grande amiga, a Professora Cris, companheira de um amante de acervos culturais, o Roque, possuem um Sebo, o Sebo Eureka. Ela separou um material para mim afirmando que eu gostaria do mesmo. Tratava-se de alguns livros e este CD que coloquei no início da reflexão. Fiquei feliz com o material e ao entrar no carro rapidamente coloquei o CD no player...

É inexplicável como as coisas acontecem em nossa vida. Bastou o berimbau e o atabaque começarem a tocar na música e minha memória foi para 1997, quando comecei com a prática da capoeira. Na medida que a música tocava minha imaginação me levou para o Barracão da Vila Verde, local onde eu aprendi a ser uma pessoa muito mais feliz!

Na segunda metade da década de 1990 eu, com dinheiro do emprego de auxiliar de padeiro, comprei um “rádio toca fita” com o qual curtia metade das músicas deste CD, geralmente quando acordava antes de ir para o trabalho, mas principalmente quando ia dormir, na fria e bela Curitiba, minha cidade natal.

Lembrei de minha mãe chamando minha atenção dizendo “Abaixe essa goteira!”, jeito com o qual chamava o som que ouvia do quarto, mesmo com a porta fechada, quando eu estava escutando as músicas de capoeira.

Eu só ouvia metade das músicas porque quando gravei o cd do meu amigo “Cabeção” minha fita não coube todas as músicas e foi assim que iniciei minha apreciação pela musicalidade da capoeira... Este foi o segundo som que gravei para ouvir. O primeiro foi também do Mestre Suassuna, o primeiro volume desta coletânea e o terceiro foi o cd “Muzenza Vol.3”. Pelo menos nos seis primeiros meses de prática da capoeira era somente o som das fitas destes álbuns que tocavam em minha memória...

No caminho pra casa, enquanto ouvia o CD, lembrei de pessoas que por um tempo foram como uma verdadeira família, como a primeira galera que treinou no barracão, como o Janjão, o Raul, a Angela, de Menor e de Maior, o Chocolate, o Vandinho, a Soraia, Perereca e tantos outros. Depois veio a aproximação de pessoas que passaram a fazer parte pra sempre em meu caráter, como o Maisena, o Gajézinho, o Denis, a Mana, o Batata, a Lilica, a Gislaine, a Dayane, o Neyzinho, o Sonic, o Papagaio, a Bárbara, entre outros que certamente minha cabeça falha pode falhar devido ao tempo...

Mas deixei um momento especial para falar de meu mestre, o senhor Ronaldo da Silva, conhecido como Mineiro ou o “Abraão”...

A capoeira iniciou como uma brincadeira adolescente, mas que rapidamente ganhou uma dimensão ampla em minha vida. O sofrimento adolescente ficou em evidência no início, especialmente porque a roda de amigos do boqueirão reproduzia o preconceito e a discriminação, pelo fato dos que conseguiam realizar mais movimentos de capoeira em sobreposição aos que conseguiam menos, como eu, um adolescente com sobrepeso e pouca habilidade corporal.

Quando a capoeira começou a ser ensinada na escola, pelo então “Instrutor” Mineiro, encontrei alguém que não me excluiu pela dificuldade, mas que me acolheu e buscou potencializar o que eu poderia fazer de melhor... Junto com o “Barbacena”, o "Rambo", o "Cavalo Doido e o “Pirata”, Mineiro sempre dizia que pra ser bom capoeira precisamos ir além do local onde treinávamos, o que significava dizer que deveríamos acompanha-lo nos demais locais onde ele dava aulas.

A primeira vez que cheguei no Barracão da Vila Verde, encontrei um lugar de refúgio, um quilombo da vida moderna, um lugar onde não importava a origem, mas sim como poderíamos somar nossas forças para ritualizar a prática da capoeira e assim nos confraternizarmos...

Lembro de sairmos do barracão e irmos para casa do Gajé, onde seu Zé e dona Maria, pais do Gajé e da Mana nos acolhiam, faziam um panelaço de aipim com mortadela... Como a música sempre esteve conectada com momentos de comida... Isso quando não íamos para casa do Batata ou do Maisena e sempre éramos recebidos de braços abertos e mesa recheada de comida gostosa, feita com muito amor e carinho...

O Samba da Roda deste CD me fez lembrar das rodas de domingo pela manhã, quando os meninos, por vergonha em sambar, corriam para os instrumentos para cantar a música "Baiana me leva pro samba", quando na verdade não queriam “ir para o samba”... Lembrei da Sereia, uma grande mulher da vila que tinha um cabelo longo e ao sambar chamava a atenção de todos que passavam pela roda...

Me lembro de passar a semana ouvindo as músicas para decorar e cantar nas rodas de sábado, as que mais fizeram sucesso no barracão. Foram muitos encontros, muitos momentos intensos, as vezes intensos até demais... As vezes o peso dessa intensidade gerava conflitos, em especial de capoeiras que vinham de fora, de outros grupos e ao chegar na roda do barracão não encontravam eco para seu ímpeto competitivo. Isso porque nosso grupo era o Roda Livre, e o simbolismo da capoeira que jogávamos se explicava e se explica até hoje pelo próprio nome. Nunca tivemos por objetivo competir ou mesmo subjugar o outro.

Se assim o fosse certamente eu não teria seguido na capoeiragem, muito menos me tornado professor de educação física. Mineiro nos tratava com igualdade, mas considerava a singularidade de cada um de nós. Muitos passaram pelo barracão... as vezes eu queria que aquele tempo não tivesse acabado...

Ouvir este CD me fez lembrar da positividade da família da capoeira viva em meu coração até os dias de hoje, mas também me deixou um pouco triste, pois ao me reconhecer nos dias de hoje, sinto que esse tempo não volta mais... Mas talvez... talvez outros barracões seguem sendo criados em outros cantos, em outras cidades, a partir do coração de cada dos que de fato se construíram como família Roda Livre.

Sei que meu mestre mantém essa semente em sua prática pedagógica como professor até os dias de hoje. E muitos outros desta família seguem com essa semente no seu seio familiar, no seu ambiente de trabalho, enfim, lembrando de outra frase que a Professora Cris certa vez me ensinou, “Florindo onde a vida os plantou”...

Minha eterna gratidão a família Roda Livre, que hoje se mistura com a família Doniciana, com a saudade da família do Morro do Quilombo, da casa dos capoeiras no pantanal, do movimento estudantil, bem como da atual família sindical e consanguínea no aririú da formiga... Eu, um “bom cordeiro” além da saudade que sinto de toda minha família, mãe, pai, irmãos e irmãs, carrego a certeza de que não estou só, que não estamos sós, que somos instantes e desses instantes construímos nosso presente, como o Canguru que sabe se refugiar, mas também ser refúgio.

Repetindo a frase proferida quando de minha formatura na capoeiragem, em 30 de Agosto de 2002, se querem saber o tamanho da minha felicidade, contem quantos amigos eu tenho.

Obrigado Cris!   

Nada melhor que registrar algumas fotos que remontam esse passado ao som de Mestre Suassuna...










 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

E se Paulo Freire fosse Professor da Rede Municipal de Florianópolis nesse tempo de Pandemia?

Por Marcos Canguru.

❓   ❓   ❓

Fonte da Imagem: Revista Educação

Todos falam em Paulo Freire, alguns poucos de forma contrária e muitos outros reivindicam seu legado, interpretando de tantas formas sua obra que por certo esse grande expoente da educação brasileira pode estar sendo vítima de falsários, demagogos e outros adjetivos não possíveis de explicitar para não perdermos nossa posição de professor-educador. Mas, se tantos o usam, imagine só se ele estivesse vivo, contratado como professor substituto na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis? Aos curiosos e curiosas, segue mais uma crônica da vida real. Qualquer semelhança não será mera coincidência...

As relações homens-mundo na educação municipal

Estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no ato em defesa da educação – Agosto de 2019

Pois bem, estamos em 2019, e Paulo Freire, com todo acúmulo que tem, resolveu fazer concurso público para professor em Florianópolis, utilizando-se para tal de vários diplomas de Doutor Honoris Causa em educação ganhos nas mais variadas universidades mundo afora. Obviamente que ele passou e resolveu sair do bairro de Casa Amarela, no Recife, para instalar-se no bairro Chico Mendes, em Florianópolis. Percebeu que o edital de chamamento dos concursados possuía equívocos primários, como o cálculo para dar conta dos prazos legais, deixando os aprovados sem possibilidade de assumirem logo no início do ano letivo.

Mas tudo bem, dialógico como é, Paulo se inscreveu no processo seletivo para ACT, o famoso substituto, para não ficar desempregado até que fosse chamado no concurso de efetivação. Não que ele precisasse disso economicamente, mas queria de fato se familiarizar com os círculos de cultura que permeiam a categoria profissional da educação de Florianópolis. Escolheu uma vaga de substituto com prazo término no início de maio, na expectativa de ser chamado até a data. Ledo engano...

A primeira lição que Paulo teve, quando começou a circular na rede de educação de Florianópolis em 2020, é que a secretaria municipal de educação (SME) utiliza muito de suas “frases de efeito” para capitular posições de legitimidade com os professores em geral, mas não traduz a intencionalidade destas frases em sua prática de gestão. Paulo percebeu o pouco compromisso com a transparência por parte da governo, algo completamente diferente do que foi sua gestão como Secretário de Educação da cidade de São Paulo, décadas antes, durante o belíssimo governo Erundina. 

A segunda lição, foi quando Paulo recebeu um panfleto do sindicato, o SINTRASEM, chamando para uma assembleia de todo o serviço municipal, ainda em fevereiro. Paulo ficou admirado com a assembleia, pois percebeu que além do pessoal da educação havia representação de todos os setores do serviço municipal de Florianópolis. Ficou esperançoso ao perceber a qualidade dos debates e embates dos servidores e servidoras municipais, respeitando o processo democrático-participativo e vivendo, na prática social, muitos dos seus ensinamentos.

Apesar de alegre com essa organização, Paulo ficou indignado com a quantidade de escolas e núcleos de educação infantil precários na cidade, enquanto o secretário verbalizava estar atendendo a todos os problemas da educação. Paulo pensou consigo mesmo: um texto sem um contexto gera um pretexto... um discurso da prefeitura, sem materialidade no real, só serve para enganar a população...

Quando Paulo teve acesso ao seu contracheque a pedagogia da indignação ganhou forma. Ele recebeu um salário correspondente como título de doutor, mas seus pares, que só possuíam graduação, receberam um valor abaixo da lei do piso nacional do magistério. Paulo entrou em contato com o Sintrasem e foi esclarecido que essa luta é antiga, já há bastante tempo luta-se para que o piso seja pago de forma proporcional para toda a categoria, mas o governo Gean conseguiu piorar isso, não pagando a lei do piso nem para o graduado em início de tabela.

Mas Paulo sempre foi um otimista, de modo que as situações problemas identificados poderiam sim tornarem-se inéditos viáveis desde que todos valorizassem a educação pública de fato, para além de discursos vagos. Alguns desses inéditos viáveis ganharam forma com a aprovação da pauta de reivindicações da data-base em assembleia por todo serviço municipal, deliberada democraticamente e com grande representatividade da base.

Nas reuniões de sua escola, na comunidade Chico Mendes, Paulo vislumbrou outros inéditos viáveis, e através de uma pedagogia da esperança, observou o cuidado de seus companheiros e companheiras de trabalho com os estudantes, seus modos de vida, suas condições de oprimidos. Isso permitiu que ele se visse num tempo que passou, lá em Angicos[1], quando ensinou adultos a lerem num curto espaço de tempo.

No seu trabalho em Florianópolis Paulo pode retomar seu método, compartilhando e sendo ouvido pelos seus pares, mas de forma crítica e consciente, alicerçada no movimento do real, sem idolatria. Todos sabiam que ele só ficaria na escola até maio, depois assumiria como efetivo.

 O advento da pandemia e seus impactos na educação como prática da liberdade


Fonte da Imagem: Nova Escola

Desde o dia 16 de março a educação no município de Florianópolis está suspensa, permanecendo ativa apenas no formato virtual, pela plataforma paga da Google, ou impressa, tendo o familiar a responsabilidade de buscar as atividades na escola.

Essa suspensão foi acertada, porém trouxe muitas dúvidas para todos, inclusive para Paulo. Sempre coerente na valorização dos saberes, em especial o científico, ele seguiu as instruções e se colocou a pensar sobre que formas poderiam ser elaboradas para que a educação não ficasse a mercê do isolamento social, mas assumisse um papel ativo e protagonista, como é de sua natureza para transformação da sociedade.

A liberdade autoral dos profissionais foi uma primeira preocupação de Paulo, que buscou dialogar com setores da secretaria de educação, mas não obteve retorno. Em seguida ele soube que algumas cidades de Santa Catarina, como Joinville e Blumenau, aprovaram resoluções em seus conselhos municipais sobre a educação durante a pandemia, mas sem qualquer diálogo democrático com os atores da educação, como profissionais, estudantes e responsáveis. Foi então que recorreu ao Conselho Municipal de Educação de Florianópolis (CME), onde lhe foi sugerido participar de uma das reuniões que estavam sendo elaboradas com toda a sociedade sobre o tema.

Paulo, consciente que o diálogo começa na busca do conteúdo programático, identificou os limites do CME, pois dentro dele havia tanto representantes dos oprimidos, como também dos opressores. Não criou ilusão e buscou acompanhar mais de perto os encaminhamentos de sua unidade educativa, bem como de toda sua categoria por meio do Sintrasem.

Nesse caminhar Paulo se deparou com a angústia dos profissionais que assim como ele, poderiam perder seus empregos temporários por não haver qualquer política pública de proteção nesse momento. Mas se indignou quando viu a SME e o próprio prefeito usando a angústia dos trabalhadores como moeda de troca para aprovação de uma lei que manteria alguns profissionais empregados (não todos), mas sem qualquer diálogo democrático-participativo com a sociedade.

A indignação não foi maior porque de fato os profissionais contratados nas ditas “classes vagas”, ou seja, que não havia já um professor titular na vaga, permanecem empregados durante a pandemia. Mas não era o caso dele. Paulo assumiu uma vaga no lugar de um profissional que havia entrado em “licença prêmio”, um direito do magistério municipal coerente e necessário, haja vista que os trabalhadores do serviço público não possuem fundo de garantia (FGTS), por isso quando saem o que recebem é apenas o referente a conquista destas licenças, como prêmio por cinco anos de trabalho ininterruptos, servindo a população de Florianópolis. O detalhe é que esse direito também vem sendo retirado e sua forma de benefício já não é a mesma devido a ingerência do governo Gean.

O contrato dele terminou antes da primeira quinzena de maio. Foi um escândalo mundo a fora... Jornais noticiavam: “Educador Paulo Freire é mais um número na estatística de desempregados”; “Cidade escolhida por Paulo Freire para desenvolver seu trabalho o trata com desprezo e encerra seu contrato de professor durante a pandemia”; “O patrono da educação brasileira é desvalorizado em seu próprio país! Florianópolis deixa de ser o exemplo de educação de qualidade ao demitir profissionais durante a pandemia”.

Com tantos holofotes mundiais para Florianópolis o prefeito e o secretário tentaram justificar o injustificável. Tentaram defender o indefensável. Desesperados, chamaram Paulo no gabinete da SME e lhe ofereceram uma vaga em outra unidade educativa, com a condição de que ele valorizasse a gestão municipal atual e abafasse as críticas mundiais.

Paulo se viu em situação parecida como contada no livro medo e ousadia. Se ele aceitasse, teria seu emprego de volta, mas renunciaria a sua prática social. Se ele negasse, continuaria sendo pressionado como figura pública e talvez isso fosse bastante arriscado, dada a sua idade avançada, quase centenária, ainda que em qualificada atividade.

Mas a verdade é que Paulo nem pensou duas vezes, disse não a proposta e exigiu que todos os profissionais desempregados deveriam ter seus contratos renovados até o fim da pandemia, pois com as escolas fechadas não há condições de sobreviver como professor.

Paulo reviveu o sentido da educação como prática da liberdade, solicitando que sua obra não fosse mais utilizada nos materiais da SME, muito menos nos discursos do secretário, uma vez que não condiziam com a prática política dirigida a educação municipal. Mas se manteve aberto para o diálogo, entendendo que só dessa forma poderia haver mudanças no cenário que avançava.

Ao ser questionado por um jornal local sobre o porquê preferiu ficar desempregado, Paulo respondeu que não era esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico[2].

 Ao mesmo tempo que lidava com essa pressão política, Paulo estava muito mais preocupado com a condição dos oprimidos da cidade, em especial pelo agravamento com o advento da pandemia. Muitos de seus pares da rede municipal debatiam formas de fazer chegar à educação para todos os estudantes enquanto Paulo se perguntava: Mas em qual condição estão nossos estudantes? Tem onde morar de forma segura para o isolamento social? Tem o que comer? Tem condições de aproveitar o tempo para ler o material pedagógico sem interrupções advindas de sua condição de oprimido? Sua conclusão foi a mesma da maioria dos educadores e educadoras do mundo: O mais importante é a VIDA! O ensino se recupera, vidas não.

Independente de ficar sem o contrato de trabalho, Paulo seguiu dedicando sua prática dialógica à luta dos oprimidos por condições de existência, aproveitando sua imagem para realização de uma solidariedade de classe ativa, crítica e consciente. Militantes sindicais aproveitaram suas propostas e deram eco as ideias, que repercutiram tanto pelo Sintrasem, como furaram as bolhas de controle das famílias e estudantes das unidades educativas municipais.

O sindicato organizou um questionário que deu elementos concretos acerca das condições da população não apenas sobre o acesso as atividades não presenciais, mas sobre as condições de vida desses estudantes e suas famílias. Com isso muitos inéditos viáveis emergiram e temas geradores passaram da simples ideia de atividades interdisciplinares, para de fato propostas que instrumentalizaram os estudantes no sentido de lerem não apenas as palavras, mas o mundo que os cercam.

Paulo seguiu refletindo o momento da pandemia com aproximações ao período da ditadura, quando a direita além de concentrar o poder, agia de modo a calar todos os seus opositores. Percebeu, de fato, muitas semelhanças com seu momento de exílio, o que permitiu identificar a relação do governo dito democrático de Florianópolis na figura de Gean e o autoritarismo do governo Bolsonaro.

Seguindo nas trincheiras junto com os oprimidos, Paulo seguiu dando exemplo em suas ações, particularmente no sentido de sua tolerância para elevar a consciência crítica presente entre seus pares, e sua combatividade contra os opressores. Questionado sobre sua tolerância por um grupo da vanguarda do serviço municipal de Florianópolis, Paulo respondeu que a tolerância deve ser “a virtude revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa melhor lutar contra os antagônicos”[3], no caso, contra o governo Gean, Moisés e Bolsonaro.

A pedagogia da indignação, da autonomia e da esperança para fortalecer os oprimidos

 


Fonte da Imagem: Fundação Getúlio Vargas

A política genocida do governo Bolsonaro, aliada a política demagógica dos governos estaduais e municipais foi de grande impacto na saúde de Paulo, que, em Florianópolis, ficou em crise se deveria voltar para o Nordeste, onde a presença do estado na forma de políticas sociais é infinitamente menor que no sul maravilha.

Ele estava certo no seu papel atuante enquanto intelectual orgânico a serviço da classe trabalhadora, mas para que Florianópolis continuasse sua luta em defesa de toda a população, dos serviços públicos e principalmente em defesa da vida, ele fez a seguinte afirmação:

- Estou voltando para o Recife, mas peço que não percam a esperança! Não deixem que o medo do difícil os paralisem![4] A intolerância, a negação das diferenças precisa ser combatida! É chegado o momento de uma política radical, jamais, porém, sectária, buscando a unidade na diversidade das forças progressistas, para lutar por uma democracia capaz de fazer frente ao poder e à virulência da direita[5].

Para Paulo, a esperança segue nos corações e no pensamento das lutadoras e lutadores do serviço público municipal. As trabalhadoras e trabalhadores tem o direito e o dever de mudar o mundo.

Deixou como tarefa, para todas e todos que dele tiveram algum contato durante sua jornada em Florianópolis, para que não deixem adormecer sua curiosidade. Ao contrário, sigam aguçando-a, como exercício de resistência a uma possível retirada de direitos e liberdades democráticas.

Aguçar a curiosidade, para Paulo, é defender a escola pública, pois permite ampliar o horizonte da curiosidade social e individual[6].

A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, faz parte integrante, repitamos, do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (PAULO FREIRE, p.48, 2000).

Suas palavras são mais atuais que nunca e se renovam a cada avanço dos oprimidos na luta para deixarem de sê-lo. Sobre o momento de “educação não presencial”, Paulo refletiu sobre a tecnologia, afirmando que “a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa[7].

Enquanto embarcava para sua terra natal, Paulo ainda foi questionado sobre o plano da prefeitura de usar a televisão, via TVCâmara como mais uma possibilidade de estudo durante a pandemia. Sem muitas delongas afirmou categoricamente que “não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. [...] a postura crítica e desperta nos momentos necessários [como a pandemia] não pode faltar[8]. Em outras palavras, jamais uma educação bancária servirá para atender as necessidades dos oprimidos. No máximo, servirá para manter a sociedade desigual que vivemos.

O Nordeste recebe seu expoente de braços abertos, enquanto as lutadoras e lutadores do serviço público municipal, aqui da ilha da magia, seguem na luta em defesa da vida, do serviço público e com o esperançar freiriano como mais um dos referenciais de consciência de classe.

 



[1] Cidade do Rio Grande do Norte

[2] Trecho do Livro Pedagogia da Esperança.

[3] Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[4] Trecho extraído do livro Pedagogia da Autonomia, 1996.

[5] Trechos extraídos do livro Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.

[6] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.47, 2000.

[7] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.48, 2000.

[8] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.50, 2000.