Por Marcos Canguru.

Fonte da Imagem: Revista
Educação
Todos falam em Paulo Freire, alguns poucos
de forma contrária e muitos outros reivindicam seu legado, interpretando de
tantas formas sua obra que por certo esse grande expoente da educação
brasileira pode estar sendo vítima de falsários, demagogos e outros adjetivos
não possíveis de explicitar para não perdermos nossa posição de
professor-educador. Mas, se tantos o usam, imagine só se ele estivesse vivo,
contratado como professor substituto na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis?
Aos curiosos e curiosas, segue mais uma crônica da vida real. Qualquer
semelhança não será mera coincidência...
As relações homens-mundo na educação municipal
Estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no ato em defesa da educação – Agosto de 2019
Pois bem, estamos em 2019, e Paulo Freire,
com todo acúmulo que tem, resolveu fazer concurso público para professor em
Florianópolis, utilizando-se para tal de vários diplomas de Doutor Honoris Causa
em educação ganhos nas mais variadas universidades mundo afora. Obviamente que
ele passou e resolveu sair do bairro de Casa Amarela, no Recife, para instalar-se no bairro Chico Mendes, em Florianópolis. Percebeu que o edital de chamamento dos concursados possuía
equívocos primários, como o cálculo para dar conta dos prazos legais, deixando
os aprovados sem possibilidade de assumirem logo no início do ano letivo.
Mas tudo bem, dialógico
como é, Paulo se inscreveu no processo seletivo para ACT, o famoso substituto,
para não ficar desempregado até que fosse chamado no concurso de efetivação.
Não que ele precisasse disso economicamente, mas queria de fato se familiarizar
com os círculos de cultura que permeiam a categoria profissional da
educação de Florianópolis. Escolheu uma vaga de substituto com prazo término no
início de maio, na expectativa de ser chamado até a data. Ledo engano...
A primeira lição que Paulo teve, quando começou a circular na rede de educação de Florianópolis em 2020, é que a secretaria municipal de educação (SME) utiliza muito de suas “frases de efeito” para capitular posições de legitimidade com os professores em geral, mas não traduz a intencionalidade destas frases em sua prática de gestão. Paulo percebeu o pouco compromisso com a transparência por parte da governo, algo completamente diferente do que foi sua gestão como Secretário de Educação da cidade de São Paulo, décadas antes, durante o belíssimo governo Erundina.
A segunda lição, foi
quando Paulo recebeu um panfleto do sindicato, o SINTRASEM, chamando para uma
assembleia de todo o serviço municipal, ainda em fevereiro. Paulo ficou admirado
com a assembleia, pois percebeu que além do pessoal da educação havia representação
de todos os setores do serviço municipal de Florianópolis. Ficou esperançoso ao
perceber a qualidade dos debates e embates dos servidores e servidoras
municipais, respeitando o processo democrático-participativo e vivendo, na
prática social, muitos dos seus ensinamentos.
Apesar de alegre com essa organização, Paulo ficou indignado com a quantidade de escolas e núcleos de educação infantil precários na cidade, enquanto o secretário verbalizava estar atendendo a todos os problemas da educação. Paulo pensou consigo mesmo: um texto sem um contexto gera um pretexto... um discurso da prefeitura, sem materialidade no real, só serve para enganar a população...
Quando Paulo teve
acesso ao seu contracheque a pedagogia da indignação ganhou forma. Ele
recebeu um salário correspondente como título de doutor, mas seus pares, que só
possuíam graduação, receberam um valor abaixo da lei do piso nacional do
magistério. Paulo entrou em contato com o Sintrasem e foi esclarecido que essa
luta é antiga, já há bastante tempo luta-se para que o piso seja pago de forma proporcional
para toda a categoria, mas o governo Gean conseguiu piorar isso, não pagando a
lei do piso nem para o graduado em início de tabela.
Mas Paulo sempre foi um
otimista, de modo que as situações problemas identificados poderiam sim
tornarem-se inéditos viáveis desde que todos valorizassem a educação
pública de fato, para além de discursos vagos. Alguns desses inéditos
viáveis ganharam forma com a aprovação da pauta de reivindicações da data-base
em assembleia por todo serviço municipal, deliberada democraticamente e com
grande representatividade da base.
Nas reuniões de sua escola, na comunidade Chico Mendes, Paulo vislumbrou outros inéditos viáveis, e através de uma pedagogia da esperança, observou o cuidado de seus companheiros e companheiras de trabalho com os estudantes, seus modos de vida, suas condições de oprimidos. Isso permitiu que ele se visse num tempo que passou, lá em Angicos[1], quando ensinou adultos a lerem num curto espaço de tempo.
No seu trabalho em Florianópolis Paulo pode retomar seu método, compartilhando e sendo ouvido pelos seus pares, mas de forma crítica e consciente, alicerçada no movimento do real, sem idolatria. Todos sabiam que ele só ficaria na escola até maio, depois assumiria como efetivo.
O advento da pandemia e seus impactos na educação como prática da liberdade
Desde o dia 16 de março
a educação no município de Florianópolis está suspensa, permanecendo ativa
apenas no formato virtual, pela plataforma paga da Google, ou impressa, tendo o
familiar a responsabilidade de buscar as atividades na escola.
Essa suspensão foi
acertada, porém trouxe muitas dúvidas para todos, inclusive para Paulo. Sempre
coerente na valorização dos saberes, em especial o científico, ele seguiu as
instruções e se colocou a pensar sobre que formas poderiam ser elaboradas para
que a educação não ficasse a mercê do isolamento social, mas assumisse um papel
ativo e protagonista, como é de sua natureza para transformação da sociedade.
A liberdade autoral
dos profissionais foi uma primeira preocupação de Paulo, que buscou dialogar
com setores da secretaria de educação, mas não obteve retorno. Em seguida ele
soube que algumas cidades de Santa Catarina, como Joinville e Blumenau,
aprovaram resoluções em seus conselhos municipais sobre a educação durante a
pandemia, mas sem qualquer diálogo democrático com os atores da educação, como
profissionais, estudantes e responsáveis. Foi então que recorreu ao Conselho Municipal
de Educação de Florianópolis (CME), onde lhe foi sugerido participar de uma das
reuniões que estavam sendo elaboradas com toda a sociedade sobre o tema.
Paulo, consciente que o
diálogo começa na busca do conteúdo programático, identificou os limites
do CME, pois dentro dele havia tanto representantes dos oprimidos, como
também dos opressores. Não criou ilusão e buscou acompanhar mais de
perto os encaminhamentos de sua unidade educativa, bem como de toda sua
categoria por meio do Sintrasem.
Nesse caminhar Paulo se
deparou com a angústia dos profissionais que assim como ele, poderiam perder
seus empregos temporários por não haver qualquer política pública de proteção
nesse momento. Mas se indignou quando viu a SME e o próprio prefeito usando a
angústia dos trabalhadores como moeda de troca para aprovação de uma lei que
manteria alguns profissionais empregados (não todos), mas sem qualquer diálogo democrático-participativo com
a sociedade.
A indignação não foi
maior porque de fato os profissionais contratados nas ditas “classes vagas”, ou
seja, que não havia já um professor titular na vaga, permanecem empregados
durante a pandemia. Mas não era o caso dele. Paulo assumiu uma vaga no lugar de
um profissional que havia entrado em “licença prêmio”, um direito do magistério
municipal coerente e necessário, haja vista que os trabalhadores do serviço
público não possuem fundo de garantia (FGTS), por isso quando saem o que recebem é apenas o
referente a conquista destas licenças, como prêmio por cinco anos de trabalho
ininterruptos, servindo a população de Florianópolis. O detalhe é que esse direito também vem sendo retirado e sua forma de benefício já não é a mesma devido a ingerência do governo Gean.
O contrato dele terminou
antes da primeira quinzena de maio. Foi um escândalo mundo a fora... Jornais noticiavam:
“Educador Paulo Freire é mais um número na estatística de desempregados”; “Cidade
escolhida por Paulo Freire para desenvolver seu trabalho o trata com desprezo e
encerra seu contrato de professor durante a pandemia”; “O patrono da educação
brasileira é desvalorizado em seu próprio país! Florianópolis deixa de ser o
exemplo de educação de qualidade ao demitir profissionais durante a pandemia”.
Com tantos holofotes mundiais
para Florianópolis o prefeito e o secretário tentaram justificar o injustificável.
Tentaram defender o indefensável. Desesperados, chamaram Paulo no gabinete da
SME e lhe ofereceram uma vaga em outra unidade educativa, com a condição de que
ele valorizasse a gestão municipal atual e abafasse as críticas mundiais.
Paulo se viu em
situação parecida como contada no livro medo e ousadia. Se ele
aceitasse, teria seu emprego de volta, mas renunciaria a sua prática social. Se
ele negasse, continuaria sendo pressionado como figura pública e talvez isso fosse
bastante arriscado, dada a sua idade avançada, quase centenária, ainda que em qualificada
atividade.
Mas a verdade é que
Paulo nem pensou duas vezes, disse não a proposta e exigiu que todos os profissionais
desempregados deveriam ter seus contratos renovados até o fim da pandemia, pois
com as escolas fechadas não há condições de sobreviver como professor.
Paulo reviveu o sentido
da educação como prática da liberdade, solicitando que sua obra não
fosse mais utilizada nos materiais da SME, muito menos nos discursos do
secretário, uma vez que não condiziam com a prática política dirigida a
educação municipal. Mas se manteve aberto para o diálogo, entendendo que
só dessa forma poderia haver mudanças no cenário que avançava.
Ao ser questionado por
um jornal local sobre o porquê preferiu ficar desempregado, Paulo respondeu que
não era esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico[2].
Ao mesmo tempo que lidava com essa pressão
política, Paulo estava muito mais preocupado com a condição dos oprimidos da
cidade, em especial pelo agravamento com o advento da pandemia. Muitos de seus
pares da rede municipal debatiam formas de fazer chegar à educação para todos os
estudantes enquanto Paulo se perguntava: Mas em qual condição estão nossos
estudantes? Tem onde morar de forma segura para o isolamento social? Tem o que
comer? Tem condições de aproveitar o tempo para ler o material pedagógico sem
interrupções advindas de sua condição de oprimido? Sua conclusão foi a
mesma da maioria dos educadores e educadoras do mundo: O mais importante é a
VIDA! O ensino se recupera, vidas não.
Independente de ficar sem o contrato de trabalho, Paulo seguiu dedicando sua prática dialógica à luta dos oprimidos por condições de existência, aproveitando sua
imagem para realização de uma solidariedade de classe ativa, crítica e
consciente. Militantes sindicais aproveitaram suas propostas e deram eco as
ideias, que repercutiram tanto pelo Sintrasem, como furaram as bolhas de
controle das famílias e estudantes das unidades educativas municipais.
O
sindicato organizou um questionário que deu elementos concretos acerca das
condições da população não apenas sobre o acesso as atividades não presenciais,
mas sobre as condições de vida desses estudantes e suas famílias. Com isso
muitos inéditos viáveis emergiram e temas geradores passaram da
simples ideia de atividades interdisciplinares, para de fato propostas que
instrumentalizaram os estudantes no sentido de lerem não apenas as palavras,
mas o mundo que os cercam.
Paulo seguiu refletindo
o momento da pandemia com aproximações ao período da ditadura, quando a direita
além de concentrar o poder, agia de modo a calar todos os seus opositores.
Percebeu, de fato, muitas semelhanças com seu momento de exílio, o que permitiu
identificar a relação do governo dito democrático de Florianópolis na figura de
Gean e o autoritarismo do governo Bolsonaro.
Seguindo nas
trincheiras junto com os oprimidos, Paulo seguiu dando exemplo em suas ações,
particularmente no sentido de sua tolerância para elevar a consciência crítica
presente entre seus pares, e sua combatividade contra os opressores.
Questionado sobre sua tolerância por um grupo da vanguarda do serviço municipal
de Florianópolis, Paulo respondeu que a tolerância deve ser “a virtude
revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa
melhor lutar contra os antagônicos”[3],
no caso, contra o governo Gean, Moisés e Bolsonaro.
A pedagogia da indignação, da autonomia e da
esperança para fortalecer os oprimidos
A política genocida do governo
Bolsonaro, aliada a política demagógica dos governos estaduais e municipais foi
de grande impacto na saúde de Paulo, que, em Florianópolis, ficou em crise se
deveria voltar para o Nordeste, onde a presença do estado na forma de políticas
sociais é infinitamente menor que no sul maravilha.
Ele estava certo no seu
papel atuante enquanto intelectual orgânico a serviço da classe trabalhadora,
mas para que Florianópolis continuasse sua luta em defesa de toda a população,
dos serviços públicos e principalmente em defesa da vida, ele fez a seguinte afirmação:
- Estou voltando para o
Recife, mas peço que não percam a esperança! Não deixem que o medo do difícil
os paralisem![4]
A intolerância, a negação das diferenças precisa ser combatida! É chegado o
momento de uma política radical, jamais, porém, sectária, buscando a
unidade na diversidade das forças progressistas, para lutar por
uma democracia capaz de fazer frente ao poder e à virulência da direita[5].
Para Paulo, a esperança
segue nos corações e no pensamento das lutadoras e lutadores do serviço público
municipal. As trabalhadoras e trabalhadores tem o direito e o dever de mudar
o mundo.
Deixou como tarefa,
para todas e todos que dele tiveram algum contato durante sua jornada em Florianópolis, para que não deixem adormecer sua curiosidade. Ao contrário, sigam aguçando-a,
como exercício de resistência a uma possível retirada de direitos e liberdades
democráticas.
Aguçar a curiosidade, para Paulo, é defender
a escola pública, pois permite ampliar o horizonte da curiosidade social e individual[6].
A curiosidade como
inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta
verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que
sugere alerta, faz parte integrante, repitamos, do fenômeno vital.
Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe
pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando
a ele algo que fazemos. (PAULO FREIRE, p.48, 2000).
Suas palavras são mais
atuais que nunca e se renovam a cada avanço dos oprimidos na luta para deixarem
de sê-lo. Sobre o momento de “educação não presencial”, Paulo refletiu sobre a tecnologia,
afirmando que “a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa”[7].
Enquanto embarcava para
sua terra natal, Paulo ainda foi questionado sobre o plano da prefeitura de
usar a televisão, via TVCâmara como mais uma possibilidade de estudo durante a
pandemia. Sem muitas delongas afirmou categoricamente que “não podemos nos pôr
diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier.
[...] a postura crítica e desperta nos momentos necessários [como a
pandemia] não pode faltar[8]. Em outras palavras, jamais uma educação bancária servirá para atender as necessidades dos oprimidos. No máximo, servirá para manter a sociedade desigual que vivemos.
O Nordeste recebe seu expoente
de braços abertos, enquanto as lutadoras e lutadores do serviço público municipal, aqui da ilha da magia, seguem na luta em defesa da vida, do serviço público e com o esperançar
freiriano como mais um dos referenciais de consciência de classe.
[1] Cidade do Rio Grande do Norte
[2]
Trecho do Livro Pedagogia da Esperança.
[3]
Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.
[4]
Trecho extraído do livro Pedagogia da Autonomia, 1996.
[5]
Trechos extraídos do livro Pedagogia da Esperança, p.39, 2013.
[6] Trecho
extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.47, 2000.
[7] Trecho
extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.48, 2000.
[8] Trecho extraído do livro Pedagogia da Indignação, p.50, 2000.










