domingo, 26 de abril de 2020

Artigo - A FORMAÇÃO HUMANA E O NÚCLEO DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL - NDI: QUAL É A HORA DA PRÁTICA DE ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA?

O ano de 2009 foi bastante produtivo, pois, além da monografia, houveram outras produções, algumas que nunca saíram da gaveta, como esta que apresento abaixo.... Por favor, para quem ler, considerem o momento específico do qual eu passava em minha formação pessoal, vários passos e superações, por incorporação de meus erros, vieram se sucedendo desde então...


A FORMAÇÃO HUMANA E O NÚCLEO DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL - NDI: QUAL É A HORA DA PRÁTICA DE ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA?

Marcos Cordeiro Bueno


Resumo:

            O presente artigo é uma sistematização que produzi a partir dos dados do relatório da disciplina de Prática de Ensino II em Educação Física Escolar da UFSC, e busca, a partir da minha experiência em uma instituição de Educação Infantil, refletir sobre qual a hora da Prática de Ensino em Educação Física, de qual o papel que ela deve assumir. As intervenções foram realizadas no Núcleo de Desenvolvimento Infantil – NDI, do Centro de Educação da mesma universidade no período de Agosto a Dezembro de 2008. Na época, me deparei com uma turma de crianças de 4 anos onde aconteciam ao mesmo tempo diversos estágios e projetos, de áreas diversas. A partir dessa experiência ficou a reflexão de que a prática de ensino deve ter um olhar mais cuidadoso sobre seu momento, no sentido de que se possa perceber a importância fundamental desta na formação de professores críticos, humanos e conscientes de sua responsabilidade na transformação de nossa sociedade.

Introdução:

            A Educação Física vem, há algum tempo, passando por um questionamento freqüente de qual seu papel na escola e, quando levamos essa discussão para a Educação Infantil os questionamentos aumentam ainda mais. No curso de licenciatura da mesma na UFSC temos duas disciplinas de Prática de Ensino, que nos possibilitam intervir na escola de forma a nos preparar para nossa futura atuação nela. Nessas disciplinas, existe a possibilidade de se optar pelo estágio em instituições de educação infantil, voltadas para crianças de 0 a 6 anos.
            A questão mais presente quando os estudantes vão fazer suas práticas de ensino nessas instituições é justamente o que desenvolver e como desenvolver dentre os conteúdos da educação física. E a isto ainda se levanta a polêmica de que se esse planejamento deverá ou não estar atrelado ao plano feito pela professora da turma.
Foi a partir de minha experiência na prática de ensino na educação infantil e da análise de tudo o que aconteceu (a partir dos relatórios e registros), que pude afirmar que além destes questionamentos, outros foram elencados e é de um destes que surge este artigo: Qual é a hora da prática de ensino de educação física?
Esta pergunta foi feita após eu analisar o quanto as crianças do NDI se encontram sobrecarregadas de tarefas, de estágios, de intervenções de diversas origens, que acabam interferindo e prejudicando o andamento da prática de ensino. No caso específico de minha experiência, ela aconteceu em uma instituição dentro da universidade, criada para ser campo de estágios e práticas de ensino, uma instituição com espaço e estrutura privilegiados como mostrarei mais adiante, mas que passou por um momento de turbulência nesse semestre com excesso de estagiários, chegando a proporção de um a cada 2 crianças da escola[1].
Com a formação acadêmica que temos dentro de nossa universidade (que é também um espaço privilegiadíssimo, ou deveria ser), uma formação debilitada, fragilizada, incompleta, desumana, ausente de críticas e reflexões, que só contribui para desqualificar ainda mais a nossa área e reforçar a velha idéia de professor de Educação Física ou como mero recreador, ou ainda como preparador de futuros atletas e “caçador de talentos”, os problemas se agravam ainda mais.
            Meu objetivo aqui é tentar refletir e analisar as questões que permearam esta experiência, tentando a partir dela buscar reflexões e percepções de qual a hora e qual o papel da prática de ensino em Educação Física, se ela deve ter um horário fixo e se esse horário deve ser uma prioridade dentro da instituição e da turma de intervenção, reservado para essa prática e visto como prioritário a outras atividades que possam surgir no decorrer do processo. Para isso refletirei sobre o espaço destas intervenções, a turma em questão, os diversos “temas” que interferiram no cotidiano de intervenção, bem como sobre o papel da Educação Física na Educação Infantil e da formação dentro do curso de licenciatura em Educação Física.

Um retrato do NDI durante nosso período de Intervenção

            Como este artigo é fruto de meu estágio de intervenção dentro do Núcleo de Desenvolvimento Infantil da Universidade Federal de Santa Catarina - NDI/UFSC, é necessário começar com uma análise conjuntural do que é hoje o NDI, ou no mínimo, como ele me foi apresentado.
            O NDI é um centro educacional que funciona em dois turnos distintos, matutino e vespertino, atendendo cerca de 256 crianças, filhas de acadêmicos, professores e funcionários da UFSC, entre 0 a 6 anos. As crianças são atendidas meio-período, ou de manhã ou pela tarde. O mesmo conta ainda com uma boa estrutura física, com parques, árvores, salas de aula, lactários, setor de enfermagem, biblioteca, etc. e também envolve um grande número de profissionais.
            Cada turma tem uma professora (pedagoga formada) e um auxiliar de sala, podendo ter mais auxiliares dependendo da realidade. Além disso conta com uma grande equipe de direção, coordenações, enfermeiras, secretárias, lactaristas, funcionários de limpeza, segurança, técnicos, etc.
            A turma em que realizei as intervenções durante a “prática de ensino” foi o chamado grupo Sol[2], do turno vespertino. Essa turma é composta por 14 crianças, 8 delas meninos e 6 meninas, todos com idade entre 4 e 5 anos. A professora pedagoga da turma conta com dois auxiliares, por ter entre suas crianças uma com “necessidades especiais”. É uma turma de crianças alegres, dispostas a brincar e se envolver no grupo. Mostraram uma grande curiosidade de aprender, vivendo e experimentando papéis.
Para além da estrutura física, no NDI também é feito um planejamento anual de atividades, sendo o mesmo reavaliado e aprimorado durante os semestres. Como o núcleo de educação infantil está/é dentro de uma universidade pública, para além do ensino neste espaço educacional, também se encontra a extensão, com bolsistas que auxiliam nas aulas, além de diversas atividades para além dos muros do NDI, e não menos relevante a pesquisa, permeada por diversos acadêmicos dos mais diversos cursos da UFSC.
            Como esse retrato parte de minha análise, vista de forma reduzida pelo convívio com apenas uma turma do NDI, mas suficiente para alguns apontamentos, é justo comentar acerca do tempo que permaneci neste espaço como requisito para aprovação na disciplina Prática de Ensino em Educação Física II. Não conheço outro espaço público de educação infantil com tamanha estrutura e aprimoramento educacional, principalmente com relação à educação para as crianças e as produções acadêmicas no âmbito da “Pedagogia da Infância” [3]. Porém nem tudo são flores e, como meu intuito é trazer para o debate da educação física e da educação infantil um pouco do que acontece dentro do NDI, como referência para os demais espaços de educação infantil, a primeira coisa é com relação à pesquisa. No semestre correspondente à minha pesquisa e intervenção, pude perceber a presença de vários adultos num espaço de educação infantil, dentre não só professores, professoras e auxiliares, mas principalmente de estagiários de diversas disciplinas, dos mais diversos cursos incluindo eu próprio. Só a turma que estive presente contava, para além dos três adultos que estavam diariamente em sala, outros dois no dia da intervenção da Psicologia, mais dois no dia da intervenção de Ginástica[4], além de eu e outra colega da Prática de Ensino II que intervínhamos duas vezes por semana. Isto sem contar dos outros acadêmicos de outras áreas que não entram em sala, mas que estão a todo tempo dentro da instituição.
            Outro ponto que foi impactante durante o semestre foram as reformas no NDI que, junto com a quantidade de educadores, pesquisadores e bolsistas, dificultou nossas intervenções nos espaços abertos da instituição. Isto sem falar na chuva, que nos últimos dois meses daquele ano (2008) assolou nosso estado e também impediu muito de nossa proposta de intervenção[5].

A Educação Física dentro do NDI

            Muitos autores defendem que a Educação Física não deve ter uma hora específica de ser executada dentro da Educação Infantil (VAZ, 2005; SAYÃO, 2002; OSTETTO, 2000; SIMÃO s/d), como é feito nas escolas de ensino básico de Florianópolis (três aulas semanais de 45 min). No NDI a construção da prática pedagógica (COLETIVO DE AUTORES, 1992) da disciplina de Educação Física para as crianças, segue as propostas dos autores do campo crítico da Educação, sendo organizada e planejada em conjunto com as professoras pedagogas. As intervenções acontecem em datas marcadas, mas sem o “aprisionamento” ao tempo cronológico, ou seja, a aula é para uma manhã inteira ou apenas meia hora, dependendo do clima, da aceitação das crianças e do êxito das atividades. Isto acontece porque segundo o referencial epistemológico do Projeto Político Pedagógico do NDI “todo hábito entra na vida como brincadeira” (BENJAMIN, 1984, p.75), mas também pelos educadores desta instituição, em sua grande maioria também terem esta compreensão.
            Apesar dos diversos avanços no campo das intervenções de Educação Física, há uma dificuldade no andamento e continuidade das aulas em virtude de que o professor responsável pela disciplina não é contratado para a respectiva função. O mesmo é concursado da UFSC para o cargo de servidor técnico, ou seja, poderíamos dizer que ele foi adotado pelo NDI para trabalhar com a Educação Física, mas, além disto, o mesmo acumula as diversas funções de seu cargo específico. Segundo o próprio professor já há algum tempo existe uma campanha para readaptação de função, até porque o mesmo é formado em Educação Física e tem até curso de especialização na área.
Todas as outras professoras do NDI são contratadas para quarenta horas de trabalho sendo destas, vinte horas para o ensino em sala de aula e as outras vinte horas para planejamento e avaliação. Já o “técnico” responsável pela Educação Física trabalha trinta horas diretas sem possibilidade específica para o planejamento conjunto com as demais professoras. Apesar desta dificuldade o planejamento acontece fora do tempo de trabalho ou nas “brechas” do mesmo, porém de forma precária e injusta. Defendemos que esta forma é precária e injusta porque o mesmo deveria ter o mesmo direito que os demais educadores do NDI e não da forma como é tratado, recebendo por um tipo de serviço e desempenhando vários outros.

A “hora” da Prática de Ensino de Educação Física na Educação Infantil

Esta parte de meu estudo poderia e deveria estar colocada em conjunto com o título anterior “A Educação Física dentro do NDI”. Porém minha disciplina de intervenção – a mesma do professor de Educação Física do NDI – não foi organizada conjuntamente com a disciplina “oficial” de Educação Física. É fato que o NDI neste semestre quase que transbordou suas possibilidades de ensino e pesquisa já comentados no inicio deste artigo, porém o que se pode ser constatado foi a desarticulação da promoção da formação acadêmica (prática de Ensino) com a educação infantil (NDI).
A prática de ensino da educação física, no período em desenvolvi as intervenções, nunca foi prioridade do NDI, uma vez que haviam sempre mais estagiários e outras intervenções do âmbito da Educação Física (Ginástica e a Educação física do Professor do NDI). Durante algumas destas intervenções, fui avisado que não poderia executar o plano de aula em determinada data porque haveria outras atividades planejadas (caso do “dia da Flor”, “gincana com as crianças”, passeio no Sepex”[6], etc.).
A partir desta gama de problemas é que se fundamentou a pergunta de qual é o lugar da prática de ensino de Educação Física na Educação Infantil? Esta pergunta evoca em minha cabeça muito em consonância com outras perguntas já tratadas por SAYÃO, 2002, dentre elas:

Qual o papel da Educação Física naquela unidade? Qual a concepção de infância que a instituição assume e que será incorporada pelas ações de Educação Física? Qual o papel do/a professor/a de Educação Física? Como a unidade irá organizar o trabalho pedagógico entre os/as diferentes profissionais? Destaque-se que a regularidade, a periodicidade, e o grau de integração dessa prática social às demais iniciativas da instituição derivam do projeto da unidade e não da intenção individual de cada professor ou professora ou da sua condição administrativa referente à sua carga horária. (p.48, 2002)

São muitas as perguntas e outras mais ainda surgem quando começamos a responder estas. Fato é que a prática de Ensino deve ser encarada com total prioridade por qualquer unidade educativa que a tiver como incumbência. Digo isto porque como um professor ou professora com uma formação precarizada (no caso de sua prática de ensino) terá condições de executar um bom trabalho em sala?
Entendemos a formação como um ciclo entre o acadêmico e o professor, o educador e o educando, ou seja, um processo dialético tanto entre os formadores (professores acadêmicos), os formandos (os próprios acadêmicos) quanto e principalmente a criança em formação (educandos e educandas do NDI). Esse processo, ao ser quebrado por qualquer uma das partes, perde seu sentido e caráter educativo.
É de nosso interesse não apontarmos uma determinada hora para a prática de ensino, mas sim aclamar pela prioridade que a mesma representa tanto na formação acadêmica, como na formação em geral. Isto não vale apenas para o campo da Educação Física, mas para qualquer área de Licenciatura.
Este é o caso específico do NDI, que já é uma unidade educativa muito avançada em relação às demais intuições públicas de ensino da educação infantil. Porém minha crítica vem no sentido de que se não for neste espaço que se aprofunde o debate no sentido da superação deste problema (do momento específico da prática de ensino), as chances de isso acontecer em outro espaço de educação pública, na medida do avanço da destruição humana pelo capital se tornará quase impossível.

Apontamentos

A doutrina materialista sobre a alteração das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são alteradas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado. Ela deve, por isso, separar a sociedade em duas partes - uma das quais é colocada acima da sociedade. A coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária. (MARX e ENGELS, p. 12, 1987)

É com base nesta citação que clamo para a importância da formação humana crítica e transformadora. Não por nos vermos do lado de fora da história, assistindo de camarote os acontecimentos, mas sim como agentes produtores de história que não estão nem um pouco satisfeitos com o atual modelo de sociedade organizado e dividido em classes sociais, na qual homens e mulheres ainda são explorados por outros homens e mulheres e que vêem na educação e na escola em geral a “arma ideológica da revolução” (PISTRAK, 2003). As palavras podem ser fortes num âmbito acadêmico quase que inerte à produção crítica, ainda mais quando se trata de um assunto tão complexo e delicado como a Educação Física na Educação Infantil. Porém autores e autoras como SAYÃO, 2002 e 2002; RICHTER e VAZ, 2005 e SIMÃO s/d e outros já deram início ao caminho das pedras para o debate acerca da importância de uma educação humana crítica também na Educação Física para Educação Infantil.
            É nosso objetivo sair de dentro da universidade com uma bagagem ampliada não só acerca da Educação Física, mas também de como o conhecimento se dará na prática. As disciplinas de Prática de Ensino, a meu ver, são essenciais nesta formação e devem ter prioridade em qualquer espaço educacional. Contudo minha análise não foi focada nas respostas das crianças acerca deste debate porque faltou tempo para esta temática. Apesar disso não parti da concepção que SAYÃO, 2002 critica das pedagogias que se esquecem das crianças e colocam-se em evidência apenas o conhecimento, como se os dois não fossem faces da mesma moeda (2002, p. 59). Não só entendendo que o conhecimento científico e o conhecimento produzido pelas crianças estão intimamente ligados, como é minha preocupação que este movimento dialético não se perca.
            A hora da prática de ensino de educação física na educação infantil não será limitada por um relógio, mas pela articulação dos conhecimentos produzidos no espaço educativo (NDI), em conjunto com uma análise profunda acerca da importância de cada conteúdo e também do que as crianças transcendem em suas linguagens. “É da mesma maneira importante massagearmos as crianças, assim como é interessante para elas fazerem massagens nos adultos que as rodeiam. Esta experiência aproxima as crianças dos adultos e materializa movimentos que só são possíveis quando nos tocamos.” (SAYÃO 2002, p.62).


Bibliografia
BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a cultura. Campinas: Summus, 1984.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997.Coleção Leitura.
MÉSZÁROS, István. A Educação para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
OSTETTO, Luciana Esmeralda. Encontros e encantamentos na educação infantil. Campinas: Papirus, 2000.
RICHTER, A.C; VAZ, A.F. Corpos, saberes e infância: um inventário para estudos sobre a educação do corpo em ambientes educacionais de 0 a 6 anos. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Campinas, v. 26, n. 3, 2005.
SAVIANI, D. Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas – SP: 9° Edição, Autores Associados, 2005.
SAYÃO, Deborah. T. Infância, prática de ensino de Educação Física e Educação Infantil. Educação do corpo e formação de professores. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002.
_____________. Corpo e movimento: notas para problematizar algumas questões relacionadas à educação infantil e à educação física. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Campinas, Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. v. 23, p. 55-67, jan.2002.




[1] Isto com base na nossa coleta de dados no período de Agosto a Dezembro de 2008.
[2] Nome dado pelas próprias crianças no início do ano.
[3] Ver SAYÃO, 2002.
[4] Disciplina da Educação física oferecida para o curso de Licenciatura, com uma intervenção semanal dos acadêmicos no NDI.
[5] O tema de nosso projeto de intervenção era “Criando, Recriando e Recreiando: Conhecendo e Reconhecendo o NDI” e com a chuva muito de nosso planejamento foi modificado.
[6] Semana de Ensino Pesquisa e Extensão da UFSC

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