Mesa
Práxis – Tema: Capoeira: História e
Contemporaneidade
Marcos
Cordeiro Bueno (Canguru)
Professor
de Capoeira pelo grupo Roda Livre, Acadêmico do Curso de Educação Física
Licenciatura da UFSC e Professor Substituto da Prefeitura Municipal de
Florianópolis.
Capoeira,
do Mito pela Resistência a Realidade Mercadorizada.
DA ORIGEM A INTRODUÇÃO: Capoeira me chama...
No campo do senso comum, atualmente é quase que inconcebível
levantarmos a hipótese de que o homem não pisou na lua. Fato é que nossos “brothers”
dos EUA tem sido contestados com provas um tanto quanto concretas a respeito
desta farsa que rendeu muitos dólares a burguesia internacional. Da mesma
forma, no mundo da capoeira há uma espécie de “dogma” a respeito da origem
dessa prática cultural. Conta-se que “movidos pelo instinto natural de preservação da vida, os
escravos descobrem no seu corpo a essência
da sua arma (AREIAS, 1989)”. Porém, ao pararmos para refletir sobre a origem da
capoeira uma pergunta se levanta: Como que a capacidade de construção de uma
luta corporal (capoeira) neste período[1] seria
possível, uma vez que a forma desumana como os negros escravizados eram
tratados não lhes dava condição para “desenvolver uma luta” no momento em que
não estivessem trabalhando? Nestor CAPOEIRA, 1995, ao entrevistar Muniz Sodré[2] nos
diz que:
“... a
questão do começo é um falso problema – na capoeira e em geral. O importante
não é o começo – a data histórica não tem tanto interesse assim -, mas sim o
principio: quais as condições que a geraram e o que a mantém em expansão. Isto
é: o conjunto de condições e circunstâncias históricas e culturais para que
aquele jogo tenha expandido. No caso da capoeira, o começo é brasileiro, mas o
principio – tanto o fundamento, a historicidade, quanto o mito – é africano”
(CAPOEIRA, p.17, 1995).
Não entendemos que o
começo seja um falso problema, uma vez que quanto mais profundas e
hermenêuticas forem nossas reflexões, mais condições teremos de nos aproximar
da compreensão do que é capoeira, não no sentido de folclorizá-la nem de
estancá-la, mas sim produzir novos elementos para sua transformação e
manutenção enquanto cultura.
A capoeira é o resultado
de uma produção humana, ou seja, foi construída culturalmente e não “movida por
um instinto natural”. Outro apontamento
que julgamos importante é que “a atitude primordial e imediata do homem, em
face da realidade, não é a de um abstrato sujeito (...), porém a de um ser que
age objetiva e praticamente, de um indivíduo histórico, (...) dentro de um
determinado conjunto de relações sociais (KOSIK, p.09-10, 1976).” Quando
trazemos Kosik para o debate, buscamos a reflexão de que a “essência” é um
fenômeno que caminha paralelamente com a aparência e que os argumentos de
AREIAS, 1989, para explicar a essência da capoeira são no mínimo reducionistas.
A prova disto é que sem base teórica de registro, o autor nos coloca que a
capoeira vinha da imitação dos animais, das brincadeiras africanas, etc. e era
praticada no interior das matas, para enfrentar o inimigo (AREIAS, p. 16, 1989).
Ora, pela aparência podemos dialogar que muito do que praticamos hoje se parece
com movimentos de diversos animais, mas isto não é suficiente para que
constatemos que o “negro praticava a luta nas matas para enfrentar o inimigo”.
Nosso objetivo com estas
primeiras reflexões é de não estigmatizarmos a capoeira enquanto dogma, nem a
simplificarmos como produto da cultura ocidental, mas sim cavoucarmos mesmo que
superficialmente nesta ‘arte’ que encanta e que tanto pode ser instrumento de
resistência enquanto prática da cultura popular improdutiva, como também ser
mercadoria a serviço da produção do capital.
Mas o que fez com que a
capoeira perdurasse até os dias de hoje? Quais são as suas diferenças no campo
do saber popular? Por que existem estas diferenças? Por que a Capoeira hoje é
um conteúdo da Educação Física? O que nós enquanto brasileiros, capoeiristas e
professores de Educação Física devemos nos atentar para a preservação desta
arte sem que a mesma não seja estancada nem descaracterizada de seus elementos
históricos? E agora José?
O poema de Carlos
Drummond de Andrade serviria perfeitamente para a capoeira se a mesma pudesse
ser inserida nos lugares onde aparece à palavra “José”. Estas perguntas são
necessárias para que possamos compreender e principalmente transformar o que
acontece com a capoeira nos dias atuais de um capitalismo selvagem que na ânsia
de permanecer a todo custo, cria novas forças produtivas, ao mesmo tempo em que
destrói outras. Nosso apontamento é de que a capoeira é uma força produtiva que
vem sendo destruída de acordo com as necessidades do capital, contudo nós nos
colocamos na defesa desta arte e é por essa razão que realizamos este trabalho.
Porém além de tentarmos responder as primeiras questões levantadas, ainda nos
proporemos a dialogar com os trabalhadores (Josés) da capoeira que
determinantemente são os verdadeiros responsáveis pela existência da mesma.
Mestre Pastinha em uma entrevista para um jornal local da Bahia na década de
1950, ao ser indagado sobre o que mais a capoeira precisava para “ganhar o
mundo” respondeu: “- A capoeira não precisa de mais nada, quem precisa sou eu!”
DA MESCLA
A REPRESSÃO: Não bate no Menino que o
Menino Cresce...
Muito da cultura popular
tem suas origens e manutenções no campo da oralidade. Muitos são os mestres e
professores de capoeira que tem sua formação para capoeira no campo do saber
popular com suas regras específicas, batizados formaturas e etc. Afinal de
contas, esta é base histórica de transmissão do conhecimento de capoeira e dentro
de todas as contradições aparentes no âmbito de sua história, a seguir
apresentaremos algumas das quais julgamos importante para respondermos a
pergunta: ‘O que pode ter acontecido para que a capoeira perdurasse até os dias
de hoje?’
A lei de abolição da
escravatura surge em 13 de Maio de 1888 e, cerca de dois anos após esta, Rui
Barbosa com o intuito apresentado de limpar a sujeira que foi a escravidão,
queima a maior parte dos documentos que a retratavam e que conseqüentemente
tinham dados importantíssimos para elucidarmos as origens da capoeira.
Especulamos acerca dos reais por quês que Rui Barbosa teria queimado estes
documentos, mas, por nos faltar elementos para esta discussão, nos ateremos ao
que ficou como registro sobre a capoeira e que data a partir do ano de 1810. O
francês Debret e o alemão Rugendas, artistas desta época nos deixaram alguns
registros valiosos acerca de como se dava à organização dos escravos, sua
tradição cultural e dentre elas, os primeiros registros em pinturas do que
viríamos a chamar de capoeira.
Ao falar sobre a
escravidão, CAPOEIRA, 1995 diz que
“É comum
imaginar-se a capoeira nascendo e crescendo no ambiente rural, mas talvez tenha
sido nas cidades, onde circulava livremente um grande número de libertos e
‘negros de ganho’ – escravos que por conta própria exerciam alguma atividade e
que ao fim do dia tinham de entregar alguma quantia prefixada a seu
proprietário -, que esse processo de crescimento e transformação foi mais
expressivo (p. 20, 1995)”.
Mas por que então muitos
dos elementos da capoeiragem ganharam força somente nesta época e não antes? Em
seu livro “Fundamentos da Malícia”, Nestor Capoeira nos traz dados importantes
para sustentar esta hipótese de temporalidade, uma vez que, como o autor mesmo
diz, em um bate papo informal com Muniz Sodré, explicou-se que no período
anterior a meados de 1810-1830, os donos dos engenhos e fazendas permitiam a
prática de manifestações culturais negras, com o objetivo implícito de que as
mesmas serviriam de “válvula de escape para as tensões inerentes à escravidão”
e principalmente para acentuar as rivalidades tribais. Ou seja, a política era
de dividir para reinar (CAPOEIRA, 1995). O mesmo autor ainda nos coloca a
dificuldade de acesso por parte da comunidade negra para uma possível revolta
armada. Ele chama este período (1810-1830) de “a guinada histórica”, quando os
negros diante da impossibilidade de uma revolta armada (bélica), “voltam-se
para o lado ‘cultural’, que se torna fundamental: o cultural se torna arma (IBDEM, p.28, 1995)”. [grifo nosso]
Se a cultura se torna
arma, diante da impossibilidade de o negro voltar para a áfrica, começa-se a
construir uma ‘espécie’ de áfrica aqui no Brasil. A mescla dos vários rituais
de dança, de luta e de culto aos deuses africanos com o cotidiano opressor de
uma sociedade escravocrata e pré-capitalista, e ainda com os índios sendo
colocados na mesma situação escrava dos negros, nos trás ás condições
determinantes para o surgimento da base do que chamamos hoje de cultura
brasileira.
Com a pressão mundial, a
partir de 1850 é interrompido o tráfico negreiro para o Brasil. Isto dá mais
força para o desenvolvimento da cultura agora ‘afro-brasileira’ e
conseqüentemente para consolidação da capoeira, que neste momento, ousaríamos
em dizer, como sendo luta. A pressão interna dos ‘abolicionistas’ também cresce
na mesma proporção dos negros alforriados (que compraram sua liberdade). O
liberalismo inglês também ganha força, com intuito principal de uma expansão
capitalista, na qual a escravidão tinha de ser excluída, pois não atendia as
necessidades da produção de mais valia, ou seja, do capital[3].
Migalhas surgem em forma de lei, não para o bem da população negra, mas para
amenizar as pressões do capital internacional. São elas, a ‘lei do ventre livre’
em 1871 e a ‘lei dos sexagenários’ em 1885. O sistema escravocrata em declínio
culmina na lei de abolição da escravidão em 1888.
Que toquem os atabaques
e os berimbaus, o negro está livre! Era o que talvez dissessem os idealistas,
mas o fato é que o negro livre da escravidão se deparou com o aprisionamento ao
capital e, tendo sua agora “força de trabalho” trocada pela dos imigrantes que
chegavam ao montes da Europa e alguns da Ásia, não teve outra opção senão a de
lutar por sua sobrevivência sendo marginalizado e desenvolvendo novas técnicas
de luta política. É também por esse momento que CAPOEIRA, 1995, nos traz o
relato do historiador Júlio C. S. Tavares que classifica esse período de 1888 a
1889 (nascimento da república com cunho militar e autoritário) como um momento
de “caos” (p.34, 1995). A partir da república, os militares têm como meta
organizar este caos e isto significava dizer:
“... disciplinar
a população negra, pois o caos eram os negros fujões; eram os quilombos na
periferia da cidade; eram os negros libertos perambulando para baixo e para
cima; era uma quantidade infinita de capoeiras – mais especificamente no rio de
janeiro – que, em Maltas ou individualmente, vendiam indiscriminadamente seus
serviços para abolicionistas, liberais, conservadores, monarquistas,
republicanos (p. 35, 1995)”.
Esse período próximo,
porém anterior a abolição foi sem dúvida o de maior repressão ao povo negro e
isto se exemplifica no código penal de 1890 que criminaliza a prática da
capoeira, e também os métodos de organização política dos negros que ficou
conhecida, como chamaram os brancos, de ‘bando ou malta’[4].
Também é nesse período, a partir da construção do código penal, que se registra
nos arquivos militares, muito da presença dos capoeiras, com maior
expressividade em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. É possível que se tenha
outros focos de capoeiras nos demais estados brasileiros, porém segundo
CAPOEIRA 1995, REGO 1968, SANTOS, 1990 e AREIAS 1989, os registros dos
capoeiras circulam somente nestes três estados.
Sem sair do campo
bibliográfico e cientifico, mas também no intuito de valorizar o saber popular,
citaremos a seguir uma música que dramatiza a realidade dos capoeiras desta
época (fim do século XIX, início do século XX) de autoria do Mestre Mão Branca,
sem esquecermos que “as cantigas de capoeira fornecem valiosos elementos para o
estudo da vida brasileira, em suas várias manifestações, os quais podem ser
examinados sob o ponto de vista lingüístico, folclórico, etnográfico e
sócio-histórico (REGO, p.126, 1968)”.
Maltas de Capoeira
Foi no Rio de janeiro,
Pernambuco e velha Bahia
Chegaram os reis escravos
Colega veio as grandes periferias.
Vagando pela cidade,
Então o negro ia,
Para os portos e mercados,
Ou as feiras e ferrovias.
Sem ninguém pra lhe ajudar,
Colega veio e sem ter informação,
Sem dinheiro pra gastar,
Ai meu Deus as vezes sem ter o pão.
Negro ia vadiar
Na capoeira meu irmão.
Falava alto o berimbau,
Colega velho o pandeiro acompanhava,
Reco-reco de mansinho
Ai meu Deus e o jogo começava.
Rabo de arraia, na cabeçada e na rasteira
Os turistas iam ver
E davam dinheiro ao capoeira.
Mas o passado escravo
Fez o negro inferior,
Sem condições de viver
Colega veio marginal ele virou.
Assaltando casas nobres,
Foi mercenário sim sinhô
Até se vestia de mulher
Pra roubar seja quem for.
Manhosos e traiçoeiros
Eram Guaiamuns eram Nagoas
Maltas do Rio de Janeiro
Foi verdadeiro terror.
E nem mesmo a policia
Podia nada fazer,
Pois se ficassem frente a frente
Colega veio era certo alguém morrer.
A navalha afiada,
Faca envenenada
Bengala de lata e lenço no pescoço.
Malandro de branco descia a ladeira
E o povo dizia vem o capoeira...
Mas isso tudo é passado
E hoje melhor posso entender
Mas se eu fosse daquele tempo,
Eu também queria ser,
Pois das maltas de capoeira
Oi ia iá que lutaram pra viver,
Maltas de capoeira não existem mais
Mas o negro ainda luta por seus ideais...
Obrigado bom Deus não somos marginais
Malandro capoeira ficou para trás...
DA MARGINALIDADE:
O negro não quer mais ter Senhor, Olha a
Navalha aí cortou...
Como este trabalho é
apenas um ensaio de pesquisa e carece de uma profundidade maior acerca do
histórico da capoeira, a seguir apresentaremos alguns dos meandros que a
capoeira e mais propriamente seus protagonistas passaram para desconstruir essa
imagem de vagabundagem em seu meio, para a imagem de educação. Além disso, é
importante se destacar que a autoria deste ensaio é de um capoeirista que
também tem sua formação popular nesta manifestação cultural e que, portanto,
trará dados de sua prática cotidiana envoltos das mais profundas reflexões para
que não se perca o caráter científico desta pesquisa.
Dos focos de organização
dos capoeiras, o de Pernambuco foi o que segundo CARNEIRO 1971, mais sofreu a
repressão militar e que teve seu fim por volta de 1912. São poucos os registros
que encontramos acerca dos acontecimentos em Pernambuco neste período que
compreende 1890-1920, contudo nas rodas e cantigas de capoeira, comenta-se
sobre um grande capoeira pernambucano que deu muito trabalho para as autoridades
da época, conhecido como “Nascimento Grande”.
Já a capoeiragem no Rio
de Janeiro foi marcada pela resistência dos negros e sua organização nos
chamados Bandos ou Maltas já citados anteriormente. O que a diferenciou da
capoeiragem baiana foi a questão do comportamento dos capoeiras da época.
Tinham a audácia e o jeito de um “fadista”[5],
porém a violência e a raiva do fardo dos séculos de escravidão e opressão. Se Newton já há muito tempo determinou que
para cada ação ocorre uma reação, no Rio de Janeiro esta lei foi bem sucedida.
Quanto maior foi a repressão contra os capoeiras, mais os mesmos eram violentos
em seus roubos, furtos e combates. É que verdade que cada vez mais se reduzia o
número de capoeiras, contudo a “Revolta da Vacina” em 1904 e a “Revolta da
Chibata”[6] em
1910 são exemplos de focos de resistência que perduraram até a década de 1930
quando que por influência da capoeira baiana a repressão começa a perder força.
A capoeira na Bahia
passou por um processo também violento como nos demais estados, porém por não
ser mais o principal estado brasileiro, nem mais ter a capital do país em seus
limites, acabou por ter outras determinações que se diferenciavam
principalmente da capoeiragem carioca. Uma delas é o fato de não ter tantas
perseguições militares e o outro é porque havia um fio condutor entre os
capoeiras baianos da época e os terreiros de candomblé. O capoeira Baiano que
já folclorizava sua prática corporal passa a ter um propósito que é o de lutar
para provar que a capoeira não deve ser considerada crime e principalmente, que
assegurasse a liberdade de seus praticantes, uma vez que o código penal dizia o
contrário. Também é na Bahia que se tem os primeiros depoimentos de capoeiras
que falam sobre o berimbau nas rodas de capoeira, além de outros elementos do
batuque e da herança musical africana em geral (REGO, 1968).
DA
SISTEMATIZAÇÃO A EDUCAÇÃO: Mas o veneno
da cobra se espalhou, se o caboclo não morre viciou...
Nas rodas de capoeira de
nossos dias, muito se é lembrado acerca de grandes mestres de um passado
recente. Com a exceção de Zumbi dos palmares que percorreu nossa história nos
fins do século XVII e que ainda hoje é lembrado nas rodas, a maioria dos
mestres relembrados nas rodas de hoje são nascidos a partir da proclamação da república
(1889). Nascimento Grande, Manduca da Praia, Besouro Mangangá, e posteriormente
Canjiquinha, Cobrinha Verde, Noronha, Leopoldina, Valdemar da Paixão, Paraná,
Madame Satã, Totonho de Maré, são alguns dos que se ouve falar ainda nas rodas
de hoje. Porém os mais relembrados são definitivamente Bimba e Pastinha. São
todos estes e muitos outros, que foram fundamentais para a manutenção da
capoeira e sua perduração até os dias de hoje.
Como já dito no capítulo
anterior, até o início da década de trinta a capoeira era vista
predominantemente como crime, não só do ponto de vista legal, mas também do
ponto de vista da decadente nobreza e ascendente burguesia nacional. O capoeira
é o vadio, o vagabundo, o imundo. As rodas de capoeira na Bahia acontecem de forma
informal e, muitas vezes praticadas pelos trabalhadores estivadores do porto de
Salvador que tinham como propósito ganhar algum dinheiro com os turistas da
época, provar sua valentia, apostar cachaça etc. sem um objetivo claro de
preservar a cultura da capoeira. No entanto, um filho de um mestre na arte do
batuque de nome Manoel dos Reis Machado (Bimba) e amante da capoeiragem, não se
bastando às formas de organização da capoeira na década de 1920, resolve
transformar esta imagem do capoeira enquanto vagabundo para o capoeira
“educador”. No Documentário “Mestre Bimba, a Capoeira Iluminada”, o historiador
Carlos Eugênio Líbano Soares, 2001 relata que Bimba para discriminalizar a
capoeira, cria uma espécie de “escola” de capoeira colocando a mesma entre “quatro
paredes”, além de construir uma série de movimentos e sistematizá-los em
seqüências de ensino. Com essa guinada para espaços fechados, a capoeira
enquanto saber popular perde muito de seus rituais característicos, porém ganha
dinâmica e ao mesmo tempo uma série de novos elementos reguladores, que começam
a delinear muito da prática da capoeira que se tem na atualidade. Ao mesmo
tempo vários capoeiras se opõem a idéia de Mestre Bimba e buscam resistência no
sentido de preservar as características da capoeira jogada até então, mas
também acabam por criar outras regras e outras formas reguladores inclusive
dando como nome deste estilo de “Capoeira Angola”. O nome veio em oposição a
capoeira criada por Bimba e seus discípulos que ficou conhecida como “Capoeira
Regional”. Há mais uma série de elementos que aumentaram a distância entre os
estilos de capoeira, mas por uma questão de tempo, optaremos por trazer estes
dados na parte prática de nosso trabalho. Contudo o que é necessário buscar
esclarecer entre nós capoeiras da atualidade, é o fato de que a capoeira jogada
hoje não é a que era jogada há cem anos atrás, mas que tantos os estilos de
Angola ou Regional além de outros que hoje circundam as rodas de capoeira no
mundo vem do mesmo lugar: Do ‘Brasil Africano’ urbano, numa complexa formação
de valores em oposição aos hegemônicos valores de sociedade do ocidente
capitalista e que com a consolidação da produção de capital, tornam-se
mercadorias a serviço do mesmo.
DO
CONSENSO AO ROMPIMENTO: Até a vitória, no
facão ou na pedagogia, mas em luta!
Pois é camaradas, da
luta pela valorização da cultura africana nasce uma manifestação cultural
marginalizada. Na luta contra a criminalização dessa arte e em concordância com
o capital configurasse um novo formato para nossa capoeira: A de mercadoria.
“A capoeira é
um bem cultural produzido socialmente, acumulado, transmitido e praticado
historicamente em dadas relações de produção da vida. Portanto, para
entendermos com radicalidade o momento atual do desenvolvimento da capoeira é
preciso partir do grau de desenvolvimento das forças produtivas, lembrando que
o homem faz a sua história, mas não somente como ele quer, mas sim, conforme o
grau de desenvolvimento das forças produtivas e o legado deixado pelos que nos
antecederam (TAFFAREL, 2005).”
O desafio maior hoje de todos os praticantes de capoeira e principalmente
dos trabalhadores dessa arte é, para nós, o de garantir que sem perder seu
caráter dinâmico e transitório, a capoeira possa permanecer com seu caráter
improdutivo para o capital e principalmente que garanta direitos para seus
trabalhadores e humanidade para seus praticantes. Ousamos nessa defesa porque
entendemos que o processo de mercadorização da capoeira hoje a coloca no campo
dos esportes competitivos, das disputas por sobrevivência dos próprios
capoeiras que aos socos e pontapés muitas vezes não têm o esclarecimento de que
estão na mesma condição de classe e portanto devem se unir para que se tenha
alguma chance de garantir seus direitos e a preservação de sua cultura.
Na luta por uma cultura humanizadora e de resistência não só para a
capoeira mas para a sociedade em geral, deixamos para reflexão uma citação de
FALCÃO, 2003 sobre qual deve ser o papel de um ou uma capoeira no jogo da roda
e na roda da vida:
“Na roda, o capoeira é livre para jogar
como e quando quiser, sem pretensão de obter qualquer lucro. A partir desse
enfoque, a capoeira reflete o sentido de uma atividade descomprometida, à
vontade, sem objetivos práticos e imediatos. Vista sob a ótica do jogo, ela
consegue atender a necessidade de fantasia, utopia, justiça e estética e,
ainda, desperta o gosto pelo inesperado, pelo imprevisível. [...]. Num jogo
malicioso e mandingueiro, os movimentos corporais parecem ser inteligíveis e
decifráveis somente pelos seus executores, que, muitas vezes, não se dão conta
do expediente que improvisaram durante o mesmo”. (FALCÃO, 2003, p. 67).
Pensamentos
Iniciais...
Da
intelectualidade, da ciência e da luta pela transformação social:
“A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente
o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto
com o que eles produzem quanto com a maneira como produzem (MARX e ENGELS, p.
11, 2002)”.
E do rico saber popular:
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AREIAS, A. O que é
Capoeira. São Paulo, Coleção Primeiros Passos, 1989.
CAPOEIRA, N. Os
Fundamentos da Malícia. Rio de Janeiro, Record, 6° Edição, 2000.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia
do ensino de educação física.
São Paulo: Cortez, 1992.
FALCÃO, J. L. C. O processo de escolarização da Capoeira no
Brasil. In.: Revista Brasileira de Ciências do
Esporte, Santa Maria: v. 16, n.3, p. 173-182,
Maio /1995.
_______. Unidade Didática 2: Capoeira. In: KUNZ, E. (Org.).
In.: Didática da educação física. 3. ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003.
REGO,
W. Capoeira Angola. Ensaio Sócio-etnográfico. Salvador, Editora Itapuã, 1968.
SANTOS, L. S. Educação: educação física - capoeira. Maringá: Universidade
Estadual de Maringá, 1990.
SILVA, G. O. Capoeira
do Engenho à Universidade. São Paulo. CEPEUSP, 1995.
SOARES, C. E. L. A
Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas: Ed. Unicamp/Centro de Pesquisa em História
Social da Cultura, 2001.
TAFFAREL, C. N. Z. Capoeira
e Projeto Histórico. In: SILVA, A. M. e DAMIAMI, I.A. Práticas Corporais. Volume 1, Florianópolis: Editora Naemblu, 2005.
JOSÉ
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
[1] AREIAS,
aponta que isto se deu por volta de 1624 a 1630, quando surge o conhecido
Quilombo do Palmares (p. 12, 1989)
[2]
Historiador e aluno de Mestre Bimba conhecido nas rodas de capoeira como
“Americano”
[4]
Consultar o Código penal da República dos Estados Unidos do Brasil; decreto 847
de 11 de Outubro de 1890; Capítulo 13, dos Vadios e Capoeiras, artigo 402.
[5] Ver mais
em CAPOEIRA, p. 46, 1995.
[6] Ver mais
em CAPOEIRA, p. 55, 1995.
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