domingo, 26 de abril de 2020

Artigo - Rascunho para a Práxis de Capoeira EREEF 2009

Durante minha militância no Movimento Estudantil de Educação Física (MEEF), participei de vários encontros regionais e nacionais. Em alguns destes fui palestrante, debatendo ou elaborando práxis com a temática da capoeira. Abaixo segue um rascunho (não finalizado) de um artigo para a Mesa-Práxis do EREEF 2009, da Região Sul (R6).



Mesa Práxis – Tema: Capoeira: História e Contemporaneidade
Marcos Cordeiro Bueno (Canguru)
Professor de Capoeira pelo grupo Roda Livre, Acadêmico do Curso de Educação Física Licenciatura da UFSC e Professor Substituto da Prefeitura Municipal de Florianópolis.

Capoeira, do Mito pela Resistência a Realidade Mercadorizada.




DA ORIGEM A INTRODUÇÃO: Capoeira me chama...

No campo do senso comum, atualmente é quase que inconcebível levantarmos a hipótese de que o homem não pisou na lua. Fato é que nossos “brothers” dos EUA tem sido contestados com provas um tanto quanto concretas a respeito desta farsa que rendeu muitos dólares a burguesia internacional. Da mesma forma, no mundo da capoeira há uma espécie de “dogma” a respeito da origem dessa prática cultural. Conta-se que “movidos pelo instinto natural de preservação da vida, os escravos descobrem no seu corpo a essência da sua arma (AREIAS, 1989)”. Porém, ao pararmos para refletir sobre a origem da capoeira uma pergunta se levanta: Como que a capacidade de construção de uma luta corporal (capoeira) neste período[1] seria possível, uma vez que a forma desumana como os negros escravizados eram tratados não lhes dava condição para “desenvolver uma luta” no momento em que não estivessem trabalhando? Nestor CAPOEIRA, 1995, ao entrevistar Muniz Sodré[2] nos diz que:

“... a questão do começo é um falso problema – na capoeira e em geral. O importante não é o começo – a data histórica não tem tanto interesse assim -, mas sim o principio: quais as condições que a geraram e o que a mantém em expansão. Isto é: o conjunto de condições e circunstâncias históricas e culturais para que aquele jogo tenha expandido. No caso da capoeira, o começo é brasileiro, mas o principio – tanto o fundamento, a historicidade, quanto o mito – é africano” (CAPOEIRA, p.17, 1995).

Não entendemos que o começo seja um falso problema, uma vez que quanto mais profundas e hermenêuticas forem nossas reflexões, mais condições teremos de nos aproximar da compreensão do que é capoeira, não no sentido de folclorizá-la nem de estancá-la, mas sim produzir novos elementos para sua transformação e manutenção enquanto cultura.
A capoeira é o resultado de uma produção humana, ou seja, foi construída culturalmente e não “movida por um instinto natural”. Outro apontamento que julgamos importante é que “a atitude primordial e imediata do homem, em face da realidade, não é a de um abstrato sujeito (...), porém a de um ser que age objetiva e praticamente, de um indivíduo histórico, (...) dentro de um determinado conjunto de relações sociais (KOSIK, p.09-10, 1976).” Quando trazemos Kosik para o debate, buscamos a reflexão de que a “essência” é um fenômeno que caminha paralelamente com a aparência e que os argumentos de AREIAS, 1989, para explicar a essência da capoeira são no mínimo reducionistas. A prova disto é que sem base teórica de registro, o autor nos coloca que a capoeira vinha da imitação dos animais, das brincadeiras africanas, etc. e era praticada no interior das matas, para enfrentar o inimigo (AREIAS, p. 16, 1989). Ora, pela aparência podemos dialogar que muito do que praticamos hoje se parece com movimentos de diversos animais, mas isto não é suficiente para que constatemos que o “negro praticava a luta nas matas para enfrentar o inimigo”.
Nosso objetivo com estas primeiras reflexões é de não estigmatizarmos a capoeira enquanto dogma, nem a simplificarmos como produto da cultura ocidental, mas sim cavoucarmos mesmo que superficialmente nesta ‘arte’ que encanta e que tanto pode ser instrumento de resistência enquanto prática da cultura popular improdutiva, como também ser mercadoria a serviço da produção do capital.
Mas o que fez com que a capoeira perdurasse até os dias de hoje? Quais são as suas diferenças no campo do saber popular? Por que existem estas diferenças? Por que a Capoeira hoje é um conteúdo da Educação Física? O que nós enquanto brasileiros, capoeiristas e professores de Educação Física devemos nos atentar para a preservação desta arte sem que a mesma não seja estancada nem descaracterizada de seus elementos históricos? E agora José?
O poema de Carlos Drummond de Andrade serviria perfeitamente para a capoeira se a mesma pudesse ser inserida nos lugares onde aparece à palavra “José”. Estas perguntas são necessárias para que possamos compreender e principalmente transformar o que acontece com a capoeira nos dias atuais de um capitalismo selvagem que na ânsia de permanecer a todo custo, cria novas forças produtivas, ao mesmo tempo em que destrói outras. Nosso apontamento é de que a capoeira é uma força produtiva que vem sendo destruída de acordo com as necessidades do capital, contudo nós nos colocamos na defesa desta arte e é por essa razão que realizamos este trabalho. Porém além de tentarmos responder as primeiras questões levantadas, ainda nos proporemos a dialogar com os trabalhadores (Josés) da capoeira que determinantemente são os verdadeiros responsáveis pela existência da mesma. Mestre Pastinha em uma entrevista para um jornal local da Bahia na década de 1950, ao ser indagado sobre o que mais a capoeira precisava para “ganhar o mundo” respondeu: “- A capoeira não precisa de mais nada, quem precisa sou eu!”


DA MESCLA A REPRESSÃO: Não bate no Menino que o Menino Cresce...

Muito da cultura popular tem suas origens e manutenções no campo da oralidade. Muitos são os mestres e professores de capoeira que tem sua formação para capoeira no campo do saber popular com suas regras específicas, batizados formaturas e etc. Afinal de contas, esta é base histórica de transmissão do conhecimento de capoeira e dentro de todas as contradições aparentes no âmbito de sua história, a seguir apresentaremos algumas das quais julgamos importante para respondermos a pergunta: ‘O que pode ter acontecido para que a capoeira perdurasse até os dias de hoje?’
A lei de abolição da escravatura surge em 13 de Maio de 1888 e, cerca de dois anos após esta, Rui Barbosa com o intuito apresentado de limpar a sujeira que foi a escravidão, queima a maior parte dos documentos que a retratavam e que conseqüentemente tinham dados importantíssimos para elucidarmos as origens da capoeira. Especulamos acerca dos reais por quês que Rui Barbosa teria queimado estes documentos, mas, por nos faltar elementos para esta discussão, nos ateremos ao que ficou como registro sobre a capoeira e que data a partir do ano de 1810. O francês Debret e o alemão Rugendas, artistas desta época nos deixaram alguns registros valiosos acerca de como se dava à organização dos escravos, sua tradição cultural e dentre elas, os primeiros registros em pinturas do que viríamos a chamar de capoeira.
Ao falar sobre a escravidão, CAPOEIRA, 1995 diz que
“É comum imaginar-se a capoeira nascendo e crescendo no ambiente rural, mas talvez tenha sido nas cidades, onde circulava livremente um grande número de libertos e ‘negros de ganho’ – escravos que por conta própria exerciam alguma atividade e que ao fim do dia tinham de entregar alguma quantia prefixada a seu proprietário -, que esse processo de crescimento e transformação foi mais expressivo (p. 20, 1995)”.
Mas por que então muitos dos elementos da capoeiragem ganharam força somente nesta época e não antes? Em seu livro “Fundamentos da Malícia”, Nestor Capoeira nos traz dados importantes para sustentar esta hipótese de temporalidade, uma vez que, como o autor mesmo diz, em um bate papo informal com Muniz Sodré, explicou-se que no período anterior a meados de 1810-1830, os donos dos engenhos e fazendas permitiam a prática de manifestações culturais negras, com o objetivo implícito de que as mesmas serviriam de “válvula de escape para as tensões inerentes à escravidão” e principalmente para acentuar as rivalidades tribais. Ou seja, a política era de dividir para reinar (CAPOEIRA, 1995). O mesmo autor ainda nos coloca a dificuldade de acesso por parte da comunidade negra para uma possível revolta armada. Ele chama este período (1810-1830) de “a guinada histórica”, quando os negros diante da impossibilidade de uma revolta armada (bélica), “voltam-se para o lado ‘cultural’, que se torna fundamental: o cultural se torna arma (IBDEM, p.28, 1995)”. [grifo nosso]
Se a cultura se torna arma, diante da impossibilidade de o negro voltar para a áfrica, começa-se a construir uma ‘espécie’ de áfrica aqui no Brasil. A mescla dos vários rituais de dança, de luta e de culto aos deuses africanos com o cotidiano opressor de uma sociedade escravocrata e pré-capitalista, e ainda com os índios sendo colocados na mesma situação escrava dos negros, nos trás ás condições determinantes para o surgimento da base do que chamamos hoje de cultura brasileira.
Com a pressão mundial, a partir de 1850 é interrompido o tráfico negreiro para o Brasil. Isto dá mais força para o desenvolvimento da cultura agora ‘afro-brasileira’ e conseqüentemente para consolidação da capoeira, que neste momento, ousaríamos em dizer, como sendo luta. A pressão interna dos ‘abolicionistas’ também cresce na mesma proporção dos negros alforriados (que compraram sua liberdade). O liberalismo inglês também ganha força, com intuito principal de uma expansão capitalista, na qual a escravidão tinha de ser excluída, pois não atendia as necessidades da produção de mais valia, ou seja, do capital[3]. Migalhas surgem em forma de lei, não para o bem da população negra, mas para amenizar as pressões do capital internacional. São elas, a ‘lei do ventre livre’ em 1871 e a ‘lei dos sexagenários’ em 1885. O sistema escravocrata em declínio culmina na lei de abolição da escravidão em 1888.
Que toquem os atabaques e os berimbaus, o negro está livre! Era o que talvez dissessem os idealistas, mas o fato é que o negro livre da escravidão se deparou com o aprisionamento ao capital e, tendo sua agora “força de trabalho” trocada pela dos imigrantes que chegavam ao montes da Europa e alguns da Ásia, não teve outra opção senão a de lutar por sua sobrevivência sendo marginalizado e desenvolvendo novas técnicas de luta política. É também por esse momento que CAPOEIRA, 1995, nos traz o relato do historiador Júlio C. S. Tavares que classifica esse período de 1888 a 1889 (nascimento da república com cunho militar e autoritário) como um momento de “caos” (p.34, 1995). A partir da república, os militares têm como meta organizar este caos e isto significava dizer:
“... disciplinar a população negra, pois o caos eram os negros fujões; eram os quilombos na periferia da cidade; eram os negros libertos perambulando para baixo e para cima; era uma quantidade infinita de capoeiras – mais especificamente no rio de janeiro – que, em Maltas ou individualmente, vendiam indiscriminadamente seus serviços para abolicionistas, liberais, conservadores, monarquistas, republicanos (p. 35, 1995)”.
Esse período próximo, porém anterior a abolição foi sem dúvida o de maior repressão ao povo negro e isto se exemplifica no código penal de 1890 que criminaliza a prática da capoeira, e também os métodos de organização política dos negros que ficou conhecida, como chamaram os brancos, de ‘bando ou malta’[4]. Também é nesse período, a partir da construção do código penal, que se registra nos arquivos militares, muito da presença dos capoeiras, com maior expressividade em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. É possível que se tenha outros focos de capoeiras nos demais estados brasileiros, porém segundo CAPOEIRA 1995, REGO 1968, SANTOS, 1990 e AREIAS 1989, os registros dos capoeiras circulam somente nestes três estados.
Sem sair do campo bibliográfico e cientifico, mas também no intuito de valorizar o saber popular, citaremos a seguir uma música que dramatiza a realidade dos capoeiras desta época (fim do século XIX, início do século XX) de autoria do Mestre Mão Branca, sem esquecermos que “as cantigas de capoeira fornecem valiosos elementos para o estudo da vida brasileira, em suas várias manifestações, os quais podem ser examinados sob o ponto de vista lingüístico, folclórico, etnográfico e sócio-histórico (REGO, p.126, 1968)”.


Maltas de Capoeira

Foi no Rio de janeiro,
Pernambuco e velha Bahia
Chegaram os reis escravos
Colega veio as grandes periferias.
Vagando pela cidade,
Então o negro ia,
Para os portos e mercados,
Ou as feiras e ferrovias.
Sem ninguém pra lhe ajudar,
Colega veio e sem ter informação,
Sem dinheiro pra gastar,
Ai meu Deus as vezes sem ter o pão.
Negro ia vadiar
Na capoeira meu irmão.
Falava alto o berimbau,
Colega velho o pandeiro acompanhava,
Reco-reco de mansinho
Ai meu Deus e o jogo começava.
Rabo de arraia, na cabeçada e na rasteira
Os turistas iam ver
E davam dinheiro ao capoeira.
Mas o passado escravo
Fez o negro inferior,
Sem condições de viver
Colega veio marginal ele virou.
Assaltando casas nobres,
Foi mercenário sim sinhô
Até se vestia de mulher
Pra roubar seja quem for.
Manhosos e traiçoeiros
Eram Guaiamuns eram Nagoas
Maltas do Rio de Janeiro
Foi verdadeiro terror.
E nem mesmo a policia
Podia nada fazer,
Pois se ficassem frente a frente
Colega veio era certo alguém morrer.
A navalha afiada,
Faca envenenada
Bengala de lata e lenço no pescoço.
Malandro de branco descia a ladeira
E o povo dizia vem o capoeira...
Mas isso tudo é passado
E hoje melhor posso entender
Mas se eu fosse daquele tempo,
Eu também queria ser,
Pois das maltas de capoeira
Oi ia iá que lutaram pra viver,
Maltas de capoeira não existem mais
Mas o negro ainda luta por seus ideais...
Obrigado bom Deus não somos marginais
Malandro capoeira ficou para trás...



DA MARGINALIDADE: O negro não quer mais ter Senhor, Olha a Navalha aí cortou...

Como este trabalho é apenas um ensaio de pesquisa e carece de uma profundidade maior acerca do histórico da capoeira, a seguir apresentaremos alguns dos meandros que a capoeira e mais propriamente seus protagonistas passaram para desconstruir essa imagem de vagabundagem em seu meio, para a imagem de educação. Além disso, é importante se destacar que a autoria deste ensaio é de um capoeirista que também tem sua formação popular nesta manifestação cultural e que, portanto, trará dados de sua prática cotidiana envoltos das mais profundas reflexões para que não se perca o caráter científico desta pesquisa.
Dos focos de organização dos capoeiras, o de Pernambuco foi o que segundo CARNEIRO 1971, mais sofreu a repressão militar e que teve seu fim por volta de 1912. São poucos os registros que encontramos acerca dos acontecimentos em Pernambuco neste período que compreende 1890-1920, contudo nas rodas e cantigas de capoeira, comenta-se sobre um grande capoeira pernambucano que deu muito trabalho para as autoridades da época, conhecido como “Nascimento Grande”.
Já a capoeiragem no Rio de Janeiro foi marcada pela resistência dos negros e sua organização nos chamados Bandos ou Maltas já citados anteriormente. O que a diferenciou da capoeiragem baiana foi a questão do comportamento dos capoeiras da época. Tinham a audácia e o jeito de um “fadista”[5], porém a violência e a raiva do fardo dos séculos de escravidão e opressão.  Se Newton já há muito tempo determinou que para cada ação ocorre uma reação, no Rio de Janeiro esta lei foi bem sucedida. Quanto maior foi a repressão contra os capoeiras, mais os mesmos eram violentos em seus roubos, furtos e combates. É que verdade que cada vez mais se reduzia o número de capoeiras, contudo a “Revolta da Vacina” em 1904 e a “Revolta da Chibata”[6] em 1910 são exemplos de focos de resistência que perduraram até a década de 1930 quando que por influência da capoeira baiana a repressão começa a perder força.
A capoeira na Bahia passou por um processo também violento como nos demais estados, porém por não ser mais o principal estado brasileiro, nem mais ter a capital do país em seus limites, acabou por ter outras determinações que se diferenciavam principalmente da capoeiragem carioca. Uma delas é o fato de não ter tantas perseguições militares e o outro é porque havia um fio condutor entre os capoeiras baianos da época e os terreiros de candomblé. O capoeira Baiano que já folclorizava sua prática corporal passa a ter um propósito que é o de lutar para provar que a capoeira não deve ser considerada crime e principalmente, que assegurasse a liberdade de seus praticantes, uma vez que o código penal dizia o contrário. Também é na Bahia que se tem os primeiros depoimentos de capoeiras que falam sobre o berimbau nas rodas de capoeira, além de outros elementos do batuque e da herança musical africana em geral (REGO, 1968).

DA SISTEMATIZAÇÃO A EDUCAÇÃO: Mas o veneno da cobra se espalhou, se o caboclo não morre viciou...

Nas rodas de capoeira de nossos dias, muito se é lembrado acerca de grandes mestres de um passado recente. Com a exceção de Zumbi dos palmares que percorreu nossa história nos fins do século XVII e que ainda hoje é lembrado nas rodas, a maioria dos mestres relembrados nas rodas de hoje são nascidos a partir da proclamação da república (1889). Nascimento Grande, Manduca da Praia, Besouro Mangangá, e posteriormente Canjiquinha, Cobrinha Verde, Noronha, Leopoldina, Valdemar da Paixão, Paraná, Madame Satã, Totonho de Maré, são alguns dos que se ouve falar ainda nas rodas de hoje. Porém os mais relembrados são definitivamente Bimba e Pastinha. São todos estes e muitos outros, que foram fundamentais para a manutenção da capoeira e sua perduração até os dias de hoje.
Como já dito no capítulo anterior, até o início da década de trinta a capoeira era vista predominantemente como crime, não só do ponto de vista legal, mas também do ponto de vista da decadente nobreza e ascendente burguesia nacional. O capoeira é o vadio, o vagabundo, o imundo. As rodas de capoeira na Bahia acontecem de forma informal e, muitas vezes praticadas pelos trabalhadores estivadores do porto de Salvador que tinham como propósito ganhar algum dinheiro com os turistas da época, provar sua valentia, apostar cachaça etc. sem um objetivo claro de preservar a cultura da capoeira. No entanto, um filho de um mestre na arte do batuque de nome Manoel dos Reis Machado (Bimba) e amante da capoeiragem, não se bastando às formas de organização da capoeira na década de 1920, resolve transformar esta imagem do capoeira enquanto vagabundo para o capoeira “educador”. No Documentário “Mestre Bimba, a Capoeira Iluminada”, o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, 2001 relata que Bimba para discriminalizar a capoeira, cria uma espécie de “escola” de capoeira colocando a mesma entre “quatro paredes”, além de construir uma série de movimentos e sistematizá-los em seqüências de ensino. Com essa guinada para espaços fechados, a capoeira enquanto saber popular perde muito de seus rituais característicos, porém ganha dinâmica e ao mesmo tempo uma série de novos elementos reguladores, que começam a delinear muito da prática da capoeira que se tem na atualidade. Ao mesmo tempo vários capoeiras se opõem a idéia de Mestre Bimba e buscam resistência no sentido de preservar as características da capoeira jogada até então, mas também acabam por criar outras regras e outras formas reguladores inclusive dando como nome deste estilo de “Capoeira Angola”. O nome veio em oposição a capoeira criada por Bimba e seus discípulos que ficou conhecida como “Capoeira Regional”. Há mais uma série de elementos que aumentaram a distância entre os estilos de capoeira, mas por uma questão de tempo, optaremos por trazer estes dados na parte prática de nosso trabalho. Contudo o que é necessário buscar esclarecer entre nós capoeiras da atualidade, é o fato de que a capoeira jogada hoje não é a que era jogada há cem anos atrás, mas que tantos os estilos de Angola ou Regional além de outros que hoje circundam as rodas de capoeira no mundo vem do mesmo lugar: Do ‘Brasil Africano’ urbano, numa complexa formação de valores em oposição aos hegemônicos valores de sociedade do ocidente capitalista e que com a consolidação da produção de capital, tornam-se mercadorias a serviço do mesmo.

DO CONSENSO AO ROMPIMENTO: Até a vitória, no facão ou na pedagogia, mas em luta!

Pois é camaradas, da luta pela valorização da cultura africana nasce uma manifestação cultural marginalizada. Na luta contra a criminalização dessa arte e em concordância com o capital configurasse um novo formato para nossa capoeira: A de mercadoria.
“A capoeira é um bem cultural produzido socialmente, acumulado, transmitido e praticado historicamente em dadas relações de produção da vida. Portanto, para entendermos com radicalidade o momento atual do desenvolvimento da capoeira é preciso partir do grau de desenvolvimento das forças produtivas, lembrando que o homem faz a sua história, mas não somente como ele quer, mas sim, conforme o grau de desenvolvimento das forças produtivas e o legado deixado pelos que nos antecederam (TAFFAREL, 2005).”
O desafio maior hoje de todos os praticantes de capoeira e principalmente dos trabalhadores dessa arte é, para nós, o de garantir que sem perder seu caráter dinâmico e transitório, a capoeira possa permanecer com seu caráter improdutivo para o capital e principalmente que garanta direitos para seus trabalhadores e humanidade para seus praticantes. Ousamos nessa defesa porque entendemos que o processo de mercadorização da capoeira hoje a coloca no campo dos esportes competitivos, das disputas por sobrevivência dos próprios capoeiras que aos socos e pontapés muitas vezes não têm o esclarecimento de que estão na mesma condição de classe e portanto devem se unir para que se tenha alguma chance de garantir seus direitos e a preservação de sua cultura.
Na luta por uma cultura humanizadora e de resistência não só para a capoeira mas para a sociedade em geral, deixamos para reflexão uma citação de FALCÃO, 2003 sobre qual deve ser o papel de um ou uma capoeira no jogo da roda e na roda da vida:
“Na roda, o capoeira é livre para jogar como e quando quiser, sem pretensão de obter qualquer lucro. A partir desse enfoque, a capoeira reflete o sentido de uma atividade descomprometida, à vontade, sem objetivos práticos e imediatos. Vista sob a ótica do jogo, ela consegue atender a necessidade de fantasia, utopia, justiça e estética e, ainda, desperta o gosto pelo inesperado, pelo imprevisível. [...]. Num jogo malicioso e mandingueiro, os movimentos corporais parecem ser inteligíveis e decifráveis somente pelos seus executores, que, muitas vezes, não se dão conta do expediente que improvisaram durante o mesmo”. (FALCÃO, 2003, p. 67).



Pensamentos Iniciais...
Da intelectualidade, da ciência e da luta pela transformação social:

“A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que eles produzem quanto com a maneira como produzem (MARX e ENGELS, p. 11, 2002)”.

E do rico saber popular:


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AREIAS, A. O que é Capoeira. São Paulo, Coleção Primeiros Passos, 1989.

CAPOEIRA, N. Os Fundamentos da Malícia. Rio de Janeiro, Record, 6° Edição, 2000.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.

FALCÃO, J. L. C. O processo de escolarização da Capoeira no Brasil. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Santa Maria: v. 16, n.3, p. 173-182, Maio /1995.

_______. Unidade Didática 2: Capoeira. In: KUNZ, E. (Org.). In.: Didática da educação física. 3. ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003.

REGO, W. Capoeira Angola. Ensaio Sócio-etnográfico. Salvador, Editora Itapuã, 1968.

SANTOS, L. S. Educação: educação física - capoeira. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 1990.

SILVA, G. O. Capoeira do Engenho à Universidade. São Paulo. CEPEUSP, 1995.
SOARES, C. E. L. A Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas: Ed. Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2001.

TAFFAREL, C. N. Z. Capoeira e Projeto Histórico. In: SILVA, A. M. e DAMIAMI, I.A. Práticas Corporais. Volume 1, Florianópolis: Editora Naemblu, 2005.



JOSÉ
 
             E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?
          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?
          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?
          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?
          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!
          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?

 
 



[1] AREIAS, aponta que isto se deu por volta de 1624 a 1630, quando surge o conhecido Quilombo do Palmares (p. 12, 1989)
[2] Historiador e aluno de Mestre Bimba conhecido nas rodas de capoeira como “Americano”
[3] Tratamos aqui de ‘capital’ como sendo segundo MARX, 19xx, a valorização do valor.
[4] Consultar o Código penal da República dos Estados Unidos do Brasil; decreto 847 de 11 de Outubro de 1890; Capítulo 13, dos Vadios e Capoeiras, artigo 402.
[5] Ver mais em CAPOEIRA, p. 46, 1995.
[6] Ver mais em CAPOEIRA, p. 55, 1995.

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