domingo, 26 de abril de 2020

Artigo - A Capoeira como Instrumento Político-Pedagógico para Auto-Organização dos Moradores do Alto da Caieira do Saco dos Limões/Florianópolis



Artigo fruto da Pesquisa no Alto da Caieira. Virou capítulo de livro, abaixo o link e o artigo na íntegra...




UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA - UFSC

CENTRO DE DESPORTOS - CDS

NÚCLEO DE ESTUDOS
PEDAGÓGICOS EM EDUCAÇÃO FÍSICA - NEPEF


A Capoeira como Instrumento Político-Pedagógico para Auto-Organização dos Moradores do Alto da Caieira do Saco dos Limões/Florianópolis

Marcos Cordeiro Bueno
Paulo Ricardo do Canto Capela
Edgard Matiello Júnior

1. Introdução

Levar o conhecimento científico para as comunidades mais isoladas territorialmente das grandes cidades por se tratarem de cidadãos empobrecidos financeiramente deveria ser o mínimo que as universidades se propusessem a fazer. Além disso, deveria ser o papel da universidade estabelecer um profundo diálogo com o saber popular sem desmerecê-lo, mas o articulando com o conhecimento científico na busca da superação das desigualdades promovidas por nós seres humanos a partir da forma como nossa vida é produzida na atualidade: a forma capital (MÉSZÁROS, 2006). Infelizmente poucas são as ações deste tipo encampadas por nossa universidade[1], uma vez que a maioria de nossas autoridades, união, estado e município, se preocupa em concretizar a manutenção dos lucros dos grandes “patrões” e pouco se importa com os trabalhadores que efetivamente constroem nosso país. Apesar desta balança nunca pesar mais para o lado da classe trabalhadora[2], algumas políticas públicas tem possibilitado a abertura desse caminho de forma frágil e insuficiente, mas que já começa a produzir algum efeito, como é o caso deste trabalho. Trata-se da REDE CEDES – Centro de Desenvolvimento do Esporte Recreativo e do Lazer, que é uma política pública de esporte e lazer na cidade e que busca esta interlocução – universidade/comunidade – com o intuito paliativo de amenizar esse “abismo social” entre burgueses e proletários[3], acerca do acesso aos programas de esporte e lazer.
Este artigo é fruto da continuidade de nossos trabalhos de intervenção político-pedagógica na comunidade do Alto da Caieira do Saco dos Limões (ACSL), em Florianópolis, Santa Catarina. No ano de 2007 estabelecemos uma relação com esta comunidade e, de lá para cá por via deste programa da rede CEDES pudemos já sistematizar nosso primeiro trabalho intitulado “FUTEBOL E CAPOEIRA NO ALTO DA CAIEIRA: rumo à consolidação de Núcleo de Cultura Popular e de Movimento”, que ainda está para ser lançado nos próximos volumes da série “Esporte e Lazer na Cidade”. No inicio do ano de 2008, por falta de verbas para a continuidade deste trabalho que se iniciou no ano anterior, suspendemos temporariamente as intervenções no âmbito da educação física, porém mantivemos contato com as lideranças comunitárias sempre as auxiliando em seu processo de auto-organização. A partir do segundo semestre de 2008 e primeiro semestre de 2009, com a renovação de uma bolsa de monitoria, pudemos retomar os trabalhos no âmbito do esporte e lazer na comunidade e a sistematização deste trabalho encontra-se neste artigo.
Com a possibilidade de retomada das intervenções pedagógicas, apostamos na capacidade de intervenção da capoeira como instrumento político-pedagógico de inserção na comunidade do ACSL, uma vez que o único espaço de lazer é um campo de areia[4] batido com traves que indicam a prática de futebol, mas que vai muito além disso, pois neste mesmo espaço se dá toda a dinâmica de lazer desta comunidade, desde as brincadeiras infantis como pular corda, jogar bolinha de gude, até as rodas de prosa, na qual se fazem fogueiras para reunir os amigos e contar os “causos”, etc.
Mas por que a capoeira? Porque na experiência do ano anterior, muito se avançou na perspectiva de nos utilizarmos desta manifestação da cultura corporal como instrumento de conscientização e auto-organização das crianças e adolescentes do ACSL, mas por questões adversas nos faltaram elementos para melhor fundamentar ou relatar nossa experiência. Além disto, nesta etapa do projeto nós estabelecemos parceria com a proposta do “Projeto Acadêmico e Popular”, projeto este construído a partir da experiência de alguns professores do Núcleo de Estudos Pedagógicos em Educação Física – NEPEF/UFSC e que tem por objetivo comum também fomentar esta interlocução entre a Universidade e a comunidade a partir de práticas corporais como a capoeira.
Agora para concretização de nosso desafio (auxiliar no processo de auto-organização dos moradores do ACSL por meio de iniciativas de esporte e lazer), utilizamos a capoeira como mais um agente mobilizador, dentre as várias práticas corporais[5] que fazem parte da vida dos moradores do ACSL. Isto significa dizer que assim como a prática da “bolinha de gude”, ou a “pelada” do fim de semana que acontece de forma espontânea quando as próprias crianças se organizam, nós introduzimos a capoeira com este mesmo caráter espontâneo, contudo, permeado pelo conhecimento científico e com objetivos claros de organização comunitária, a nível educacional para infância e juventude.

2. Das Adversidades a Luta: O campinho é nosso e temos direito a muito mais

Já há um tempo atrás nossos esforços tem sido de não apenas levar o conhecimento cientifico para o morro do Alto da Caieira do Saco dos Limões (ACSL), no âmbito da Educação Física e mais especificamente com a capoeira, mas também auxiliar esta comunidade em seu processo de auto-organização. Para sermos mais específicos: Há um espaço aberto na comunidade que há muito vinha sendo usado como campo de futebol. É neste mesmo espaço que há dois anos atrás nós começamos nossa atuação político-pedagógica, na época com a Capoeira e o Futebol. No último semestre de 2008, quando voltamos a levar a proposta de capoeira para o morro, nos deparamos com um novo cenário, no qual o ACSL foi alvo de disputas políticas eleitoreiras. No artigo anterior relatamos na forma de esboço o que estava acontecendo na comunidade naquele momento (outubro e novembro de 2008) e agora traremos mais alguns elementos para evidenciar o descaso das autoridades com as comunidades financeiramente empobrecidas de nosso país.
A comunidade estava muito diferente, com vários muros de pedra nos entornos, com algumas ruas asfaltadas e com um campo de futebol transformado em canteiro de obras impedindo qualquer possibilidade de lazer no mesmo. Era época de eleição para prefeito e as obras do PAC (Programa de aceleração de Crescimento do Governo Federal) estavam sendo executadas com grande visibilidade em todo o Maciço Central (denominação da área dos morros que compõe a região central de Florianópolis incluindo o ACSL). Nós que tínhamos como plano utilizar este mesmo campo de futebol para nossa intervenção pedagógica, nos aproveitamos deste momento para auxiliar a comunidade a lutar pela garantia de ao menos este espaço de lazer, pois o mesmo é o único no alto do morro. Trazendo a fala dos próprios moradores: “Fomos nós que abrimos este campinho à foice e enxada a mais de quinze anos” (diz um dos moradores). Isto já é mais do que suficiente para esclarecer as autoridades que aquele campinho é direito de toda comunidade, porém uma outra fala de outro morador reforçou e vem reforçando ainda mais esta reivindicação: “O campinho é o único espaço para brincar, sem ele, os crimes só vão aumentar” (vice-presidente da associação de moradores). A pressão na prefeitura para que aquele material de construção que estava no campinho saísse do mesmo aumentou e conseguimos recuperar este espaço, porém agora com muitas pedras e restos de materiais de construção além de não mais ter sequer as traves para o futebol.
            Alguns passos já haviam sido dados e nossa intervenção com a capoeira estava para começar, quando, de repente chegam as fortes chuvas em outubro e novembro, fazendo com que muitas pessoas do morro perdessem suas casas e outras permanecessem de sobre aviso que a qualquer momento tivessem que deixar suas moradias. O campinho tornou-se um lamaçal e, ao mesmo tempo, começou a ser cogitado para se transformar em moradias “provisórias” até que a prefeitura realocasse estes moradores. A situação era extremamente delicada, uma vez que aqueles moradores não poderiam ficar sem ter onde morar e a comunidade não podia abrir mão do único espaço de lazer que possuía. A nossa atuação neste momento foi voltada para esclarecer a todos que não podíamos brigar entre si tentando definir entre a moradia dessas pessoas e o campinho, mas sim exigir das autoridades competentes que garantissem a moradia e a reestruturação do campo, no intuito de efetivamente dar dignidade ao trato com o lazer para os moradores do alto da caieira, além de moradia para os mesmos. Neste momento a comunidade deu um bom exemplo de organização, ao acionar a defesa civil e pressionar as autoridades para o beneficiamento do campinho. As famílias atingidas passaram a receber um “auxilio aluguel” e o campinho não foi perdido.
            Aos poucos este espaço de lazer foi sendo reestruturado, primeiro com o adensamento do terreno, depois com a colocação das traves de eucalipto e por fim com a colocação de areia de praia no mesmo. Não podemos deixar de relatar o episódio no inicio deste ano, quando a empresa contratada pela prefeitura para as obras do PAC estava a colocar as traves e foi questionada pelos jovens da comunidade sobre o quanto cada trave estava torta com relação ao esquadro do campo. Os trabalhadores da empresa não aceitaram as críticas dos jovens e continuaram colocando as traves quando um dos jovens moradores colocou: “O campinho é nosso por direito, não queremos ele de qualquer jeito, mas sim do nosso jeito” (questionou o jovem morador). As discussões continuaram até que chamaram o responsável pela obra e o mesmo concordou com o jovem e ordenou o re-enquadramento das traves. O fato é que isto estava longe de ser o razoável, pois as mesmas traves eram antigos postes de madeira cortada e a madeira era de eucalipto, extremamente pesada e perigosa. Para piorar a situação, as traves foram pregadas. Os próprios moradores sabiam que a madeira eucalipto não pode ser pregada, pois quando chove ela incha e acaba soltando os pregos. A desculpa da empresa é de que não possuía nenhuma furadeira para poder utilizar parafusos.
            Assim como PISTRAK, 2003, nós temos o entendimento que a auto-organização no caso das crianças e dos jovens do ACSL deve ser construída a partir das necessidades concretas da comunidade e que, sem o acesso a uma formação político-pedagógica coerente com a transformação da realidade, o que acaba acontecendo é uma atividade espontaneísta e isolada de resistência que não alcança condições suficientes para a transformação de algum fenômeno (LENIN, 1965). No caso da reivindicação do ajuste das traves do campo, há muita história de formação e atuação política organizada[6] para a síntese elucidada pelo jovem morador.
            Recorrendo a PISTRAK, 2003,
            “Para falar de forma mais concreta, isto quer dizer que é preciso suscitar nas crianças (e nos jovens)[7] preocupações carregadas de sentido social, ampliá-las, desenvolvê-las, possibilitando às próprias crianças a procura das formas de realização” (p. 182, 2003).
            Nosso campo de intervenção se focou sempre nas atividades oriundas do campinho, mas isto não significa dizer que a auto-organização comunitária também se bastou a isto. Como o ACSL ainda está em processo de reestruturação com as obras do PAC, constantemente acontecem várias reuniões tanto entre os moradores, como com autoridades responsáveis pelas obras e, nestes espaços, vários são os exemplos de auto-organização.
            O que também é muito importante destacar em nível de relato é a fala de uma das crianças participantes das atividades de capoeira, quando as chuvas do inicio deste ano (2009) começaram a atrapalhar nossas atividades: “Se não dá pra fazer capoeira no campinho, por que a gente não constrói uma casa pequena? É só cada um dar um saco de cimento e todo mundo ajuda a construir (ela tem 12 anos)”. Não é de nosso interesse desresponsabilizar o papel do estado em garantir o acesso ao lazer, nem tampouco deixarmos de lado o que esta menina quis trazer como proposta nesta fala. Por mais romântica que possa parecer o fato de “construirmos uma casa pequena” ou “todo mundo ajuda a construir”, isto nos remete a reflexão que a auto-organização dos moradores começa a partir das necessidades coletivas emergidas de necessidades anteriores. A necessidade de querer jogar capoeira foi “evoluída” para a construção de um espaço físico, que por conseqüência se aglutinou com uma série de reivindicações infantis e da comunidade em geral que vêm desencadeando processos significativos para a superação das desigualdades sociais na comunidade. O reflexo disto é a revitalização do campinho (ou a luta por sua revitalização) e de forma mais ‘mediata’ a reestruturação de todo o Maciço Central, através de moradias, pavimentação nas ruas e saneamento básico.

3. Capoeira me leva, capoeira me traz: Do Objeto de Pesquisa ao Campo de Intervenção.
            Dentre todas as dificuldades, nossos trabalhos foram somente reiniciados neste semestre (1° de 2009) e logo nos deparamos com um novo-velho problema: A chuva. As atividades de capoeira só podem ser realizadas no campinho que não possui cobertura nenhuma, o que acaba por impedir que se tenha capoeira em dias de chuva. Logo, quando não chove acontece à brincadeira e apesar deste empecilho as crianças já se acostumaram a olhar pro céu antes de ir brincar e, de forma precarizada, as aulas mantiveram uma continuidade.
            Como o campo é o único espaço de lazer, além do futebol e da capoeira, as crianças utilizam este espaço para brincar de bolinha de gude, para soltar pipa, rolar na areia e tudo mais que a imaginação infantil, um espaço aberto e muita areia podem permitir. Isto já nos reporta para a metodologia do ensino da capoeira neste espaço “informal”: Nosso meio de inserção na comunidade é a capoeira e, dentre nossos objetivos, um dos principais é a humanização das crianças e adolescentes no sentido de re-significar as práticas culturais da capoeira, refletindo sobre sua historicidade e apontando-a como instrumento político-pedagógico de auto-organização e superação da realidade imposta pelo capital. Partindo de uma perspectiva crítica de análise da realidade, não é de nosso interesse transformar pessoas em números, como acaba acontecendo em tantas pesquisas na área da Educação Física. Nossa metodologia se fundamentou a partir de SILVA e DAMIANI, 2005, desconstruindo a idéia de que os sujeitos da pesquisa se tornem objetos ou coisas, mas mantendo a rigorosidade e aspiração ao conhecimento cientifico assim como com o saber popular. Seguindo os passos das autoras,
“Na articulação interna da pesquisa e do grupo de pesquisa, trabalhamos na perspectiva da construção do conhecimento e da qualificação da intervenção social avançando por meio da reflexão crítica e interação (SILVA, 2005. p. 25)”.
É também de nosso interesse enquanto pressuposto teórico metodológico possibilitar as crianças e adolescentes freqüentadores do campinho do ACSL “o desenvolvimento da condição de humanidade, [...] a partir de um conjunto de experiências que se constroem no corpo, a partir do corpo e por meio do corpo (SILVA, 2005. p. 23)”.Para concretização de nosso pressuposto, utilizamos a capoeira como mais um agente mobilizador, dentre as várias práticas corporais que fazem parte da vida dos moradores do ACSL. Não havia, portanto em nossas dinâmicas, a cobrança formal de participação das crianças e adolescentes. Porém foi a atratividade de nossas propostas para cada sábado que fez com que conquistássemos espaço e conseqüentemente legitimidade enquanto prática de lazer no campinho entre todos os seus freqüentadores, desde os assíduos que logo se entretiveram com a capoeira, quanto com os que não a praticam, mas estão sempre por perto observando.
As atividades sempre começam por volta das 09:30h dos sábados e, como não temos uma organização formalizada, o que acontece é que sempre que chegamos já há algumas crianças nos esperando ou brincando de outra coisa e as demais começam a aparecer quando os berimbaus são envergados e começam a ser tocados. Como fazem os egípcios tocando flauta para a cobra sair do vaso, na caieira, aos sábados pela manhã, nós tocamos os berimbaus e as crianças começam a aparecer. Isto é apenas uma analogia, mas as metáforas ainda hoje são elementos de explicação (polêmica) da origem da capoeira e geralmente são evidenciadas nos cânticos de suas rodas.

3.1. Abre a roda moçada que eu já vou: Do Contexto da capoeira
            Se alguns concordam com a expressão de Mestre Pastinha quando diz que “a capoeira é tudo o que a boca come[8]”, nós preferimos, ao invés de trazer uma afirmação pronta, ampla e generalista, exemplificar nossa compreensão através da história da mesma estabelecendo relação com conhecimento científico e o saber popular. Não com o intuito de responder a pergunta – o que é a capoeira – mas sim trazer algumas reflexões de como ela se constrói na atualidade enquanto força produtiva e permeada pela contradição resistência/mercadoria recorremos a TAFFAREL, 2005:
            “A capoeira é um bem cultural produzido socialmente, acumulado, transmitido e praticado historicamente em dadas relações de produção da vida. Portanto, para entendermos com radicalidade o momento atual do desenvolvimento da capoeira é preciso partir do grau de desenvolvimento das forças produtivas, lembrando que o homem faz a sua história, mas não somente como ele quer, mas sim, conforme o grau de desenvolvimento das forças produtivas e o legado deixado pelos que nos antecederam (TAFFAREL, 2005)”.
            É na história da realidade afro-brasileira, marcada pelas contradições de uma sociedade de classes, preconceituosa, escravista e conservadora, que surgem os primeiros registros da vadiação ou capoeiragem. Até hoje sua origem é um mistério e os próprios pesquisadores, historiadores e capoeiristas divergem sobre o assunto, mas é no seio dessa contradição que a defendemos como instrumento de resistência enquanto prática da cultura popular improdutiva e não como mercadoria a serviço da produção de capital (BUENO, 2009). E é nesta defesa que entendemos que em sua prática corporal (o jogo, o canto, o mito, a roda, etc.) muito da história afro-brasileira se manifesta, hora imersa já pela ideologia dominante, hora próxima de uma cultura de resistência à imposição do sistema capitalista.
            São muitas as formas de compreensão da capoeira, inclusive com várias formas de defesa da mesma enquanto instrumento de resistência e alguns poucos que a defendem em seu processo mercadorizado.  No entanto na prática concreta, principalmente por falta de incentivo à cultura através de políticas públicas e pela falta de formação humana crítica dos capoeiras, o que mais acontece é a venda da força de trabalho dos próprios para o ensino da mesma transformando a “aula de capoeira” em mercadoria (ARAÚJO, 2008).
            O fato que mais importa para o nosso trabalho é com que método de ensino da capoeira devemos nos utilizar para transformá-la em instrumento político-pedagógico a fim de ganharmos legitimidade na comunidade, construirmos com as crianças e adolescentes um sentimento de identidade com esta manifestação da cultura corporal (COLETIVO DE AUTORES, 1992) e ainda darmos conta do trabalho de auto-organização comunitária. Para a nossa defesa de compreensão da capoeira, vale destacar que:
“Seus gestos, hoje esportivizados e codificados em muitas ‘escolas’ de capoeira, no passado significaram saudade da terra e da liberdade perdida: desejo velado de reconquista da liberdade que tinha como arma apenas o próprio corpo. Isso leva a entender a riqueza de movimento e de ritmos que a sustentam, e a necessidade de não separá-la de sua história, transformando-a simplesmente em mais uma ‘modalidade esportiva’ (COLETIVO DE AUTORES, 1992)”.
            A visão das crianças do ACSL é de que a capoeira é mais uma brincadeira de lutar. Nós temos acordo com isso, porém a violência transparece muito nas atitudes de cada criança, o que torna a nossa brincadeira um pouco mais perigosa. São duas as hipóteses que levantamos a partir desta situação: Se esta violência corporal apresentada por cada criança é reflexo das condições de vida da maioria dos moradores do ACSL e/ou se a forma mercadorizada da capoeira veiculada nos espaços midiáticos auxiliou nesta compreensão de capoeira enquanto luta marcial esportivizada. Apesar disto, tornou-se nossa tarefa desconstruir esta concepção de capoeira das crianças e apresentar as mesmas a importância da solidariedade, da brincadeira e da comunhão na capoeira, uma vez que nosso foco é pautado na busca por uma sociedade justa, referência esta que tem íntima relação com o processo de libertação da escravidão e da resistência por parte dos capoeiras no que diz respeito à discriminação que a cultura popular em geral enfrenta cotidianamente.

3.2. Quem é você que vem de lá: Das intervenções – aulas encontro.
            Para iniciar os trabalhos com a capoeira, precisávamos organizar uma estratégia de divulgação das aulas que aconteceriam nos sábados, no campinho para toda a comunidade, principalmente para as crianças. Logo planejamos uma ida a ONG situada no ACSL regida pela Igreja Católica e que tem como objetivo a educação complementar de 200 crianças e adolescentes no período de contra-turno escolar. Para não quebrarmos qualquer dinâmica de rotina deste projeto, conversamos com algumas lideranças comunitárias e marcamos um dia para irmos ao encontro das crianças e adolescentes moradores do ACSL no horário de término das atividades da ONG. Como se deu este primeiro encontro é o relato que contamos a seguir:
            Fim de tarde no ACSL. Cerca de cem crianças estão para terminar seu dia no “projeto[9]”. Nós, do meio da rua anunciamos que o berimbau estava voltando a ser tocado na caieira. Prontamente as crianças foram liberadas do projeto e vieram ao nosso encontro. Como já havia muito tempo que não tínhamos uma intervenção prática com a capoeira no morro, muitas crianças ainda não nos conheciam. A curiosidade tomou conta da maioria: O que é isto (berimbau)? É de ouro (fazendo referência ao dobrão[10])? Posso tocar? Você consegue tocar bem rápido? Dentre outros tantos questionamentos. Passada a curiosidade, alguns mais ousados tentaram tocar o berimbau, mas logo passavam para outra criança. Nós aproveitamos o momento para chamar a atenção de todos e lembrar que no próximo sábado daríamos inicio as atividades com a capoeira no campinho e que todos estavam convidados.
            É importante destacarmos que os planos das intervenções – aulas de capoeira eram sempre organizados com base, primeiro na experiência do bolsista acerca da mesma, inclusive reconhecido como professor pela dinâmica da cultura popular; e pelo acesso ao conhecimento científico produzido na universidade e também divulgado na mesma sobre capoeira. Contudo, destacamos, em nível de referência algumas produções científicas que fundamentaram nossos planos de intervenção. Trata-se dos trabalhos de FALCÃO, 2003; SILVA, FALCÃO e ACORDI, 2005 e 2007; SILVA, 1995; SILVA, 2006; REGO, 1968; CAPOEIRA, 1992; ARAÚJO, 2008; além da base de formação político-pedagógica citada em vários trechos deste trabalho.

3.2.1. Vai jogar moleque vai jogar: Botando a mão na massa.
            Em nossa primeira intervenção prática com a capoeira, constatamos que muitas das crianças que estavam neste dia nunca haviam tido acesso a esta modalidade/brincadeira. A experiência da roda de capoeira também foi muito marcante. Como a visão predominante das crianças é somente o jogo ou a luta da capoeira, as mesmas encontraram uma certa dificuldade em estabelecer relação, dos instrumentos da capoeira com o jogo e principalmente com os papéis que os demais da roda representam no bater das palmas e na cantoria. O fato é que os jogos de capoeira aconteceram e ali já se começou a construir uma relação de respeito entre as crianças, porém o trabalho com a música, o bater das palmas e a organização da roda para que se mantivesse o formato de roda foi uma “bagunça”. Dizemos isto com tranqüilidade e de forma positiva, pois era a primeira vez para muitas das crianças jogaram capoeira e, apesar da desorganização da roda todos se divertiram muito. Vale ressaltar que nosso intuito com a roda de capoeira caminha em concordância com FALCÃO, 2003, quando descreve sobre qual deve ser o papel de um ou uma capoeira no jogo da roda e na roda da vida:
“Na roda, o capoeira é livre para jogar como e quando quiser, sem pretensão de obter qualquer lucro. A partir desse enfoque, a capoeira reflete o sentido de uma atividade descomprometida, à vontade, sem objetivos práticos e imediatos. Vista sob a ótica do jogo, ela consegue atender a necessidade de fantasia, utopia, justiça e estética e, ainda, desperta o gosto pelo inesperado, pelo imprevisível. [...]. Num jogo malicioso e mandingueiro, os movimentos corporais parecem ser inteligíveis e decifráveis somente pelos seus executores, que, muitas vezes, não se dão conta do expediente que improvisaram durante o mesmo”. (p.67, 2003).
            No decorrer das intervenções, apesar dos dias de chuva, uma certa continuidade de participação nas aulas por parte das crianças foi sendo construída e os planejamentos se davam sempre após o registro da última intervenção. Buscávamos sempre levantar novas possibilidades de trabalho com as crianças a partir do que elas mesmas mais se entretiveram na aula anterior, além de termos os cuidados de não descaracterizar a capoeira desvinculando-a de sua historicidade. Isto também levando em conta novas possibilidades de intervenção buscando superar as dificuldades encontradas ao longo desse processo.
           
3.2.2. Quando eu entrar você entra, era meu mano era eu: Do Jogo Dialogado.
            Como pudemos perceber desde a primeira intervenção prática, o que mais aguçava a vontade de participação das crianças era o jogo da capoeira. Logo nos propusemos a aprofundar um pouco mais esse tema, não no sentido de se bastar ao jogo, mas com o intuito de ampliar as possibilidades de brincadeira da capoeira para além do mesmo. Concordamos com SILVA, etc. e al. 2007, com o início de seu pensamento ao afirmar que “os jogos da capoeira são compreendidos como diálogos de perguntas e respostas [...] (p.94, 2007)”. Porém o mesmo autor coloca esse diálogo como tendo um vencedor e um vencido (Ibidem, p. 94 e 95, 2007), o que para nós não é coerente uma vez que o que construímos no jogo da capoeira com as crianças é o estabelecimento de relações humanizadas, nas quais a brincadeira é o elemento predominante. Isto significa dizer que o que compreendemos como movimento de “ataque” na capoeira é a pergunta que a criança faz para a outra e a resposta da mesma são as “esquivas” ou “fugas” que logo se tornam novas perguntas (contra-ataques) estabelecendo assim uma conversa, que termina quando um dos jogadores está cansado ou quer dar a vez à próxima dupla que aguarda no pé do berimbau[11]. Em momento nenhum há um vencedor e um vencido, mas sim vencedores que são as crianças ao se colocarem em evidência na roda, construindo sua autonomia e, ao mesmo tempo, criando laços de identificação tanto com a capoeira, quanto com os seus camaradas de roda que começam a se ver enquanto coletivo infantil (PISTRAK, 2003).

3.2.3. A Capoeira e a Bola: Quando Começa e Quando Termina...
            Não é de nosso interesse relatar neste trabalho o que aconteceu em todos os dias de intervenção, mas alguns momentos em especial, tiveram algo semelhante, o que nos obrigou refletir sobre.Trata-se de compreender o espaço em que desenvolvemos nossas atividades: Um campo de futebol. Justamente por ser um campo de ‘futebol’, algumas aulas de capoeira simplesmente demoraram a começar, outras acabavam num tempo muito curto e outra ainda chegou a acabar e depois recomeçar. Mas como isto aconteceu? Por causa da Bola.
            Se ligarmos nossa televisão no canal mais assistido pela maioria da população brasileira, em poucos minutos poderemos perceber a quantidade de vezes que aparece alguma imagem, som ou filmagem relacionada ao futebol. Não temos por objetivos caracterizar este esporte, mas é uma realidade que a indústria cultural[12] se apropria desta modalidade e bombardeia nossa consciência limitando nosso acúmulo cultural, principalmente quando se trata da formação dos ‘gostos’ infantis.
            Aos sábados muitas crianças utilizam o espaço do campinho para diversas atividades de lazer, como já foi citado anteriormente, mas uma em especial, é predominante a qualquer outra: Jogar ‘bola’ (futebol). Como nossas intervenções sempre começavam por volta das 9:30h, as crianças que possuíam uma bola sempre chegavam por volta das 11h, o que não ‘atrapalhava’ em nada nossa intervenção. Porém quando chegavam com a bola durante a aula de capoeira, os adolescentes eram os primeiros a sair da aula e logo iam os menores, fazendo com que a brincadeira da capoeira não tivesse continuidade. Poucas foram as vezes que isto ocorreu e, como nossa intervenção se dá de forma informal, nos dias em que as crianças não concentravam sua atenção na capoeira por muito tempo, a aula seguia o ritmo das mesmas. Da mesma forma, durante as aulas havia crianças que ‘saíam’ da brincadeira e depois retornavam, outras entravam na aula só quando lhe convinham e não agüentavam mais ver só as outras crianças se divertindo, mas queriam se divertir também.
            Até que se tenha um espaço adequado no ACSL para outras práticas de lazer, o futebol sempre será predominante, principalmente pelo investimento da industria cultural. Porém como a prática da capoeira tinha como pilar construir com as crianças sua auto-organização, nós não vemos isto como algo somente ‘negativo’, pois as necessidades das crianças que promoviam as possibilidades para se auto-organizarem iam muito além da capoeira e, neste espaço informal que acontece toda a dinâmica de organização infantil, era nosso o papel de adentrar nas outras modalidades. Dizemos isto no intuito da construção da legitimidade de nossa intervenção neste espaço em que predominam as crianças e suas necessidades de brincar. Ao longo dos sábados este cenário foi mudando, a ponto de em um dos dias, conseguirmos começar e terminar uma ‘aula’ de capoeira em harmonia com as demais atividades ‘brincadas’ no campinho, sendo que dentre elas além da capoeira, havia algumas crianças jogando bolinhas de gude e outras ainda utilizando metade do campo para a prática do futebol.  


4. Escorregar não é cair, é um jeito que o corpo dá: Conclusão.
            Se por algumas vezes fomos já concluintes em algumas questões deste trabalho, não foi por “escorrego”, mas sim porque perspectivamos a construção de todo o conhecimento científico de forma dialética, nos utilizando da lógica formal ao mesmo tempo em que a desconstruimos almejando assim sua própria superação e conseqüentemente a efetivação desta transformação no real concreto (KOSIK, 1976).
            No processo de auto-organização comunitária, constatamos que a comunidade ainda tem uma visão de “democracia representativa”, na qual o que importa é votar na próxima gestão da associação dos moradores e depois esperar que os mesmos resolvam os problemas da comunidade. Apesar desta situação, algum avanço na perspectiva de construção coletiva já é possível de vislumbrarmos, uma vez que a própria juventude da comunidade tem se colocado nas diversas lutas locais por direitos e, um retrato disto é a condição atual do campinho de futebol, que longe de ser o ideal, já é razoável para a pratica desportiva.
A capoeira nos serviu de meio para a construção e auto-afirmação de um coletivo infantil no ACSL. Coletivo este que não é um simples agrupamento de crianças reunidas acidentalmente, mas sim um resultado em processo de que tanto as crianças quanto os moradores em geral tem de ampliação de possibilidade de luta “quando estão unidos por determinados interesses, dos quais têm consciência e que lhes são próximos (PISTRAK, p.177, 2003)”.
O campinho possui muitas possibilidades de desenvolvimento e uma coesão íntima com o coletivo das crianças, principalmente por ser um dos lugares centrais da vida infantil (IBDEM, 2003) e que não pode ser deixado de lado pelas autoridades, muito menos pelos moradores de seu entorno. O fato é que por falta de investimento coerente com as necessidades dos moradores do ACSL o próprio coletivo infantil é muito frágil, uma vez que se acabarem com o campo, o que não é impossível de acontecer, as possibilidades de organização destas crianças será ainda mais limitada e nossa inserção neste meio para auxiliar no processo de auto-organização infantil também.
De forma implícita, mas muito presente na prática concreta, sempre nos atentamos para a defesa de outra sociedade que não esta atual, na qual nos colocamos uns contra os outros mantendo os ‘poderosos’ no poder. Isto nos serviu de base para dialogarmos com nossas crianças no sentido de que a brincadeira da capoeira não precisava ser violenta para ser legal. Infelizmente nos faltou ‘perna’ para estruturarmos uma espécie de questionário que nos traria elementos mais concretos no sentido de como as crianças e adolescentes que participaram das aulas de capoeira vêem à mesma após nossas intervenções. Porém o ‘corpo’ fala, ou seja, nas próprias intervenções esta ‘violência aparente’ foi diminuindo dando lugar ao prazer de brincar de capoeira.
Como entendemos a capoeira como um elemento da cultura corporal e conseqüentemente como conteúdo da educação física, recorremos a TAFFAREL e ESCOBAR, s/d, para exemplificar de forma teórica uma de nossas concordâncias acerca dos tipos de atividades encaminhadas a satisfazer as necessidades sociais, como é o nosso caso com a capoeira, a partir do critério para compreender as dificuldades apresentadas ao longo de nossas intervenções: o da prática concreta. Partindo desta premissa
“[...] faz-se evidente que o objeto de estudo da Educação Física é o fenômeno das práticas cuja conexão geral ou primigênia – essência do objeto e o nexo interno das suas propriedades - determinante do seu conteúdo e estrutura de totalidade, é dada pela materialização em forma de atividades – sejam criativas ou imitativas - das relações múltiplas de experiências ideológicas, políticas, filosóficas e outras, subordinadas à leis histórico-sociais. O geral dessas atividades é que são valorizadas em si mesmas; seu produto não material é inseparável do ato da produção e recebe do homem um valor de uso particular por atender aos seus sentidos lúdicos, estéticos, artísticos, agonisticos, competitivos e outros relacionados à sua realidade e às suas motivações. Elas se realizam com modelos socialmente elaborados que são portadores de significados ideais do mundo objetal, das suas propriedades, nexos e relações descobertos pela prática social conjunta (TAFFAREL e ESCOBAR, s/d)”.
Defender abertamente qual deve ser o objeto de estudo da educação física e conseqüentemente para que devemos construir qualquer prática pedagógica é custoso, mas essencial para compreender de que forma e a partir de que ponto de vista foram planejadas nossas intervenções.
Ainda sobre a capoeira, seria necessário um espaço no mínimo coberto para uma continuidade mais efetiva de nossas intervenções. A criação de identificação das crianças com a capoeira ainda é mínima e seria necessária a continuidade de nosso trabalho com um número maior de intervenções semanais além de um apoio estrutural mínimo para a execução das aulas. Trazendo para o debate SILVA, et e al, 2007 e coadunando com o autor,
“Na perspectiva de denunciar a realidade e anunciar possibilidades, defendemos no processo de construção do conhecimento uma postura educativa, científica, política e revolucionária (p.85, 2007)”.
Educativa por entendermos nossa atuação como necessidade para a formação humana critica das crianças e demais moradores do ACSL; Científica por que nosso papel enquanto universitários é de levar a ciência para as classes mais desprovidas de acesso aos bens produzidos pela humanidade, ao mesmo tempo em que valorizamos o saber popular articulando-o com o conhecimento científico; Política, por termos como objetivo chave de nossa intervenção a auto-organização comunitária dos moradores do ACSL; e revolucionária porque não vemos outro caminho para a superação das desigualdades sociais de nosso país e do mundo, senão a superação do sistema de produção capitalista e a defesa do projeto histórico de sociedade socialista.
Construir instrumentos de auto-organização comunitária nos possibilita abrir caminhos para a conscientização de classe na comunidade e, desta forma, fazer dos moradores sujeitos de sua própria história e não mais apenas meros espectadores e futuros trabalhadores (no caso das crianças) a serviço do capital.
“Este é o enfrentamento para o próximo período, se quisermos agir na linha da superação dos elementos que constitui a contradição de fundo que mantém a maioria excluída do acesso aos bens culturais, entre os quais a educação física & esporte. A questão de fundo não é a inclusão, mas sim, a resistência, a ocupação, a produção, a preservação a partir da determinação responsável e voluntária de produtores associados que tem como elemento regulador, nos planejamentos de baixo para cima do sistema de produção e troca, não as leis do mercado, mas fundamentalmente as necessidades vitais do SER HUMANO (TAFFAREL e ESCOBAR, s/d)”.
Há muito que fazer e este trabalho, assim como a auto-organização comunitária e a defesa e desenvolvimento da capoeira enquanto pratica social improdutiva, somam apenas um grão de areia neste deserto que permeia a luta de classes. Contudo nós continuamos em marcha.
“A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, a divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade [...]. A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora (MARX, s/d apud MÉSZÁROS, 2005, p. 21)”.

5. Referências

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[1] Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
[2] Usamos este termo como sinônimo de Proletariado (MARX e ENGELS, p. 23, 2006).
[3] “Por burguesia entendemos a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores do trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos operários assalariados modernos que, não possuindo meios próprios de produção, reduzem-se a vender a força de trabalho para poderem viver”.(MARX e ENGELS, p. 23, 2006)

[4] Este espaço de Lazer é conhecido e chamado na comunidade de “campinho”. Nós também nos apropriamos deste ‘apelido’ e o utilizamos algumas vezes ao longo de nosso artigo.
[5] Ver SILVA e DAMIANI, 2005.
[6] Em nosso primeiro artigo intitulado “FUTEBOL E CAPOEIRA NO ALTO DA CAIEIRA: rumo à consolidação de Núcleo de Cultura Popular e de Movimento”, trazemos vários exemplos de construção coletiva como a luta pela água no ACSL, além da revitalização do campinho construída pelos próprios moradores da comunidade, incluindo os jovens e as crianças.
[7] Grifo nosso.
[8] Celebre frase de Mestre Pastinha em entrevista no Documentário: Pastinha, uma Vida Pela Capoeira s/d.
[9] Forma que os moradores chamam a ONG situada no ACSL regida pela Igreja Católica e que tem como objetivo a educação complementar de 200 crianças e adolescentes no período de contra-turno escolar.
[10] Nome dado a uma moeda antiga que serve como acessório indispensável para tocar berimbau (REGO, p.72, 1968). Hoje os capoeiras utilizam também pedras arredondadas que chamam pelo mesmo nome (dobrão).
[11] Expressão utilizada para demarcar o local de saída inicial dos jogadores de capoeira. O mesmo situa-se na frente dos três berimbaus que compõe a bateria da roda junto com o pandeiro e o atabaque, segundo os fundamentos do Grupo de Capoeira Roda Livre.
[12] Ver CHAUI, 1995.

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