Artigo fruto da Pesquisa no Alto da Caieira. Virou capítulo de livro, abaixo o link e o artigo na íntegra...
UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SANTA CATARINA - UFSC
CENTRO
DE DESPORTOS - CDS
NÚCLEO
DE ESTUDOS
PEDAGÓGICOS
EM EDUCAÇÃO FÍSICA - NEPEF
A Capoeira como Instrumento Político-Pedagógico para Auto-Organização dos
Moradores do Alto
da Caieira do Saco dos Limões/Florianópolis
Marcos Cordeiro Bueno
Paulo Ricardo do Canto Capela
Edgard Matiello Júnior
1. Introdução
Levar o conhecimento científico para as comunidades
mais isoladas territorialmente das grandes cidades por se tratarem de cidadãos
empobrecidos financeiramente deveria ser o mínimo que as universidades se
propusessem a fazer. Além disso, deveria ser o papel da universidade estabelecer
um profundo diálogo com o saber popular sem desmerecê-lo, mas o articulando com
o conhecimento científico na busca da superação das desigualdades promovidas
por nós seres humanos a partir da forma como nossa vida é produzida na
atualidade: a forma capital (MÉSZÁROS, 2006). Infelizmente poucas são as ações
deste tipo encampadas por nossa universidade[1],
uma vez que a maioria de nossas autoridades, união, estado e município, se
preocupa em concretizar a manutenção dos lucros dos grandes “patrões” e pouco
se importa com os trabalhadores que efetivamente constroem nosso país. Apesar
desta balança nunca pesar mais para o lado da classe trabalhadora[2],
algumas políticas públicas tem possibilitado a abertura desse caminho de forma
frágil e insuficiente, mas que já começa a produzir algum efeito, como é o caso
deste trabalho. Trata-se da REDE CEDES – Centro de Desenvolvimento do Esporte
Recreativo e do Lazer, que é uma política pública de esporte e lazer na cidade
e que busca esta interlocução – universidade/comunidade – com o intuito
paliativo de amenizar esse “abismo social” entre burgueses e proletários[3],
acerca do acesso aos programas de esporte e lazer.
Este artigo é fruto da continuidade de nossos
trabalhos de intervenção político-pedagógica na comunidade do Alto da Caieira
do Saco dos Limões (ACSL), em Florianópolis, Santa Catarina. No ano de 2007
estabelecemos uma relação com esta comunidade e, de lá para cá por via deste
programa da rede CEDES pudemos já sistematizar nosso primeiro trabalho
intitulado “FUTEBOL E CAPOEIRA NO ALTO DA CAIEIRA: rumo à consolidação de
Núcleo de Cultura Popular e de Movimento”, que ainda está para ser lançado nos
próximos volumes da série “Esporte e Lazer na Cidade”. No inicio do ano de
2008, por falta de verbas para a continuidade deste trabalho que se iniciou no
ano anterior, suspendemos temporariamente as intervenções no âmbito da educação
física, porém mantivemos contato com as lideranças comunitárias sempre as
auxiliando em seu processo de auto-organização. A partir do segundo semestre de
2008 e primeiro semestre de 2009, com a renovação de uma bolsa de monitoria,
pudemos retomar os trabalhos no âmbito do esporte e lazer na comunidade e a
sistematização deste trabalho encontra-se neste artigo.
Com a possibilidade de retomada das intervenções
pedagógicas, apostamos na capacidade de intervenção da capoeira como
instrumento político-pedagógico de inserção na comunidade do ACSL, uma vez que
o único espaço de lazer é um campo de areia[4]
batido com traves que indicam a prática de futebol, mas que vai muito além
disso, pois neste mesmo espaço se dá toda a dinâmica de lazer desta comunidade,
desde as brincadeiras infantis como pular corda, jogar bolinha de gude, até as
rodas de prosa, na qual se fazem fogueiras para reunir os amigos e contar os
“causos”, etc.
Mas por que a capoeira? Porque na experiência do ano
anterior, muito se avançou na perspectiva de nos utilizarmos desta manifestação
da cultura corporal como instrumento de conscientização e auto-organização das
crianças e adolescentes do ACSL, mas por questões adversas nos faltaram
elementos para melhor fundamentar ou relatar nossa experiência. Além disto,
nesta etapa do projeto nós estabelecemos parceria com a proposta do “Projeto
Acadêmico e Popular”, projeto este construído a partir da experiência de alguns
professores do Núcleo de Estudos Pedagógicos em Educação Física – NEPEF/UFSC e
que tem por objetivo comum também fomentar esta interlocução entre a
Universidade e a comunidade a partir de práticas corporais como a capoeira.
Agora para concretização de nosso desafio (auxiliar no
processo de auto-organização dos moradores do ACSL por meio de iniciativas de
esporte e lazer), utilizamos a capoeira como mais um agente mobilizador, dentre
as várias práticas corporais[5]
que fazem parte da vida dos moradores do ACSL. Isto significa dizer que assim
como a prática da “bolinha de gude”, ou a “pelada” do fim de semana que
acontece de forma espontânea quando as próprias crianças se organizam, nós
introduzimos a capoeira com este mesmo caráter espontâneo, contudo, permeado
pelo conhecimento científico e com objetivos claros de organização comunitária,
a nível educacional para infância e juventude.
2. Das Adversidades a Luta: O campinho é nosso e temos direito a muito
mais
Já há um tempo atrás nossos esforços tem sido de não
apenas levar o conhecimento cientifico para o morro do Alto da Caieira do Saco
dos Limões (ACSL), no âmbito da Educação Física e mais especificamente com a
capoeira, mas também auxiliar esta comunidade em seu processo de auto-organização.
Para sermos mais específicos: Há um espaço aberto na comunidade que há muito
vinha sendo usado como campo de futebol. É neste mesmo espaço que há dois anos
atrás nós começamos nossa atuação político-pedagógica, na época com a Capoeira
e o Futebol. No último semestre de 2008, quando voltamos a levar a proposta de
capoeira para o morro, nos deparamos com um novo cenário, no qual o ACSL foi
alvo de disputas políticas eleitoreiras. No artigo anterior relatamos na forma
de esboço o que estava acontecendo na comunidade naquele momento (outubro e novembro
de 2008) e agora traremos mais alguns elementos para evidenciar o descaso das
autoridades com as comunidades financeiramente empobrecidas de nosso país.
A comunidade estava muito diferente, com vários muros
de pedra nos entornos, com algumas ruas asfaltadas e com um campo de futebol
transformado em canteiro de obras impedindo qualquer possibilidade de lazer no
mesmo. Era época de eleição para prefeito e as obras do PAC (Programa de
aceleração de Crescimento do Governo Federal) estavam sendo executadas com
grande visibilidade em todo o Maciço Central (denominação da área dos morros
que compõe a região central de Florianópolis incluindo o ACSL). Nós que
tínhamos como plano utilizar este mesmo campo de futebol para nossa intervenção
pedagógica, nos aproveitamos deste momento para auxiliar a comunidade a lutar
pela garantia de ao menos este espaço de lazer, pois o mesmo é o único no alto
do morro. Trazendo a fala dos próprios moradores: “Fomos nós que abrimos este
campinho à foice e enxada a mais de quinze anos” (diz um dos moradores). Isto
já é mais do que suficiente para esclarecer as autoridades que aquele campinho
é direito de toda comunidade, porém uma outra fala de outro morador reforçou e
vem reforçando ainda mais esta reivindicação: “O campinho é o único espaço para
brincar, sem ele, os crimes só vão aumentar” (vice-presidente da associação de
moradores). A pressão na prefeitura para que aquele material de construção que
estava no campinho saísse do mesmo aumentou e conseguimos recuperar este espaço,
porém agora com muitas pedras e restos de materiais de construção além de não
mais ter sequer as traves para o futebol.
Alguns passos já haviam
sido dados e nossa intervenção com a capoeira estava para começar, quando, de
repente chegam as fortes chuvas em outubro e novembro, fazendo com que muitas
pessoas do morro perdessem suas casas e outras permanecessem de sobre aviso que
a qualquer momento tivessem que deixar suas moradias. O campinho tornou-se um
lamaçal e, ao mesmo tempo, começou a ser cogitado para se transformar em
moradias “provisórias” até que a prefeitura realocasse estes moradores. A
situação era extremamente delicada, uma vez que aqueles moradores não poderiam
ficar sem ter onde morar e a comunidade não podia abrir mão do único espaço de
lazer que possuía. A nossa atuação neste momento foi voltada para esclarecer a
todos que não podíamos brigar entre si tentando definir entre a moradia dessas
pessoas e o campinho, mas sim exigir das autoridades competentes que garantissem
a moradia e a reestruturação do campo, no intuito de efetivamente dar dignidade
ao trato com o lazer para os moradores do alto da caieira, além de moradia para
os mesmos. Neste momento a comunidade deu um bom exemplo de organização, ao
acionar a defesa civil e pressionar as autoridades para o beneficiamento do
campinho. As famílias atingidas passaram a receber um “auxilio aluguel” e o
campinho não foi perdido.
Aos poucos este espaço
de lazer foi sendo reestruturado, primeiro com o adensamento do terreno, depois
com a colocação das traves de eucalipto e por fim com a colocação de areia de
praia no mesmo. Não podemos deixar de relatar o episódio no inicio deste ano,
quando a empresa contratada pela prefeitura para as obras do PAC estava a
colocar as traves e foi questionada pelos jovens da comunidade sobre o quanto
cada trave estava torta com relação ao esquadro do campo. Os trabalhadores da
empresa não aceitaram as críticas dos jovens e continuaram colocando as traves
quando um dos jovens moradores colocou: “O campinho é nosso por direito, não
queremos ele de qualquer jeito, mas sim do nosso jeito” (questionou o jovem
morador). As discussões continuaram até que chamaram o responsável pela obra e
o mesmo concordou com o jovem e ordenou o re-enquadramento das traves. O fato é
que isto estava longe de ser o razoável, pois as mesmas traves eram antigos
postes de madeira cortada e a madeira era de eucalipto, extremamente pesada e
perigosa. Para piorar a situação, as traves foram pregadas. Os próprios
moradores sabiam que a madeira eucalipto não pode ser pregada, pois quando
chove ela incha e acaba soltando os pregos. A desculpa da empresa é de que não
possuía nenhuma furadeira para poder utilizar parafusos.
Assim como PISTRAK,
2003, nós temos o entendimento que a auto-organização no caso das crianças e
dos jovens do ACSL deve ser construída a partir das necessidades concretas da
comunidade e que, sem o acesso a uma formação político-pedagógica coerente com
a transformação da realidade, o que acaba acontecendo é uma atividade espontaneísta
e isolada de resistência que não alcança condições suficientes para a
transformação de algum fenômeno (LENIN, 1965). No caso da reivindicação do
ajuste das traves do campo, há muita história de formação e atuação política
organizada[6]
para a síntese elucidada pelo jovem morador.
Recorrendo a PISTRAK,
2003,
“Para falar de forma mais concreta,
isto quer dizer que é preciso suscitar nas crianças (e nos jovens)[7] preocupações
carregadas de sentido social, ampliá-las, desenvolvê-las, possibilitando às
próprias crianças a procura das formas de realização” (p. 182, 2003).
Nosso campo de
intervenção se focou sempre nas atividades oriundas do campinho, mas isto não
significa dizer que a auto-organização comunitária também se bastou a isto.
Como o ACSL ainda está em processo de reestruturação com as obras do PAC,
constantemente acontecem várias reuniões tanto entre os moradores, como com
autoridades responsáveis pelas obras e, nestes espaços, vários são os exemplos
de auto-organização.
O que também é muito
importante destacar em nível de relato é a fala de uma das crianças
participantes das atividades de capoeira, quando as chuvas do inicio deste ano
(2009) começaram a atrapalhar nossas atividades: “Se não dá pra fazer capoeira
no campinho, por que a gente não constrói uma casa pequena? É só cada um dar um
saco de cimento e todo mundo ajuda a construir (ela tem 12 anos)”. Não é de
nosso interesse desresponsabilizar o papel do estado em garantir o acesso ao
lazer, nem tampouco deixarmos de lado o que esta menina quis trazer como
proposta nesta fala. Por mais romântica que possa parecer o fato de
“construirmos uma casa pequena” ou “todo mundo ajuda a construir”, isto nos
remete a reflexão que a auto-organização dos moradores começa a partir das
necessidades coletivas emergidas de necessidades anteriores. A necessidade de
querer jogar capoeira foi “evoluída” para a construção de um espaço físico, que
por conseqüência se aglutinou com uma série de reivindicações infantis e da
comunidade em geral que vêm desencadeando processos significativos para a
superação das desigualdades sociais na comunidade. O reflexo disto é a
revitalização do campinho (ou a luta por sua revitalização) e de forma mais
‘mediata’ a reestruturação de todo o Maciço Central, através de moradias, pavimentação
nas ruas e saneamento básico.
3. Capoeira me leva, capoeira me traz: Do Objeto de Pesquisa ao Campo
de Intervenção.
Dentre todas as
dificuldades, nossos trabalhos foram somente reiniciados neste semestre (1° de
2009) e logo nos deparamos com um novo-velho problema: A chuva. As atividades de
capoeira só podem ser realizadas no campinho que não possui cobertura nenhuma,
o que acaba por impedir que se tenha capoeira em dias de chuva. Logo, quando
não chove acontece à brincadeira e apesar deste empecilho as crianças já se
acostumaram a olhar pro céu antes de ir brincar e, de forma precarizada, as
aulas mantiveram uma continuidade.
Como o campo é o único
espaço de lazer, além do futebol e da capoeira, as crianças utilizam este
espaço para brincar de bolinha de gude, para soltar pipa, rolar na areia e tudo
mais que a imaginação infantil, um espaço aberto e muita areia podem permitir.
Isto já nos reporta para a metodologia do ensino da capoeira neste espaço
“informal”: Nosso meio de inserção na comunidade é a capoeira e, dentre nossos
objetivos, um dos principais é a humanização das crianças e adolescentes no
sentido de re-significar as práticas culturais da capoeira, refletindo sobre
sua historicidade e apontando-a como instrumento político-pedagógico de
auto-organização e superação da realidade imposta pelo capital. Partindo de uma
perspectiva crítica de análise da realidade, não é de nosso interesse
transformar pessoas em números, como acaba acontecendo em tantas pesquisas na
área da Educação Física. Nossa metodologia se fundamentou a partir de SILVA e
DAMIANI, 2005, desconstruindo a idéia de que os sujeitos da pesquisa se tornem
objetos ou coisas, mas mantendo a rigorosidade e aspiração ao conhecimento
cientifico assim como com o saber popular. Seguindo os passos das autoras,
“Na articulação interna
da pesquisa e do grupo de pesquisa, trabalhamos na perspectiva da construção do
conhecimento e da qualificação da intervenção social avançando por meio da
reflexão crítica e interação (SILVA, 2005. p. 25)”.
É também de nosso interesse enquanto pressuposto teórico
metodológico possibilitar as crianças e adolescentes freqüentadores do campinho
do ACSL “o desenvolvimento da condição de humanidade, [...] a partir de um
conjunto de experiências que se constroem no corpo, a partir do corpo e por
meio do corpo (SILVA, 2005. p. 23)”.Para concretização de nosso pressuposto,
utilizamos a capoeira como mais um agente mobilizador, dentre as várias
práticas corporais que fazem parte da vida dos moradores do ACSL. Não havia,
portanto em nossas dinâmicas, a cobrança formal de participação das crianças e
adolescentes. Porém foi a atratividade de nossas propostas para cada sábado que
fez com que conquistássemos espaço e conseqüentemente legitimidade enquanto
prática de lazer no campinho entre todos os seus freqüentadores, desde os
assíduos que logo se entretiveram com a capoeira, quanto com os que não a
praticam, mas estão sempre por perto observando.
As atividades sempre começam por volta das 09:30h dos
sábados e, como não temos uma organização formalizada, o que acontece é que
sempre que chegamos já há algumas crianças nos esperando ou brincando de outra
coisa e as demais começam a aparecer quando os berimbaus são envergados e
começam a ser tocados. Como fazem os egípcios tocando flauta para a cobra sair
do vaso, na caieira, aos sábados pela manhã, nós tocamos os berimbaus e as
crianças começam a aparecer. Isto é apenas uma analogia, mas as metáforas ainda
hoje são elementos de explicação (polêmica) da origem da capoeira e geralmente
são evidenciadas nos cânticos de suas rodas.
3.1. Abre a roda moçada que eu já vou: Do Contexto da capoeira
Se alguns concordam com
a expressão de Mestre Pastinha quando diz que “a capoeira é tudo o que a boca come[8]”, nós preferimos, ao invés de trazer uma
afirmação pronta, ampla e generalista, exemplificar nossa compreensão através
da história da mesma estabelecendo relação com conhecimento científico e o
saber popular. Não com o intuito de responder a pergunta – o que é a capoeira –
mas sim trazer algumas reflexões de como ela se constrói na atualidade enquanto
força produtiva e permeada pela contradição resistência/mercadoria recorremos a
TAFFAREL, 2005:
“A capoeira é um bem cultural
produzido socialmente, acumulado, transmitido e praticado historicamente em
dadas relações de produção da vida. Portanto, para entendermos com radicalidade
o momento atual do desenvolvimento da capoeira é preciso partir do grau de
desenvolvimento das forças produtivas, lembrando que o homem faz a sua
história, mas não somente como ele quer, mas sim, conforme o grau de
desenvolvimento das forças produtivas e o legado deixado pelos que nos
antecederam (TAFFAREL, 2005)”.
É na história da
realidade afro-brasileira, marcada pelas contradições de uma sociedade de
classes, preconceituosa, escravista e conservadora, que surgem os primeiros
registros da vadiação ou capoeiragem. Até hoje sua origem é um mistério e os
próprios pesquisadores, historiadores e capoeiristas divergem sobre o assunto,
mas é no seio dessa contradição que a defendemos como instrumento de
resistência enquanto prática da cultura popular improdutiva e não como
mercadoria a serviço da produção de capital (BUENO, 2009). E é nesta defesa que
entendemos que em sua prática corporal (o jogo, o canto, o mito, a roda, etc.)
muito da história afro-brasileira se manifesta, hora imersa já pela ideologia
dominante, hora próxima de uma cultura de resistência à imposição do sistema
capitalista.
São muitas as formas de
compreensão da capoeira, inclusive com várias formas de defesa da mesma
enquanto instrumento de resistência e alguns poucos que a defendem em seu
processo mercadorizado. No entanto na
prática concreta, principalmente por falta de incentivo à cultura através de
políticas públicas e pela falta de formação humana crítica dos capoeiras, o que
mais acontece é a venda da força de trabalho dos próprios para o ensino da
mesma transformando a “aula de capoeira” em mercadoria (ARAÚJO, 2008).
O fato que mais importa
para o nosso trabalho é com que método de ensino da capoeira devemos nos
utilizar para transformá-la em instrumento político-pedagógico a fim de
ganharmos legitimidade na comunidade, construirmos com as crianças e
adolescentes um sentimento de identidade com esta manifestação da cultura
corporal (COLETIVO DE AUTORES, 1992) e ainda darmos conta do trabalho de
auto-organização comunitária. Para a nossa defesa de compreensão da capoeira,
vale destacar que:
“Seus gestos, hoje esportivizados e
codificados em muitas ‘escolas’ de capoeira, no passado significaram saudade da
terra e da liberdade perdida: desejo velado de reconquista da liberdade que
tinha como arma apenas o próprio corpo. Isso leva a entender a riqueza de
movimento e de ritmos que a sustentam, e a necessidade de não separá-la de sua
história, transformando-a simplesmente em mais uma ‘modalidade esportiva’
(COLETIVO DE AUTORES, 1992)”.
A visão das crianças do
ACSL é de que a capoeira é mais uma brincadeira de lutar. Nós temos acordo com
isso, porém a violência transparece muito nas atitudes de cada criança, o que
torna a nossa brincadeira um pouco mais perigosa. São duas as hipóteses que
levantamos a partir desta situação: Se esta violência corporal apresentada por
cada criança é reflexo das condições de vida da maioria dos moradores do ACSL
e/ou se a forma mercadorizada da capoeira veiculada nos espaços midiáticos
auxiliou nesta compreensão de capoeira enquanto luta marcial esportivizada.
Apesar disto, tornou-se nossa tarefa desconstruir esta concepção de capoeira
das crianças e apresentar as mesmas a importância da solidariedade, da
brincadeira e da comunhão na capoeira, uma vez que nosso foco é pautado na
busca por uma sociedade justa, referência esta que tem íntima relação com o
processo de libertação da escravidão e da resistência por parte dos capoeiras
no que diz respeito à discriminação que a cultura popular em geral enfrenta
cotidianamente.
3.2. Quem é você que vem de lá: Das intervenções – aulas encontro.
Para iniciar os
trabalhos com a capoeira, precisávamos organizar uma estratégia de divulgação
das aulas que aconteceriam nos sábados, no campinho para toda a comunidade,
principalmente para as crianças. Logo planejamos uma ida a ONG situada no ACSL
regida pela Igreja Católica e que tem como objetivo a educação complementar de
200 crianças e adolescentes no período de contra-turno escolar. Para não
quebrarmos qualquer dinâmica de rotina deste projeto, conversamos com algumas
lideranças comunitárias e marcamos um dia para irmos ao encontro das crianças e
adolescentes moradores do ACSL no horário de término das atividades da ONG.
Como se deu este primeiro encontro é o relato que contamos a seguir:
Fim de tarde no ACSL.
Cerca de cem crianças estão para terminar seu dia no “projeto[9]”. Nós,
do meio da rua anunciamos que o berimbau estava voltando a ser tocado na
caieira. Prontamente as crianças foram liberadas do projeto e vieram ao nosso
encontro. Como já havia muito tempo que não tínhamos uma intervenção prática
com a capoeira no morro, muitas crianças ainda não nos conheciam. A curiosidade
tomou conta da maioria: O que é isto (berimbau)? É de ouro (fazendo referência
ao dobrão[10])? Posso
tocar? Você consegue tocar bem rápido? Dentre outros tantos questionamentos.
Passada a curiosidade, alguns mais ousados tentaram tocar o berimbau, mas logo
passavam para outra criança. Nós aproveitamos o momento para chamar a atenção
de todos e lembrar que no próximo sábado daríamos inicio as atividades com a
capoeira no campinho e que todos estavam convidados.
É importante destacarmos
que os planos das intervenções – aulas de capoeira eram sempre organizados com
base, primeiro na experiência do bolsista acerca da mesma, inclusive
reconhecido como professor pela dinâmica da cultura popular; e pelo acesso ao
conhecimento científico produzido na universidade e também divulgado na mesma
sobre capoeira. Contudo, destacamos, em nível de referência algumas produções
científicas que fundamentaram nossos planos de intervenção. Trata-se dos
trabalhos de FALCÃO, 2003; SILVA, FALCÃO e ACORDI, 2005 e 2007; SILVA, 1995;
SILVA, 2006; REGO, 1968; CAPOEIRA, 1992; ARAÚJO, 2008; além da base de formação
político-pedagógica citada em vários trechos deste trabalho.
3.2.1. Vai jogar moleque vai jogar: Botando a mão na massa.
Em nossa primeira
intervenção prática com a capoeira, constatamos que muitas das crianças que
estavam neste dia nunca haviam tido acesso a esta modalidade/brincadeira. A
experiência da roda de capoeira também
foi muito marcante. Como a visão predominante das crianças é somente o jogo ou
a luta da capoeira, as mesmas encontraram uma certa dificuldade em estabelecer
relação, dos instrumentos da capoeira com o jogo e principalmente com os papéis
que os demais da roda representam no bater das palmas e na cantoria. O fato é
que os jogos de capoeira aconteceram e ali já se começou a construir uma
relação de respeito entre as crianças, porém o trabalho com a música, o bater
das palmas e a organização da roda para que se mantivesse o formato de roda foi
uma “bagunça”. Dizemos isto com tranqüilidade e de forma positiva, pois era a primeira
vez para muitas das crianças jogaram capoeira e, apesar da desorganização da
roda todos se divertiram muito. Vale ressaltar que nosso intuito com a roda de
capoeira caminha em concordância com FALCÃO, 2003, quando descreve sobre qual
deve ser o papel de um ou uma capoeira no jogo da roda e na roda da vida:
“Na roda, o capoeira é
livre para jogar como e quando quiser, sem pretensão de obter qualquer lucro. A
partir desse enfoque, a capoeira reflete o sentido de uma atividade
descomprometida, à vontade, sem objetivos práticos e imediatos. Vista sob a
ótica do jogo, ela consegue atender a necessidade de fantasia, utopia, justiça
e estética e, ainda, desperta o gosto pelo inesperado, pelo imprevisível.
[...]. Num jogo malicioso e mandingueiro, os movimentos corporais parecem ser
inteligíveis e decifráveis somente pelos seus executores, que, muitas vezes,
não se dão conta do expediente que improvisaram durante o mesmo”. (p.67, 2003).
No decorrer das
intervenções, apesar dos dias de chuva, uma certa continuidade de participação
nas aulas por parte das crianças foi sendo construída e os planejamentos se
davam sempre após o registro da última intervenção. Buscávamos sempre levantar novas
possibilidades de trabalho com as crianças a partir do que elas mesmas mais se
entretiveram na aula anterior, além de termos os cuidados de não
descaracterizar a capoeira desvinculando-a de sua historicidade. Isto também
levando em conta novas possibilidades de intervenção buscando superar as
dificuldades encontradas ao longo desse processo.
3.2.2. Quando eu entrar você entra, era meu mano era eu: Do Jogo Dialogado.
Como pudemos perceber
desde a primeira intervenção prática, o que mais aguçava a vontade de
participação das crianças era o jogo da capoeira. Logo nos propusemos a
aprofundar um pouco mais esse tema, não no sentido de se bastar ao jogo, mas
com o intuito de ampliar as possibilidades de brincadeira da capoeira para além
do mesmo. Concordamos com SILVA, etc. e al. 2007, com o início de seu
pensamento ao afirmar que “os jogos da capoeira são compreendidos como diálogos
de perguntas e respostas [...] (p.94, 2007)”. Porém o mesmo autor coloca esse
diálogo como tendo um vencedor e um vencido (Ibidem, p. 94 e 95, 2007), o que
para nós não é coerente uma vez que o que construímos no jogo da capoeira com
as crianças é o estabelecimento de relações humanizadas, nas quais a
brincadeira é o elemento predominante. Isto significa dizer que o que
compreendemos como movimento de “ataque” na capoeira é a pergunta que a criança faz para a outra e a resposta da mesma são as “esquivas” ou “fugas” que logo se tornam novas perguntas (contra-ataques)
estabelecendo assim uma conversa, que
termina quando um dos jogadores está cansado ou quer dar a vez à próxima dupla
que aguarda no pé do berimbau[11].
Em momento nenhum há um vencedor e um vencido, mas sim vencedores que são as
crianças ao se colocarem em evidência na roda, construindo sua autonomia e, ao
mesmo tempo, criando laços de identificação tanto com a capoeira, quanto com os
seus camaradas de roda que começam a
se ver enquanto coletivo infantil (PISTRAK,
2003).
3.2.3. A Capoeira e a Bola: Quando Começa e Quando Termina...
Não é de nosso interesse
relatar neste trabalho o que aconteceu em todos os dias de intervenção, mas
alguns momentos em especial, tiveram algo semelhante, o que nos obrigou
refletir sobre.Trata-se de compreender o espaço em que desenvolvemos nossas
atividades: Um campo de futebol.
Justamente por ser um campo de ‘futebol’, algumas aulas de capoeira
simplesmente demoraram a começar, outras acabavam num tempo muito curto e outra
ainda chegou a acabar e depois recomeçar. Mas como isto aconteceu? Por causa da
Bola.
Se ligarmos nossa
televisão no canal mais assistido pela maioria da população brasileira, em
poucos minutos poderemos perceber a quantidade de vezes que aparece alguma
imagem, som ou filmagem relacionada ao futebol. Não temos por objetivos
caracterizar este esporte, mas é uma realidade que a indústria cultural[12]
se apropria desta modalidade e bombardeia nossa consciência limitando nosso
acúmulo cultural, principalmente quando se trata da formação dos ‘gostos’
infantis.
Aos sábados muitas
crianças utilizam o espaço do campinho para diversas atividades de lazer, como
já foi citado anteriormente, mas uma em especial, é predominante a qualquer
outra: Jogar ‘bola’ (futebol). Como nossas intervenções sempre começavam por
volta das 9:30h, as crianças que possuíam uma bola sempre chegavam por volta
das 11h, o que não ‘atrapalhava’ em nada nossa intervenção. Porém quando chegavam
com a bola durante a aula de capoeira, os adolescentes eram os primeiros a sair
da aula e logo iam os menores, fazendo com que a brincadeira da capoeira não
tivesse continuidade. Poucas foram as vezes que isto ocorreu e, como nossa
intervenção se dá de forma informal, nos dias em que as crianças não
concentravam sua atenção na capoeira por muito tempo, a aula seguia o ritmo das
mesmas. Da mesma forma, durante as aulas havia crianças que ‘saíam’ da
brincadeira e depois retornavam, outras entravam na aula só quando lhe
convinham e não agüentavam mais ver só as outras crianças se divertindo, mas
queriam se divertir também.
Até que se tenha um
espaço adequado no ACSL para outras práticas de lazer, o futebol sempre será
predominante, principalmente pelo investimento da industria cultural. Porém
como a prática da capoeira tinha como pilar construir com as crianças sua
auto-organização, nós não vemos isto como algo somente ‘negativo’, pois as
necessidades das crianças que promoviam as possibilidades para se auto-organizarem
iam muito além da capoeira e, neste espaço informal que acontece toda a
dinâmica de organização infantil, era nosso o papel de adentrar nas outras
modalidades. Dizemos isto no intuito da construção da legitimidade de nossa
intervenção neste espaço em que predominam as crianças e suas necessidades de
brincar. Ao longo dos sábados este cenário foi mudando, a ponto de em um dos
dias, conseguirmos começar e terminar uma ‘aula’ de capoeira em harmonia com as
demais atividades ‘brincadas’ no campinho, sendo que dentre elas além da
capoeira, havia algumas crianças jogando bolinhas de gude e outras ainda
utilizando metade do campo para a prática do futebol.
4. Escorregar não é cair, é um jeito que o corpo dá: Conclusão.
Se por algumas vezes fomos
já concluintes em algumas questões deste trabalho, não foi por “escorrego”, mas
sim porque perspectivamos a construção de todo o conhecimento científico de
forma dialética, nos utilizando da lógica formal ao mesmo tempo em que a
desconstruimos almejando assim sua própria superação e conseqüentemente a
efetivação desta transformação no real concreto (KOSIK, 1976).
No processo de
auto-organização comunitária, constatamos que a comunidade ainda tem uma visão
de “democracia representativa”, na qual o que importa é votar na próxima gestão
da associação dos moradores e depois esperar que os mesmos resolvam os
problemas da comunidade. Apesar desta situação, algum avanço na perspectiva de
construção coletiva já é possível de vislumbrarmos, uma vez que a própria
juventude da comunidade tem se colocado nas diversas lutas locais por direitos
e, um retrato disto é a condição atual do campinho de futebol, que longe de ser
o ideal, já é razoável para a pratica desportiva.
A capoeira nos serviu de meio para a construção e
auto-afirmação de um coletivo infantil
no ACSL. Coletivo este que não é um simples agrupamento de crianças reunidas
acidentalmente, mas sim um resultado em processo de que tanto as crianças
quanto os moradores em geral tem de ampliação de possibilidade de luta “quando
estão unidos por determinados interesses,
dos quais têm consciência e que lhes são próximos (PISTRAK, p.177, 2003)”.
O campinho possui muitas possibilidades de
desenvolvimento e uma coesão íntima com o coletivo das crianças, principalmente
por ser um dos lugares centrais da vida infantil (IBDEM, 2003) e que não pode
ser deixado de lado pelas autoridades, muito menos pelos moradores de seu
entorno. O fato é que por falta de investimento coerente com as necessidades
dos moradores do ACSL o próprio coletivo infantil é muito frágil, uma vez que
se acabarem com o campo, o que não é impossível de acontecer, as possibilidades
de organização destas crianças será ainda mais limitada e nossa inserção neste
meio para auxiliar no processo de auto-organização infantil também.
De forma implícita, mas muito presente na prática
concreta, sempre nos atentamos para a defesa de outra sociedade que não esta
atual, na qual nos colocamos uns contra os outros mantendo os ‘poderosos’ no
poder. Isto nos serviu de base para dialogarmos com nossas crianças no sentido
de que a brincadeira da capoeira não precisava ser violenta para ser legal. Infelizmente nos faltou ‘perna’
para estruturarmos uma espécie de questionário que nos traria elementos mais
concretos no sentido de como as crianças e adolescentes que participaram das
aulas de capoeira vêem à mesma após nossas intervenções. Porém o ‘corpo’ fala,
ou seja, nas próprias intervenções esta ‘violência aparente’ foi diminuindo
dando lugar ao prazer de brincar de
capoeira.
Como entendemos a capoeira como um elemento da cultura
corporal e conseqüentemente como conteúdo da educação física, recorremos a
TAFFAREL e ESCOBAR, s/d, para exemplificar de forma teórica uma de nossas
concordâncias acerca dos tipos de atividades encaminhadas a satisfazer as
necessidades sociais, como é o nosso caso com a capoeira, a partir do critério
para compreender as dificuldades apresentadas ao longo de nossas intervenções:
o da prática concreta. Partindo desta premissa
“[...] faz-se evidente que o objeto de estudo da Educação Física é o
fenômeno das práticas cuja conexão geral ou primigênia – essência do objeto e o
nexo interno das suas propriedades - determinante do seu conteúdo e estrutura
de totalidade, é dada pela materialização em forma de atividades – sejam
criativas ou imitativas - das relações múltiplas de experiências ideológicas,
políticas, filosóficas e outras, subordinadas à leis histórico-sociais. O geral
dessas atividades é que são valorizadas em si mesmas; seu produto não material
é inseparável do ato da produção e recebe do homem um valor de uso particular
por atender aos seus sentidos lúdicos, estéticos, artísticos, agonisticos,
competitivos e outros relacionados à sua realidade e às suas motivações. Elas
se realizam com modelos socialmente elaborados que são portadores de
significados ideais do mundo objetal, das suas propriedades, nexos e relações
descobertos pela prática social conjunta (TAFFAREL e ESCOBAR, s/d)”.
Defender abertamente qual deve ser o objeto de estudo
da educação física e conseqüentemente para que devemos construir qualquer
prática pedagógica é custoso, mas essencial para compreender de que forma e a
partir de que ponto de vista foram planejadas nossas intervenções.
Ainda sobre a capoeira, seria necessário um espaço no
mínimo coberto para uma continuidade mais efetiva de nossas intervenções. A
criação de identificação das crianças com a capoeira ainda é mínima e seria
necessária a continuidade de nosso trabalho com um número maior de intervenções
semanais além de um apoio estrutural mínimo para a execução das aulas. Trazendo
para o debate SILVA, et e al, 2007 e coadunando com o autor,
“Na perspectiva de denunciar a realidade e anunciar possibilidades,
defendemos no processo de construção do conhecimento uma postura educativa,
científica, política e revolucionária (p.85, 2007)”.
Educativa por entendermos nossa atuação como
necessidade para a formação humana critica das crianças e demais moradores do
ACSL; Científica por que nosso papel enquanto universitários é de levar a
ciência para as classes mais desprovidas de acesso aos bens produzidos pela
humanidade, ao mesmo tempo em que valorizamos o saber popular articulando-o com
o conhecimento científico; Política, por termos como objetivo chave de nossa
intervenção a auto-organização comunitária dos moradores do ACSL; e
revolucionária porque não vemos outro caminho para a superação das
desigualdades sociais de nosso país e do mundo, senão a superação do sistema de
produção capitalista e a defesa do projeto histórico de sociedade socialista.
Construir instrumentos de auto-organização comunitária
nos possibilita abrir caminhos para a conscientização de classe na comunidade
e, desta forma, fazer dos moradores sujeitos de sua própria história e não mais
apenas meros espectadores e futuros trabalhadores (no caso das crianças) a
serviço do capital.
“Este é o enfrentamento para o próximo período, se quisermos agir na
linha da superação dos elementos que constitui a contradição de fundo que
mantém a maioria excluída do acesso aos bens culturais, entre os quais a
educação física & esporte. A questão de fundo não é a inclusão, mas sim, a
resistência, a ocupação, a produção, a preservação a partir da determinação
responsável e voluntária de produtores associados que tem como elemento regulador,
nos planejamentos de baixo para cima do sistema de produção e troca, não as
leis do mercado, mas fundamentalmente as necessidades vitais do SER HUMANO
(TAFFAREL e ESCOBAR, s/d)”.
Há muito que fazer e este trabalho, assim como a
auto-organização comunitária e a defesa e desenvolvimento da capoeira enquanto
pratica social improdutiva, somam apenas um grão de areia neste deserto que
permeia a luta de classes. Contudo nós continuamos em marcha.
“A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e
da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de
circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as
circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio
educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, a divisão da sociedade
em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade [...]. A coincidência da
modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e
racionalmente compreendida como prática transformadora (MARX, s/d apud
MÉSZÁROS, 2005, p. 21)”.
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[1]
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
[2] Usamos
este termo como sinônimo de Proletariado (MARX e ENGELS, p. 23, 2006).
[3] “Por
burguesia entendemos a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos
meios de produção social e empregadores do trabalho assalariado. Por
proletariado, a classe dos operários assalariados modernos que, não possuindo
meios próprios de produção, reduzem-se a vender a força de trabalho para
poderem viver”.(MARX e ENGELS, p. 23, 2006)
[4] Este
espaço de Lazer é conhecido e chamado na comunidade de “campinho”. Nós também
nos apropriamos deste ‘apelido’ e o utilizamos algumas vezes ao longo de nosso
artigo.
[5] Ver
SILVA e DAMIANI, 2005.
[6] Em nosso
primeiro artigo intitulado “FUTEBOL E CAPOEIRA NO ALTO DA CAIEIRA: rumo à
consolidação de Núcleo de Cultura Popular e de Movimento”, trazemos vários
exemplos de construção coletiva como a luta pela água no ACSL, além da
revitalização do campinho construída pelos próprios moradores da comunidade,
incluindo os jovens e as crianças.
[7] Grifo
nosso.
[8] Celebre
frase de Mestre Pastinha em entrevista no Documentário: Pastinha, uma Vida Pela
Capoeira s/d.
[9] Forma
que os moradores chamam a ONG situada no ACSL regida pela Igreja Católica e que
tem como objetivo a educação complementar de 200 crianças e adolescentes no
período de contra-turno escolar.
[10] Nome
dado a uma moeda antiga que serve como acessório indispensável para tocar
berimbau (REGO, p.72, 1968). Hoje os capoeiras utilizam também pedras
arredondadas que chamam pelo mesmo nome (dobrão).
[11]
Expressão utilizada para demarcar o local de saída inicial dos jogadores de
capoeira. O mesmo situa-se na frente dos três berimbaus que compõe a bateria da
roda junto com o pandeiro e o atabaque, segundo os fundamentos do Grupo de
Capoeira Roda Livre.
[12] Ver
CHAUI, 1995.

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